quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Azul


É, o mar azul – o mar azul invade minhas mãos quando eu me vejo tocando minha abstração mais suave. E meus pulmões estão repletos da tua voz – que eu absorvo tragando visões. Eu te vejo. Eu te vejo em caixinhas de música com bailarinas rodopiando solitárias. É que quando penso em ti a solidão é inerente – apenas eu concordo. Apenas eu concordo que não tive nenhuma culpa – porque para mim não há culpados nunca. Há limitações às vezes – ser uma folha em branco tem suas limitações. Eu era uma folha em branco. Mas fui preenchida. E ser preenchida também pode atrair limitações – mas tudo depende. Tudo depende de todos – mesmo que busquemos a auto-suficiência.

Liz Christine

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Like a long forgotten dream


Uma música sem rosto. Para descansar um pouco do teu olhar. É que não vejo ou sinto em todas as músicas. Sim, quero escutar algo que eu desconheça e possa me ajudar a não pensar em ou pressentir algo que desejo mais do que. Algo que se desenha na massagem que eu parei antes que. Eu senti teus ombros e minhas mãos começaram a doer por vontade de – e me interrompi porque eu. Minhas mãos poderiam ter deslizado e eu não queria nada porque não conseguia ler o que eu gostaria de saber nas tuas frases. Parece que tu não gosta quando fico em silêncio ou quieta. Mas é que eu preciso. Eu sou também silêncios. Um silêncio feito de transparências. Até que falo demais – e depois descanso de mim mesma porque vivo mergulhada em idéias e sonhos dos quais tento escapar de tempos em tempos – então eu prefiro me esquecer de mim e te ouvir. É simples. Eu preciso que tu me conheça em alguns trechos e me desconheça em algumas partes – e seria agradável se tu desejasse o conhecido e o desconhecido. Onde houveram mudanças – como seríamos? Onde eu nunca soube – como seria agora que descubro? Alguns anos sem te ver – e algum dia após te reencontrar eu vim à tona de outra forma. Quero dizer, eu me senti assim dessa forma: nada era previsível como antes (quando eu não te via mais) e eu – eu me espantava diante de tanta. Parece que antes eu era muito velha e nada mais me despertava curiosidade – como se eu houvesse perdido a sede. As novidades, qualquer uma delas, me pareciam velhas conhecidas e nada me surpreendia. Até eu vir à tona de novo com toda a sede que eu carrego dentro de mim quando estou diante de uma realidade na qual quero (me) descobrir. As músicas desenham cada qual um rosto ou lembrança – e muitas delas redesenhavam teus olhos ou uma voz ou qualquer outra coisa que esqueci. Porque é muito fácil esquecer – quando não é essencial. E se meu equilíbrio dependesse em parte de uma lembrança parcialmente apagada por uso abusivo de não importa o quê – por mais que eu tentasse não há como lembrar. Mas da nossa convivência eu tenho imagens vivas dentro de mim. Muitas noites e dias juntas, tudo vívido – mas seria melhor deixar de lado e realmente começar do início. Um início novo e autêntico. Não sei. Eu guardo lembranças tão boas de ti que é difícil me desfazer delas – mas eu posso te ver ainda como alguém que devo conhecer (e não como alguém que já conheço bastante). Sabe por quê? Talvez porque nunca seja o bastante. Ou talvez porque pode-se mergulhar cada vez mais fundo. Ou talvez porque seja natural aceitar e procurar as mudanças que todos nós sofremos ou buscamos.

“Can’t you see
What love and romance have done to me
I’m not the same as I used to be”
My last affair, Billie Holiday

Liz Christine

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Asas de.


“And I ain’t guilty of crimes accused me of,
But I’m guilty of fear.”
It could be sweet, Portishead

Fecho os olhos. Tua voz flutua em torno da minha nuca – onde começa o meu. Minha intenção é mergulhar nos teus olhos – verdes como as asas de uma. Sinto as cores. Cores se multiplicando em minha nuca num contínuo que se estende pelos ombros e escorrega através de meus braços até chegar em minhas mãos – eu quero. Preciso tocar tua pele. Teu rosto de frente para mim – mas onde eu te sinto é em minha nuca. Quando meu olhar se perde dentro das minhas intenções – é como se eu os fechasse para ouvir tua música. Porque tuas frases parecem saídas de um poema musicado – e feito exclusivamente para mim, apenas eu poderia mergulhar dentro desse poema. Sei que quando tento dizer a qualquer pessoa o quanto eu – não posso dizer. Não há como explicar uma vontade irracional ou um prazer físico causado por um simples olhar – mas nada é simples, ou nada é complicado como pode parecer. Não posso nesse instante ler teu verde. Não compreendo tuas perguntas e não adivinho tuas motivações – é que minhas pernas concentram toda a minha atenção. E sei que querem correr – ultrapassar todas as etapas. Etapas estipuladas por quem? Talvez não passe mesmo disso. Talvez não haja nenhuma vontade em ti de me ter mais uma vez. Já me teve e talvez já tenha sofrido por motivos que esqueci ou nunca soube ou não quero ver. A inconstância de meus pensamentos gira em torno de possibilidades utilizáveis de te esquecer rapidamente... ao chegar em casa vou tentar – e claro que consigo – pensar em outro rosto que não o teu. Vou fabricar pensamentos que me impeçam de querer te ligar para saber se chegou bem em casa. Pouco me importa. Os meios de superar não importam, o que conta é superar. Antes – eu queria mergulhar, tentar, te respirar, te ver. Agora – não sei.

Eu quero a realidade do encontro de intenções que convergem na mesma direção. Não preciso de mais fantasias – devo me despir delas – porque apenas sonhar não me leva. Preciso ser levada. Até os limites de mim mesma para esquecer o quanto tenho medo. Medo de perceber que ainda te quero.

Liz Christine

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Sei mas não sei


“Never enough,
Render your heart to me.”
(música All mine, Portishead)

Sei que fumo demais e sei que como de menos. Sei que não sou mais tão silenciosa quanto costumava ser. Mastigo palavras – todas elas – mas não são tantas. Leio mais do que ouço, eu sei. Sonho mais do que escrevo e sei que escrevo mais do que consigo dizer. Sei que pouco importa quantas vezes te imaginei cruzando meus caminhos, a realidade sabe como ultrapassar minha imaginação. É que te imaginava outra pessoa, uma pessoa menos linda, menos atraente no presente do que foi no passado – apenas te imaginava menos para te esquecer mais. Sabe que eu te imaginava menos imprevisível? É que quanto menos posso prever mais eu perco o auto-controle. Não que eu perca tempo prevendo ou raciocinando o comportamento de pessoas – é que a maioria das pessoas pode-se ler displicentemente e de má vontade. Curiosidade é para mim uma palavra frívola que não abrange uma vontade real – eu tinha necessidade de te rever um dia, o quanto antes se fosse possível, curisiodade eu não tinha nenhuma. Curiosidade é para o que desconheço ou conheço muito pouco – coisas que funcionam como... algo sem tanta importância que não faz parte de mim – mas já quis provar de tudo um pouco. Antes. Antes de te conhecer. Antes de te perder. Antes de conviver contigo. Antes de sofrer a tua ausência. Antes de toda a ansiedade de saber que o quê se tinha era talvez a mais importante de todas as minhas... a melhor das fantasias que um dia se tornou real. E se foi. É fácil negar. É muito fácil dizer – “não foi nada”... É fácil bloquear um trauma na memória e é fácil negar um amor – mas são coisas diferentes. De qualquer forma, eu vivia na negação. Negava que curiosidades sem profundidade e sem desejo real de – bem, curiosidades talvez teóricas que não faziam parte da minha realidade sensorial – eu as negava e apagava de minha memória. Mas também negava os prazeres do amor real – aquilo ao qual eu realmente me inclinava. Era fácil me entregar a ti totalmente – mas também era fácil não dizer que te amava. Mas agora olhando teus olhos, o difícil – mas não impossível – é não deitar no teu ombro. Qualquer tipo de contato físico, sabe? Segurar tuas mãos, deitar no teu ombro, chegar mais perto – mas como disse, difícil mas não impossível. Também não é impossível que eu não te ligue no dia seguinte – sou uma menina muito... nada controlada, muito menos controlável, mas muito... fiel a mim mesma. Não ria da palavra fidelidade, sei que soa estranha em mim. Se um dia você ler o que escrevo, saberá – ou não? – que estou falando de ti. E talvez tu entenda o que provavelmente sempre soube a meu respeito – minhas verdades são fáceis de ler. Sonho muito mais do que escrevo e escrevo mais do que falo – mas sei também que olhos falam, rosto fala, pele fala, mãos falam, vestidos falam, sapatos falam, unhas falam. E a tua mania de dizer que tudo parece um filme – isso eu também não previa escutar mais uma vez. Para mim nem tudo parece um filme – algumas coisas sim. Há quem me faça sentir como num filme e há quem seja música para mim ou um livro daqueles que quanto mais eu leio mais eu...

Mais eu leio, mais eu vejo, mais eu ouço, mais eu mastigo, mais eu te quero...

Liz Christine

Inesperado

Muito antes a vida me fascinava – e eu vivia brincando com extremos. Talvez eu tentasse. Agora a vida deixou de me fascinar – e agora sinto medo. Um medo que antes eu não tinha. Eu pensava que quem amava demais fazia exigências – e agora vejo que muitas pessoas exigem demais, e sem um pingo de amor. Exigem que a gente sorria o tempo todo – não podemos fechar as cortinas ou o rosto nunca. Exigem que a gente nunca fique em silêncio – não se pode ficar nem contemplativa nem pensativa. E exigem que encaremos sonhos como sonhos apenas – nada mais que sonhos sonhados que devem ser deixados de lado diante de uma realidade esmagadora. Tenho colecionado decepções. Talvez eu espere demais – mas na verdade não espero nada idealizado. Eu espero o inesperado. Apenas o inesperado – e as tragédias me parecem convidadas. Todas elas aceitam o convite e me visitam – eu as convido mas sempre acho que não vão aparecer. Já me defini como uma tragédia que busca prazeres. Mas qualquer definição é limitada por definição. Tudo deve ser mais abrangente. Mais abstrato. Menos limitado. Menos definido. Mais inesperado. Menos previsível. Não espero nada mais – e nada mesmo acontece. Antes, muito antes, eu também não esperava muito – mas os sonhos sonhados por mim chegavam sem convite prévio. Talvez eu fosse até mais confusa, e mais suicida – apesar de ter sido fascinada pela vida, eu fui suicida, simultâneamente. Agora tenho medo de muitas coisas, inclusive da morte – e engraçado: a vida não me fascina mais como antes. Alguns dias atrás, eu podia ter dito que nasci de novo – eu estava ouvindo música e me senti tão nova diante de tudo (sobretudo diante de um rosto amado por mim que eu já conhecia da minha vida anterior), então me enrosquei toda e abracei minhas pernas, deitada de lado. A música era muito macia e muito inédita para mim – e o rosto que eu conhecia da minha vida anterior (aquela vida na qual tanta coisa me fascinava) estava tão próximo de mim... sem estar comigo realmente. Mas hoje já me sinto outra. Em tão pouco tempo, já me sinto cansada de exigências. Não é difícil que as pessoas olhem para mim. Mas é realmente muito difícil que não pensem que sou como uma espécie de massinha de modelar – não, eu não sou. Procurem outras massinhas de modelar. Eu posso me transformar – por mim mesma, quando for necessário ou quando eu assim desejar. Eu posso ter vida curta – muitas existências e formas diferentes de sentir em uma única vida. Mas quem quer exigir até conseguir modelar totalmente à sua maneira – vá procurar outra. Eu sou nova ainda, e estou farta. Pretendo mergulhar em silêncios. Sorrir apenas por prazer. Ser real e espontânea. Contida se eu quiser. Nada contida se eu preferir.

Liz Christine

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Primeira febre amorosa


Derramo lágrimas por todos os poros do meu corpo e elas se fundem num rio de incompreensão que atordoa qualquer boa-vontade minha em relação ao. O futuro soa como gelo se derretendo em minhas costas enquanto mãos doces massageiam meus ombros num lugar cheio de fumaça que resseca os olhos que se fecham para te ouvir melhor. Tuas frases curtas e complexas como a simplicidade do primeiro amor correspondido – e portanto real – grudam no meu pescoço sensível a teus beijos. Eu acredito plenamente em ti e te confio minhas idéias – mas não hoje. Hoje quero te sentir sem raciocínio algum – apenas te sentir – e minhas lágrimas são imagens de sentidos ampliados que desenham meu prazer. Talvez eu chore quarta-feira. Mas hoje não, aqui não, contigo não, agora são apenas lágrimas feitas de brigadeiro – devem deslizar pela garganta, engolidas por tua impaciência de querer a extremidade. Eu nunca imagino que isso tudo tão verdadeiro possa desaparecer um dia – porque confio no teu amor. Eu aprendi desde a infância que todos traem e que muitos abandonam – mas tu não é todos nem muitos, tu é única e me fascinam tuas características próprias. Então eu te confio tudo que existe em mim e que não permanece escondido de mim mesma – dos meus esconderijos eu não tenho controle nem consciência, mas se tu consegue mergulhar neles e decifrá-los pode ir em frente também. O amor também é feito de prazeres físicos – mas nisso eu já me entreguei a ti mesmo antes de te amar assim. Desde o início. Eu não espero. Não espero que antes dos prazeres venha a confiança, pois confiança também se faz de prazeres compartilhados. E códigos nascem da confiança. Para ser franca, qualquer coisa em ti me deixou a impressão – antes mesmo de eu te conhecer cada vez mais – que tu era completamente diferente de tudo que eu já havia... desde o primeiro beijo, eu senti... e só se aprofundou... em todas as noites que passamos juntas. Espero que tu saiba o que fez comigo, pois eu já tentei fugir de ti algumas vezes – e tu me buscou de volta e me conquista mais a cada dia ou noite. E agora eu te amo mas não espere ouvir essa frase de mim – já temos um código para esta frase, e eu o digo sempre que tu quer ou que eu quero...

Liz Christine

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Borboleta verde


A borboleta verde voa em direção ao meu seio esquerdo. E suga minha consciência. E quero apagá- la de minhas perdas insuperáveis – quero que dela se façam apenas prazerosas reflexões e memória deliciosa de lembrar. Não deve ser considerada uma perda – mas a melhor parte de minha vida. E que seja breve. Não vou prolongar esse momento. Ouço Billie Holiday e Nina Simone – especialmente “The moon looks down and laughs” e “I wish I knew how it would feel to be free”. Também escuto “Smoke gets in your eyes” cantada por Dinah Washington. Penso na borboleta verde que me teve – e não mais no que perdi ao perdê-la. Ela me teve sem perceber. Pensava que era minha e eu a renegava mas eu era dela e também a sugava. Como se nossa essência fosse pólen, uma para a outra... em três breves anos de convivência.

Liz Christine

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Grito


“Uma mulher com asas precisaria de um amante que as tivesse ou pelo menos não sentisse medo ao perceber as dela. Ou seres com asas são necesseriamente solitários? Pois um amante, ainda que também tenha asas, pode querer fugir de tais enredamentos, asas com asas, vôos entrecruzados, queda no abismo, o risco.
Podia – mesmo sendo meio-anjo também – preferir uma mulher mais rasa e mais apaziguadora.
Anjos e fantasias estão desde sempre exilados de si nesse terror das possibilidades, dos deslimites.” (Histórias do tempo, Lya Luft)

Estrelas dançando nos olhos dela. A lua mora no bolso da minha saia vermelha. E eu beijo o rio prateado que corre nos lábios dela. A vida é assim, um rio prateado que circula dentro de nós e nos percorre dos pés aos lábios. Meu rio anda inquieto. Quer transbordar e se fundir ao rio dela. Ela beija minhas pálpebras fechadas e sussurra palavras ao meu ouvido. Sim, meu amor, estamos com sede, sede de rios translúcidos e transbordantes que se fundem num grito de prazer.

Liz Christine

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Nebulosas

Uma vozinha fraca chega através da janela. As paredes são de papelão. Minha cama é uma caixinha de música encontrada num antiquário e dada de presente. Eu ganhei uma rosa branca. As transparências. Todo sonho tem as suas transparências nebulosas.

“Sacudo a dor como se tira dos ombros o vestido que gruda no corpo. Se pudesse sair assim do casulo.” As parceiras, Lya Luft

A gata dorme na janela. Janela com tela do sétimo andar. Olho a gata, não estou pensando em nada. Simplesmente não consigo pensar. Que não voltaria mais a essa casa, é o que eu achava. Achava também que não ia mais dormir sem lexotan.

“Fecho os olhos: quando vou conseguir fechar assim o coração? Me encerrar em mim, como outros nas aparências, na loucura?” As parceiras, Lya Luft

Lexotan. Um e meio. Mais um quarto. Todo sonho tem suas transparências nebulosas. Toda vozinha fraca tem sua raiz nas asas das paredes de papelão. Todas as paredes nessa rua são de papelão. E as nuvens são amarelas. Amarelas e sorridentes.

Mas meu pesadelo é laranja...não laranja como foi a cor do meu cabelo um dia, ou laranja como é o pêlo de gatinhas vira-latas andando por aí no meio de outros gatos de outras cores... mas sim, meus pesadelos são da cor de uma abóbora apodrecida e descartada de qualquer receita...

Liz Christine

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

A reciprocidade no amor


Um cigarro após o outro, tentando alcançar o inatingível. Só porque não há respostas. Sou essencialmente incerta. E estou basicamente errada. Como acreditar em um amor único e sair por aí em busca de? Sempre em busca de. É porque não quero te esperar.

As estrelas choram e as nuvens caem. Minha voz desaparece e teu rosto se desfaz. A música dá voltas em torno de uma estrela até escorrer dos teus dedos inquietos. Sons escorrendo da tua pele e indo de encontro à minha boca – e eu me calo porque estou engolindo cada nuvem silenciosa que cai do céu que mora dentro de um quadrado azul.

Um cigarro após o outro e a fumaça desenha palavras que nunca vou pronunciar na tua frente – ou será que pronuncio? Tudo vem em ondas e eu não consigo apreender todos os sentidos subentendidos em um círculo. Tem uma bolha ao meu redor que me impede de ver a falsidade e talvez a ironia de situações duvidosas que me soam belas. Eu acredito em sorrisos e em olhos que brilham no ritmo de um coração descompassado.

Não vou fazer perguntas. Não vou vasculhar o indecifrável. A minha incerteza cheira a baunilha. Minhas dúvidas estão na essência que antecede a. Eu não compreendo mas não julgo. Algumas vezes eu penso entender mas posso estar enganada. Sei que erro e me bifurco. E me multiplico e me escondo e reapareço e sempre te vejo – te vejo dentro da nudez de uma página a ser preenchida. E não creio em amor que não seja recíproco.

Diga que poderia vir a amar demais um dia – mas não fale que ama quem não retribui teu amor. Pode ser apenas uma fantasia que caso se tornasse real perderia o brilho. Então diga que ama se for correspondido o teu anseio – e assim... assim eu creio. Eu creio no amor que se alimenta de pequenas ou grandes surpresas cotidianas e da convivência.

Eu tenho uma fantasia. E tive um amor real por uma mulher. E gostei de algumas outras que não foram meu grande amor – mas eu gostava muito. Mas a fantasia – bem, a fantasia – atrapalha? E o que poderia vir a ser um dia? Como saber? Eu só creio em amores correspondidos. Mas desenho quadrados azuis nas paredes e guardo estrelas feitas de realidade na minha parte mais precisamente viva e sensível.

Liz Christine

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Ainda é possível acreditar que eu posso?


Eu sinto que – a distância entre.
(...) Duas pessoas: duas pessoas que não se largam – em pensamento – mas.
: Não conseguem se comunicar (...)?

Eu nunca disse que te amava. Talvez eu nunca tenha dito nada além de códigos inventados – não por mim, por tu. Sempre dormíamos na mesma posição: você de barriga para cima me abraçando e eu deitada no teu ombro ou peito com uma perna sobre tuas pernas. Mas tu se mexia durante a noite e eu te agarrava dormindo. E eu me virava e tu me abraçava. E quando acordávamos estávamos entrelaçadas de alguma forma.

Eu sinto que: a distância – entre:
... Duas pessoas que não se comunicam senão através de.
(...) Olhares e pressentimentos. (!)

Tu nunca disse que confiava em mim – mas quem poderia dizer tal coisa de mim? Eu contava quase tudo, até demais. Falava minhas intenções, caso as tivesse, de continuar este ou aquele – laço. E quando eu estava (fora da realidade mas feliz), eu beijava outras pessoas – sempre na tua frente. Mas em dias normais (que não eram tranqüilos apesar de serem normais), eu só beijava uma pessoa: tu. Mas tu também andou beijando outras pessoas – não só na minha frente. E eu sempre preferi que me contassem tais coisas. E tu me contava. E eu não te estressava – pelos teus desejos – (a única causa dos teus estresses eram os meus desejos)... Mas descobri uma coisa muito importante nas minhas andanças, enquanto ainda era tua namorada: tu era a melhor de todas as pessoas que conheci. E a que mais eu gostava de estar junto. Então, por quê? Por que tantas pessoas em momentos mais festivos? Variedade de sabores e um pouco de – estresse por tua parte.

Eu sinto que ? – não sei dizer, ainda)
(... Ainda não consigo dizer – e se há tantas formas de falar,
_ Por que eu precisava ter dito?

A distância que se abriu com o passar do tempo. A comunicação profunda que eu pensava existir. Entre nós duas. Pouco importa. Eu não quero mais olhar para isso. A não ser para encontrar uma resposta: ainda é possível?

Ainda é possível acreditar que eu posso?

Liz Christine

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A tua ausência

Quando alguém diz: “não liga, não, você arranja outra pessoa melhor…” – eu penso que. E quando tu quer precisamente aquela pessoa, e não outra? E quando não te serve ninguém mais, ninguém no mundo inteiro a não ser aquela pessoa? Há quem pense que qualquer coisa na vida pode ser substituída – ou abstraída. E quando tua vida inteira depende de uma coisa? E quando nada te serve a não ser aquilo? Rigidez, podem dizer. Digam o que quiserem, eu continuo acreditando – quando se quer de verdade alguma coisa ou alguém, é assim que deve ser. Se algo pode substituir aquilo, então não é tão verdadeiro ou essencial – e parece que nada soa verdadeiro a alguns. Eu noto hoje em dia que busquei espelhos. É, espelhos, busquei espelhos de mim mesma – porque eu sinto e penso dessa forma. Eu testei pessoas (mais precisamente mulheres, mas talvez não apenas mulheres) – eu as testei até as últimas conseqüências. Eu testei, aprontei e provoquei o máximo que minha fragilidade cruel me permitiu – e admirei profundamente as que conseguiram. E desprezei quem desistiu fácil – mas não foi um desprezo por orgulho, foi um desprezo pela constatação de que ou aquela pessoa era muito fraca ou ela não tinha amor suficiente dentro dela (por mim). A minha admiração por quem parecia amar até as últimas consqüências do sentir e persistir foi profunda e me gerou uma ligação que eu sentia ser indissolúvel – mas só até o amor acabar. Em alguma parte de mim esses amores extremos permanecem inalterados e vão viver comigo até – até. Mas essa parte que conserva tais amores que me refletiam convive bem com o desejo presente de seguir em frente. E como eu agiria agora que me reconheço assim? Vou continuar testando pessoas? Provocando? Não sei, mas acho que isso passou ou está passando. Mas sei que não vou acreditar em qualquer “eu-te-amo” dito por hábito – ou em quaisquer rosas dadas por hábito. Eu não creio muito facilmente em ninguém – porque já vi tanta encenação do amor... as formas sem conteúdo. Eu vi ao meu redor e me defendi como pude – testando e provocando para ter a sensação duvidosa do amor verdadeiro e profundo e extremo. Eu, quando quero, quero mesmo – apesar de me esvair por aí enquanto tento e sonho alucinadamente. Mas não sei esperar e nunca me concentro em apenas uma coisa. Eu continuo me testando por aí e esvaio minhas forças e propósitos – apesar de desejar mais do que tudo apenas alguém ou qualquer outra coisa. Resumindo: sou uma romântica obssessiva que acredita num único amor que talvez possa vir a ser eterno mas a juventude é curta e eu pretendo me divertir e provar muito de vários sabores. É difícil de entender? É só mais um teste... talvez... quem tiver que permanecer na minha vida, permanece. Sou filha de psicólogos mas tento me compreender muito mais que eles tentam entender a si mesmos ou a mim. E leio com voracidade e uso minhas leituras ou experiências pessoais para mergulhar cada vez mais em mim mesma – tudo que faço vai até as conseqüências mais enlouquecedoras. Passo madrugadas inteiras repensando. Mas também posso passar madrugadas inteiras me esquecendo. Dançando. Viajando. Abstraindo. Ou mergulhando em mim sem o menor pudor. Aliás, no momento eu tenho um certo amor obssessivo até os extremos da melacolia mais profunda pela tua ausência – mas não espere me encontrar sozinha em casa esperando por ti...

Liz Christine

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Como uma rosa despedaçada


“But it’s just no fun
When you hate the person you’ve become”
Roll on, Dntel

Não tomei nada hoje. Porque sinto um gosto amargo. Um gosto amargo de pesadelo. E pode-se perder tudo, menos a si mesmo – o que bate e o que cria. Onde se abrigam os sonhos ou o amor. E as memórias. Apago memórias de meu coração que bate no ritmo de um amor que me perdeu. E evito pensar as sombras de um coração partido pela idéia que não consigo alcançar. Não tenho jeito. Sou caso perdido. Mas não encerrado. Não me fecho em mim mesma a não ser quando – há um gosto amargo. Por isso não quis tomar nada. Para evitar. O veneno de meus pensamentos. A pureza de me encontrar ainda assim. Não sinto raiva mas me revolto e disparo tempestades em poucas palavras – poucas mas extensas. Eu quero a tranquilidade – a tranquilidade dos extremos do prazer saciados.

A tranquilidade do dia seguinte, ouvindo apenas música e tuas palavras doces. Sentir tuas mãos suaves me apertando contra ti num abraço macio. Mas algo me estraga. É a incerteza. A incerteza – aconteceu ou não? Tu me ama mesmo assim? Fica comigo depois disso? Eu me sinto inocente. Eu esqueci tudo. Não sei de nada. Sei pressentimentos, mas não tenho lembranças. Eu estava lá, tu estava lá, e não sei em quê pensávamos. Sinto uma conexão entre as pessoas em certos momentos. Mas em momentos de sobriedade só há conexão entre os que se amam. Ou as que se amam. Como nos filmes, em alguns filmes, tu salvou minha vida – e eu já te amava antes disso.

Sinto o passado no presente. Ou sinto presente meu passado. Quando vejo uma fotografia tua eu revejo tudo. E não entendo nada. Tu preencheu vários dos meus lados porque tu foi muitas – e é a única que eu gostaria de ter de volta. Então eu revejo aquele instante e o instante que se seguiu àquele momento – e só vejo a ti. Mas quando fico insone aquele pesadelo antigo me vêm em imagens. Imagens vagas nunca nítidas. Mas não me odeio, não por isso, nem por nada. Apenas me sinto decepcionada por ter te perdido. Como se o erro fosse exclusivamente meu – “e foi, exclusivamente seu”, tu poderia me dizer caso ainda falasse comigo. Mas não reconheço, não reconheço esse erro – entenda uma coisa que tu nunca compreendeu: eu não tinha a experiência que tu pensava ver em mim. Eu sabia tanto quanto você.

Quanto tu me deixou passei uns tempos entre copos e comprimidos e alguns canudos. Em banheiras de água quente e camas de amigas que não eram tão amigas. Tudo passou. Hoje não tomei nada. Mas meu amor por ti não passa. E a memória daquela manhã em que acordei no hospital se confunde em minha cabeça – isso foi muito antes do nosso relacionamento amadurecer. Mas foi do que você me acusou quando se cansou. Tu sempre parecia dizer em todos os teus gestos que eu não te amava tanto quanto você me amava. Mas você se enganou, pelo menos nisso – o resto sobre mim tu pareceu adivinhar, ler na minha pele ao beijar minhas mãos. Você adivinhava meus desejos e se adiantava a eles. Via minhas fantasias entre frases caídas durante minhas distrações – e me surpreendia porque eu mesma ignorava minhas fantasias. E assim tu me teve mais do que qualquer pessoa – e me deixou, falando de assuntos mortos para mim. Eu morro mais sem ti do que podia ter morrido aquela manhã. E se tu algum dia me quissesse de volta? Eu teria forças para mergulhar? Acreditaria de novo em ti mais do que em qualquer outra coisa? Só sei que me sinto despedaçada. Como uma rosa que serviu de brinquedo às dúvidas de alguém.

Liz Christine

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A Amante Ideal


As pessoas muitas vezes me confundem. Hoje eu ouvi de alguém que tem um relacionamento estável há mais de dez anos que o amor não existe. Se o amor não existe por que essa pessoas mantém um relacionamento há tanto tempo? Por que a sociedade assim nos exige? Eu até compreendo um relacionamento baseado em sexo – quando você encontra A Amante Ideal ou o amante ideal (isso diga-se de passagem, não creio em tal existência) você pode até manter um relacionamento amoroso baseado em sexo... mas como não parecia ser este o caso, e nem sei se atração física pode durar tantos anos sem outras bases, então por que então manter um relacionamento se o amor não existe? Ter alguém do seu lado, só isso? Eu já andei dizendo por aí que não acreditava em Amor mas era da boca para fora – só esperava que alguém me provasse o contrário... apenas esperava que minhas teorias fossem destruídas por alguém. E foram. Resumindo: eu consegui... ou me iludiram? Eu acreditei todas as vezes que alguma mulher dizia me amar. Bem, talvez. Talvez eu questionasse internamente, talvez eu esperasse mais ações que palavras – mesmo que eu ame as palavras, eu amo mais os impulsos e gestos e toda a parte física prazerosa e sensorial da minha existência. Mas enfim, muitas vezes acreditei. Sempre foi o meu maior desejo, por mais que eu dissesse que não existia. E para provar que eu não acreditava, beijava tantas pessoas quanto eu... quissesse. Enquanto sonhava com o que dizia não acreditar. E me senti amargurada e decepcionada com minhas táticas por pensar ter perdido um grande amor pelos meus comportamentos – e agora alguém vem me dizer que amor não existe. O que não entendo é: por que essa pessoa não termina seu relacionamento estável e não sai beijando todo mundo por aí? Por que a sociedade falaria mal dela? Se fosse um homem, não falariam tão mal assim – e isso talvez me irrite. Eu creio que existe. Mas para quem não crê, existem muitas outras formas de se viver – para quê seguir as regras então e se comportar como a sociedade espera de você? Eu não sei se estraguei relacionamentos com sucessivas... tentativas de fugir mas... no fundo eu queria tanto e... morria de... (pânico de me prender). Mas estou presa às dores de um amor intenso não só de minha parte – ela parecia me amar sinceramente também. Então, o que devo fazer agora? Uma coisa eu sei: por enquanto me pergunto (sem achar resposta) se estava tão errada assim e se caso eu tivesse me comportado como todos esperam... se esse amor estaria vivo até hoje. Mas no momento (se isso acontecer um dia) em que eu duvidar de verdade (e não da boca para fora) da existência do Amor – se eu não acreditar mais não vou me prender à regra nenhuma. Nem acreditando em Amor talvez eu não me prenda à regra alguma. Eu tentei ter Amor e Liberdade, mas se amor não existisse eu apenas pensaria em Liberdade – fora com as prisões. Mas o melhor tipo de relacionamento para mim é mesmo baseado em sexo – talvez isso possa evoluir para Amor, ou talvez eu confunda as coisas... Bem, A Amante Ideal para mim era justamente a tal que eu mais amei – eu a amei por isso ou ela se tornou Ideal porque eu a amava? Sabe-se lá...

Liz Christine

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Quase inteira


De quantas borboletas é feita a solidão de uma lágrima que brota da minha fala? Sinto a ansiedade da breve espera até que a onda cresça e me cubra de gotas extraídas de pétalas de rosas úmidas abraçadas ao meu corpo. É que rosas abraçam. E borboletas me sugam e me absorvem e se vão – até o infinito e o extremo do amor que se acaba um dia. Mas não se esgota em mim. Não tiro conclusões. Uma descoberta é o início de alguma coisa. Uma conclusão é o final de um longo percurso. Quero o movimento. E o descanso em movimento. Quero sentir cada pedaço do meu corpo em contato com tua pele de pétalas de rosa. Tua boca, tuas palavras, teus seios onde descanso em movimento. Mas sinto o peso da solidão – e a dor de um final que se aproxima quando penso que tudo acaba um dia. Eu não me planejo. Nem sei o que deveria te dizer. Às vezes no teu colo eu penso em coisas tristes – como? Às vezes quando tu quase adormece e se cala e eu fico sozinha com minhas imagens geradas pela onda que vai decrescendo aos poucos – nesses momentos eu choro, ou quase choro, então olho teu rosto e teus olhos fechados e sinto teu cheiro me invadindo... e quase me desligo de mim mesma. Sempre me desligo de mim e de tudo – para sentir tua proximidade. Eu quase te amo. Quase não posso viver sem ti. E quase me confundo se tu é uma rosa ou uma borboleta. E também eu quase me amo em alguns momentos como esses. E me pergunto por que não posso ser e sentir e mergulhar inteira em ti e no meu relacionamento contigo – da mesma forma que me sinto por inteira quando a onda respinga ecos da mais profunda sensação de ser e estar. Ser inteira. Estar aqui – e não com o pensamento distante. Eu tento mas eu quase desisto. Quase desisto de tentar – e quando isso acontece tu insiste e me procura e eu me concentro novamente em quase dizer sem palavras que preciso tanto do teu amor quanto o silêncio é recheado de verdades inteiras e completas. Não digo que te amo. Mas sei que de alguma forma tu me sente – inteira.

Liz Christine

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Infelizmente


Mergulhar no azul e comer o verde. Absorver o verde com a língua e com toda a minha ânsia por profundidades – as profundidades do verde.

Dizer ao pato azul – eu só quero te ver, não quero te ter... quero ouvir apenas – tua voz...

Não dizer nada à fada verde. Cantar poemas para ela. Poemas eróticos sobre o amor entre fadas e borboletas.

Quando eu namorava a fada verde conheci uma fada lilás. E depois da fada verde namorei a fada lilás – com quem eu já tinha ficado antes. Eu – que sou a fada vermelha – saía com a fada lilás no início do namoro mas depois ela começou a voar sozinha ou com amizades dela enquanto eu ficava trancada em casa no escuro do quarto chorando. A fada vermelha estava com problemas mas não havia quem compreendesse – nem médicos ajudavam. Psiquiatras, psicólogos, psicanalistas – nenhum fazia a fada vermelha abrir a boca. Ela permanecia trancada. A fada vermelha ligou o gás de uma casa vazia sem gatos nem cachorros e tomou calmantes e fechou todas as janelas – quando o gás a deixou com muita dor de cabeça e ela estava prestes a dormir, a fada vermelha abriu todas as janelas e desligou o gás. E ligou para qualquer pessoa para não pegar no sono. E depois disso começou a enxegar um pouco melhor a própria situação.

E não havia mais liberdade. Nem amor. Nem ménages à trois. Nem exibicionismos.

Uma noite qualquer ela bebeu uma garrafa de vinho com alguns remédios. E ninguém mais ouviu falar dela... porque não saiu mais de casa. Mas não morreu. (Infelizmente...)

Liz Christine

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Silêncios


_ Às vezes parece que a música está chorando. Mas é um choro sexy... e lento. O sexy costuma ser lento... arrastado. Quanto mais rápido e ágil mais cheira à agressividade. Parece que a música chora... de vez em quando... e é sexy... e lento. E cíclico talvez. Coisas cíclicas acabam envolvendo. Lentamente... elas se expandem, círculos cada vez maiores... você me entende?
_ Não sei...
_ Já teve vontade de morrer depois do orgasmo?
_ Acho que não.
_ Eu também não... mas eu morro diariamente, ou talvez a cada fim de semana... eu morro e acordo me renovando a cada segunda-feira ou a cada dia... mas nunca tenho vontade de morrer nem penso mais nisso... eu pensava, sabe? Antes. Agora não... muitas vezes eu sento no chuveiro debaixo d’água e choro... não sei o motivo pelo qual faço isso. Mas não parece que a música chora também? (Silêncio.) A gente morre diariamente por coisas tão bobas... que parecem tão sérias na hora... mas tenho mania de achar que as coisas sérias são bobas. Uma vida séria, por exemplo, é boba para mim. Casamento e fidelidade também me parecem coisas bobas. O que eu quero mesmo... (Silêncio. Um cigarro é aceso.)
_ O quê você quer mesmo?
_ O quê você quer mesmo?
_ Eu? Coisas bobas... e você?
_ Coisas bobas que me dêem algum prazer... e que durem seis horas ou três anos... ou talvez oito anos... tudo são fases, e algumas fazem falta... não quero sentir saudade, quero carregar comigo o que eu gosto até que eu me canse e mude... para todo lugar, até acabar... mas tudo acaba, não é triste? Até os remédios que disfarçam a saudade acabam e não se pode mais usá-los...
_ Que remédios disfarçam a saudade?
_ Sei lá, remédios ou brinquedos ou drogas, qualquer coisa que se queira... sabe, eu amava meus brinquedos quando criança. Não sei por que algumas músicas... já ouviu “Tell it like it is” da Bettye Swann? Ela canta: “if you want something to play with, go and find yourself a toy...” Mas eu tenho um bichinho de pelúcia com quem eu durmo todas as noites, abraçando, sabe? É melhor ser um brinquedo do que ser um enfeite ou algo assim... alguma coisa trancada num armário transparente que ninguém pode chegar perto ou mexer... acho que estou ficando com tédio... quase angústia... algumas coisas são belas de se olhar mas dão angústia... você não acha?
_ Talvez. (Silêncio.) Falar costuma ser chato. Eu não gosto muito de falar. Nem tu. Por que está falando tanto? (Silêncio.)

Liz Christine

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

All of me


Eu não falo, eu sussurro… sussuro que te quero mais do que desejo a minha cura. Ficar curada de você? Para quê? A simples lembrança de ti me perseguindo me provoca uma irrefreável sensação de. Sonho realizado. Porque sempre quis, sempre te quis. E tentei, tentei fugir com outra... mas voltei e volto a ti sempre que... fecho os olhos e te sinto por perto. Eu te sinto cada vez mais perto de mim.

“You took the part that once was my heart
So why not take all of me

All of me
Why not take all of me
Can’t you see
I’m no good without you”
(Cantada por Billie Holiday)

Liz Christine

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Teu lado


Não é nada, é só uma nudez entediada que passa ao menor sinal de que você poderia ou talvez não pudesse mais – voltar. Voltar a mim em pensamento – só em pensamento. Porque não te quero mais e te acho tão sem sentido... meu pensamento voa em direção a ti mas não te reconheço mais quando te vejo de longe. De longe, bem longe. Lá no sótão mora um sapo azul. Desço as escadas mas não abro a porta do sótão porque, bem, porque tenho tanto... não, não tenho medo, mas apenas desço as escadas no escuro e volto correndo. Volto à minha nudez entediada... tatuagens que não te dizem mais respeito... Lá no sótão tem uma lagoa de Danette onde moram patos bravos que arrancam as próprias asas, é por isso que não entro lá. Me assustam sempre. Eu te ouço antes de dormir. Ouço tua voz gravada no meu travesseiro... e penso tanto que quase perco o sono. Então eu te escrevo, esperando qualquer coisa que não compreendo bem, e recebo silêncios. Muitos silêncios... de tantos lados. Do teu lado.

Liz Christine

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Souviens toi ce jour-là toi et moi

Eu era uma flor. Uma flor sem raízes mergulhada num copo cheio de favo e mel – e foi o mel quem alimentou e estimulou os espinhos a crescerem. Porque antes não haviam espinhos. Eu precisava de água e minhas pétalas agarraram e sugaram os seios de toda água que encontrei – e misturei água ao mel que estimulava espinhos a surgirem do meu caule antes nu. Eu mastiguei folhas verdes de um par de olhos pelo qual me apaixonei – mas nessa época os espinhos já se haviam desenvolvido. E eu machuquei – todos os dedos que acariciaram minhas pétalas. Mas a flor morreu – seus espinhos cresceram mais que ela própria. Mas desenvolvi asas – para poder voltar a ti em pensamento. Asas que me colocam ao lado de quem quero na minha cama de mel e água. É que ainda me alimento de mel, mesmo sabendo que uma coisa se transforma em outras muitas e repetidas vezes. Se você teve uma infância árida e algum dia as pessoas começam te tratar de outra forma – uma forma mais doce, talvez – você não entende muito bem e começa a se defender. Antes que... antes que eu diga mais alguma coisa, vou-me embora.

Liz Christine

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Reticências


Não sei, só sinto que tudo é tão... (Sem luz) E tenho comido demais, o que vejo por aí... (Transparente) Sexo de menos. Sempre é de menos... (Nebulosa) É que eu sinto tanta falta, e tenho tanta... (Desgosto) Ou talvez tanto... (Raiva) No, I can see no light and no way to... (Liberdade) Forçando-se a sorrir, quando não se deseja mais nem um fio de... (Cóleras) Meu cabelo cresce tão rápido, só estou aparando as pontas de três em três meses, mas a franja eu corto todos os meses, e eu não sei bem o sentido disso, quero dizer que... (Decepções) Faltam olhos, teus olhos, faltam beijos, teus beijos, faltam também direções a serem seguidas, teus passos, como anda tua vida?, a minha, você sabe, a minha não anda desde que... (Orgasmos) Seguem-se assim, aqui, eu busco e encontro, lá, sabe onde?, lá em qualquer... (Banheiro) Algumas coisas fazem algum sentido, outras não, mas todas de alguma forma qualquer, entenda, todas elas eu... (Amei) Da minha forma, e não sabendo que um dia meu jeito de sentir ia ser... (Despedaçado) Por você, minha garota de... (Meias) E eu me sinto tão... (Verdes) Eu usava aquelas sete oitavos coloridas só para... Teus olhos.

(texto dedicado à garota de olhos verdes)

Liz Christine

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Des histoires insensées


“Para qué quiero otros besos?, si tus labios no me quieren ya besar...”
(trecho de Perfídia, cantada por Sarita Montiel)

Porque te esqueço em alguns momentos. Olvidar tus labios. Besos inolvidables.
Não te esqueço para sempre porque te encontro em algumas tentativas de te esquecer.
E como já fiz muitas besteiras tentando te esquecer, decidi não fazer mais besteiras e tentar te encontrar...
Mas eu te perco a cada tentativa.
Então decidi esquecer a idéia de tirar alguma conclusão sobre a melhor forma de agir, e me deixar fluir, escorrer, escorregar... ser.
Ser tua em pensamento – apenas em pensamento. Porque não queremos a realidade de uma tentativa frustrada de uma compreensão mútua que nunca tivemos.
Eu sei que você não entendeu muito do meu mundo – e eu não consegui enxergar o teu.
Eu te enxergo apenas através de espelhos com portas trancadas.
Todas as portas estão trancadas para mim agora, e não vejo senão sombras de realidades fragmentadas.
Vejo um pedaço teu em um rosto que me é familiar. Um rosto que vejo todos os dias e que talvez pense como tu. E a sombra do teu rosto nesse rosto que me é familiar me faz pensar que talvez eu seja um pouco louca.
Ou muito. Por te ver também do avesso. Talvez tua maneira de pensar seja quase oposta à minha. A respeito de muitas coisas. E eu quero a verdade:
É possível te esquecer? Ou te ter?

(texto dedicado à uma voz)

Liz Christine

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Empty bed blues


O mar salgado que mora dentro de um par de olhos verdes que escorre do meio das minhas pernas quando penso na tua língua passeando por mim. Os bicos dos teus seios atraem minha língua como palavras atraem perguntas. Sempre fugindo de perguntas em meio a tantas frases. Você não mora no meu passado, você vive inteira dentro de toda água que cai dos meus olhos castanhos quando lembro da tua maneira de ser. E como é agora? Como fico eu nesse quarto que tantas vezes dividimos trocando carinhos e olhares? Todas as fotos que tiramos de nós duas, você jogou fora? As que ficaram comigo, guardei. Guardei só para mergulhar no verde dos teus olhos que mora na minha pele e escorre do meio das minhas pernas quando penso em você tirando nossas roupas. Eu te quero ainda, e penso no que vou fazer amanhã. Amanhã quando eu acordar quero te ver dentro dos olhos da minha gata que ocupa o vazio em que você me deixou. E vão haver outras e outras, e mais outras, muitas manhãs sem você me perguntando com o que eu sonhei a noite passada...

Liz Christine

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Car ma vie aujourd'hui ça commence avec toi


Preciso me concentrar para mergulhar. Mergulhar no teu rosto fechado para minhas abstrações e símbolos. Quero mergulhar no teu meio-sorriso sem blusa e sem noção. Sem noção de que penso em ti dia e noite e madrugada adentro. E percebo uma mudança em mim. Quero te jogar fora das minhas noites insones. Quero te ter ao meu lado na cama ou em qualquer outro lugar. E percebo uma mudança. Tenho me convencido de que devo te esquecer de uma vez por todas. E procurar qualquer outra pessoa que preencha esses dias sufocantes de angústias que caem pelo chão a cada passo incerto de quadris nus. É que ando semi-nua pela casa esperando – esperando o quê? Quando não há mais ninguém, te espero. Ainda te espero e te carrego para onde quer que eu vá. Em pensamento, a cada novo dia, todas as manhãs, e tenho as tardes preenchidas por – desesperos e minhas mãos. Minhas mãos buscam em meu próprio corpo algum prazer ou alívio, doce ou violento. Tenho tido impulsos sim, impulsos de mais uma vez – sabe que andei fazendo isso quando a menina dos olhos verdes me deixou? Andei fazendo machucados por mim inteira. Em todos os cantos. Eu te espero sim, querendo te tirar daqui – minha cabeça. Minha cabeça, triângulos ou círculos. E meus olhos, no espelho, vêem – o quê? Sei que é verdade que as músicas, cada uma tem um rosto, e o teu rosto se repete, se repete em tantas delas...

Liz Christine

domingo, 13 de julho de 2008

Caterina


Love is extra-terrestrial
And love falls from the stars


Na grama nua pousou uma estátua que veio saltitando por entre as árvores de cristal. Eu me apaixonei pela estátua e tudo cantava ao meu redor. Esquilos tiravam fotos e corriam de volta para suas tocas. Meus olhos brilhavam, meus lábios sorriam. Mergulhei no verde dos olhos da estátua e acordei numa banheira cheia de vodca e gelo. Não suporto álcool. Eu estava entre estranhos, canudos e copos. Gritei pela estátua e perguntei se eu podia usar o telefone. “O telefone fica no quarto”, me disseram. “Me levem até lá”, pedi. Eu não tinha realmente para quem ligar. Só queria rever a estátua. Olhei pela janela, lá embaixo a grama e as árvores. O verde, o delicioso verde. A dor, a decadência da dor de uma paixão de cristal. Ao menor atrito, se quebrou.

Liz Christine

sexta-feira, 4 de julho de 2008

La spirale du silence


“Did you know when you lost?
Did you know when I wanted?
Did you know what I lost?
Do you know what I wanted?”
(trecho da música Silence, Portishead)

Aquela noite ou manhã, sabe? Não, não fala nada, espera eu acender mais um cigarro de canela. Eu não fumava ainda... mas misturava tantas coisas, lembra? Não tenho certeza se foi naquele mesmo dia que você não acreditou em mim e eu fiz o que fiz sem saber o que fazia. Tenho a sensação de que te encontrei na casa de um amigo em comum, e você falou qualquer coisa que não me agradou. E também falou de alguém. Alguém que eu conheci depois. E eu não sei, sabe?, porque é tudo tão confuso na minha cabeça. É que eu fugia da realidade. E você nunca percebeu, ou percebeu e não tentou compreender.

... alguém que tenha
a minha senha
a chave perdida
em algum lugar
da minha vida...

Um trecho de um poema escrito aos dezoito anos, pensando em ti. É verdade, encontrei poemas meus escritos dos dezesseis aos dezenove anos, sabe onde? Na internet, espalhados. É porque depois da minha quase-morte não escrevi mais poemas. Escrevi alguns poucos e depois parei totalmente. Qualquer coisa de inocente morreu em mim. Mas poesia também vive em outras formas de expressão. Vejo poesia na tua voz. Sabe as trilhas sonoras dos filmes do David Lynch? Você também vê?, ou só eu vejo? Eu também vejo alguma poesia nos bigodes daquela gata que dorme dentro daquela noite ou manhã e nunca mais acordou. Uma vez por outra ela abre os olhos, depois volta a dormir.

Liz Christine

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Hymne a l’amour


Peu m'importe si tu m'aimes,
Je me fous du monde entier.

Nous aurons pour nous l'éternité,
Dans le bleu de toute l'immensité,
Dans le ciel, plus de problème,
Mon amour, crois-tu qu'on s'aime?

Dieu réunit ceux qui s'aiment.

Você olha meus seios, eu olho tua voz. Fecho os olhos para ver tua voz. É a primeira vez que você olha meus seios, mas já vi tua voz antes e visito tua voz sempre que desejo. Tua voz é calda de chocolate quente. Meu olhar é água que escorre de uma planta que vi crescer no jardim onde moravam borboletas e gatas brancas e rosas sinceras. Mas ninguém mais habita meu jardim. Foi desocupado por um furacão de lágrimas vindas da escuridão da loucura que nasce de um amor que fracassou. Morreu por descuido mas eu não sabia muito bem como cuidar de nada. Eu também me maltratava, mas sem deixar de pintar as unhas de vermelho e lavar o cabelo com xampu cor-de-rosa de ginseng e oliva. Hidratantes de leite e cereais ou de baunilha. Batons com vitamina E e filtro solar. Tantos cuidados. Tantas drogas. Tantos transtornos alimentares. Tantas decepções. Espera-se sempre demais. Eu sinto que todo mundo quer me tirar alguma defesa ou exigir algum comportamento. Não me importa muito que eu perca defesas. Mas há exigências que não posso nem devo cumprir. E também não quero. Não vou fingir que sou como gostariam que eu fosse porque alguém qualquer dia desses vai me aceitar simples e absurda. As borboletas eu guardei na minha pele. As gatas brancas eu busco em sonhos. As rosas sinceras estão escondidas em fotografias que talvez eu tenha perdido dentro de um livro nunca publicado por editora alguma. E a planta cresceu e anda solta por aí mas nunca mais a vi. E tenho a tua voz que carrego comigo grudada em minhas orelhas quando penso em tudo que deixamos de tentar.

Liz Christine

domingo, 15 de junho de 2008

Voz que se derrete em sons


“I'm a high school lover, and you're my favorite flavor
Love is all, all my soul
You’re my Playground Love

Yet my hands are shaking
I feel my body remains, themes no matter, I'm on fire
On the playground, love.

You’re the piece of gold the flushes all my soul.
Extra time, on the ground.
You’re my Playground Love.

Anytime, anyway,
You’re my Playground Love.”
(música Playground Love, Air)

Pato de chocolate. Voz de pato. Um rosto dividido em dois. Unhas que deslizam sobre a pele nua de defesas. Voz que se derrete em sons. Sons repartidos ao meio, metades divididas em três partes, até chegar no mínimo do bom-senso ignorado. Não, não devo. Mas sim, siga em frente. Não, nunca se aproxime. Mas, claro, pense um pouco. E saia, saia da minha coleção de brinquedos desejados. Voz que preenche a noite que é suave como um livro comprado no desabrochar de uma idéia. Acho que antes eu não sabia, não fazia idéia do quanto. Sim, esqueça. Esqueça a cada novo beijo. O que antes eu era e já não sou até que por acaso se for possível eu torne a ser. Livre da tua voz que se derrete em sons dentro de uma boca que se divide em duas. Uma parte te agarra com o olhar se desviando sempre. A outra metade te diz para continuar seguindo teu caminho sem soltar tuas mãos. E assim eu coleciono brinquedos e remédios. Cada nova conquista é um remédio para as decepções anteriores. E cada novo remédio se torna um brinquedo possuído ou sonhado nas minhas mãos. Ou eu te quebro ou você me decepciona mais uma vez. Quebrar tua cegueira ou certeza de que não sou sólida. Não, não sou mesma sólida como você talvez seja. Tenho a solidez de um rio. Um rio que chora tua rigidez e que bebe todo dia a tua voz que se derrete em sons.

Liz Christine

quarta-feira, 11 de junho de 2008

A alegria das cabrinhas


Eu alterno pirulitos de morango com cigarros de canela e beijo tuas asas de fada verde do bosque encantado das borboletas febris que voam em direção às rosas e tulipas que brotam de lençóis que me cobrem. As borboletas moram na minha pele. E o pato que mora na lagoa dentro do meu banheiro me pergunta: “é verdade que sou um sapo que ronrona quando toma banho?” A fada verde desliga o vento gelado e eu saio da cama e desço as escadas.

Liz Christine

sábado, 7 de junho de 2008

Eu-fragmentada


Não consigo, não posso, não quero. Não sou e não quero mais saber disso. Nem vou tentar mais uma vez, porque é algo que nunca me atraiu. Essa possibilidade de não ser eu. Sou outra, sempre outra, outra que se sabe eu-outra. Quando penso em qualquer coisa, idéias divergentes me anulam a possibilidade de uma conclusão. Mas também nem gosto de conclusões. Sempre pronta para mudar qualquer coisa. Ainda em formação do próprio eu. Mas já passei da idade. Não tenho idade. Sou todas as idades juntas dentro de mim. Estou em todas as etapas e idades. A cada momento, uma parte diferente de mim responde ou age. Fragmentada. Eu-fragmentada. Eu choro. Choro porque não sou uma apenas. Uma parte chora, outra quer seguir sem olhar para trás. Mas teus olhos me acompanham, mesmo que eu não olhe para trás. Não importa com quem ou onde eu vá, você me acompanha. Porque engoli teu olhar e tua maneira de falar ou ver o mundo e as outras pessoas. Você me absorveu e me esqueceu. Mas eu tenho você na minha pele para sempre. Tua ausência física me queima os olhos. Não consigo enxergar mais nada. Tua presença abstrata me provoca seqüelas. Já não sou mais a mesma. Mas nunca fui. Nunca fui compreensível. Nunca fui tão clara quanto você gostaria. Teus ciúmes não teriam nenhum fundamento hoje, porque não quero saber de nada mais do que te irritava. Na verdade só sinto angústia de você-sabe-o-quê. Ah não sabe? Sempre soube. Antes mesmo de eu saber. Mas eu corria contra. Eu não sabia.

(texto dedicado à garota de olhos verdes)

Liz Christine

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Eu faço tudo para chamar tua atenção...


Acordo com gosto de fruta. É que eu respiro tua pele em sonhos. E mastigo as pontas dos teus cabelos dormindo. Tua pele clara como a minha, teu cabelo bem mais claro que o meu, teus cílios de boneca. Fumo meu primeiro cigarro do dia e conto o que sonhei. Tomo meu café com torradas e fico com preguiça de fazer o que sempre faço ao acordar. Lavar o rosto, escovar os dentes, escovar o cabelo, passar creme no rosto. Tomo dois banhos por dia, mas não ao acordar. Costumo acordar meio-dia. Fico entediada só de contar e paro por aqui. Mas com você não há espaço para o tédio. Você entre meus pensamentos osbcuros como pupilas dilatadas na escuridão de uma madrugada em claro. Olho para minha gata e vejo você. É a cor dos olhos dela. Troco a água para ela, só para ela. Tem outra gata, mas é para a gata de olhos verdes que eu troco a água. Mas não posso deixar de falar do meu gato. São duas gatas e um gato. O nome dele é Sócrates por causa de um livro que eu estava lendo. Mas passei a chamá-lo de pato e ele sempre atende. Ele é comilão e adora doces e barras de cereais. As gatas preferem atum light. Eu não leio, eu devoro lambendo as palavras. Em todas as palavras de um livro sobre o absurdo de um amor extremo, eu vejo nuances e detalhes de nós duas. Sartre escreveu uma peça sobre um crime passional, Les Mains Sales. Teu crime foi ter me deixado de joelhos rezando para que você voltasse para mim. Mas ninguém viu isso nem nunca vai ver. Todas as bebedeiras e remédios para emagrecer ou dormir e todos os meus escândalos mais pareciam ataques de menina mimada. Ainda bem. E as festinhas orgiásticas mais pareciam manias minhas. Ainda bem. Quer saber? Eu faço tudo para chamar tua atenção...

Liz Christine

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Rio principal

Quero beijar sua boca antes que a noite se desfaça. Só existo depois que a noite cai. A noite desliza pelos meus quadris como as palavras doces caem dos meus olhos. Choro todas as mentiras e verdades contadas em nome do amor. Quando você se interessar por outra, não vou pensar em terminar nem em me sentir triste ou desesperada ou, muito menos, não vou nem pensar em fazer uma cena. A liberdade deve ser para todos. Tive uma namorada que se eu beijasse outra, às vezes ela se divertia e se juntava à nós e outras vezes ela me batia ou me agredia verbalmente. Outra namorada ameaçava terminar comigo. E outra entrava em depressão mas nunca reclamava abertamente. Não escondo meus sentimentos. Não vou entrar em depressão sem dizer nada. Só entro em depressão quando me sinto um pato fora d’água. Incompreendida, injustiçada, presa, asas podadas. Pode fazer como quiser. Quero viver à minha maneira. Mas eu devo ser a sua escolha. E você deve ser meu caminho. Tenho que achar que te amo acima de qualquer outra. E você deve me achar mais especial que qualquer uma. Todas são especiais, mas eu devo ser sua preferida. E você tem que ser meu chão. Posso ser seu rio. O rio principal. Tenha quantos afluentes desejar. Me deixa desejar outros lábios que não os teus. Mas se você não concorda... não vou mais brigar pelas minhas idéias como antes. Nem vou mentir. Quando ninguém mais concorda com você é a hora de admitir para si mesmo – ou o mundo é atrasado e não merece alguém como você ou você está errado. E não cheguei à nenhuma conclusão... só sei que te amo e não quero te perder.

Liz Christine

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Pedaços


O perfume de baunilha flutua dentro do quarto verde. As paredes são verdes para mim, e as prateleiras também são verdes para mim, só as janelas são vermelhas como a casca de uma maçã que eu uso no chá. Bebo muito chá e café esperando que a onda volte. A onda de calor intenso que faz meu corpo se deslocar entre luzes coloridas indo de encontro aos teus abraços perfumados. Eu chupo gelo e chupo teus dedos e mordo maços vazios de cigarro até que se desfaçam. Tem gosto de papel. Nunca fiz papel de boazinha com você. Nunca quis esse papel. Não combinava comigo. Mas agora que você se foi eu escrevo meu amor em todos os cantos deste quarto. Pensei até em tatuar teu nome mas isso eu nunca vou fazer. Tua mão deita comigo quando durmo nua. Tuas palavras me acompanham quando escuto música. Você falava coisas loucas e desconexas muitas vezes. Eu contava fantasias pensando estar dizendo verdades. E fantasias não são também verdades pessoais? Quando eu queria que você voltasse – mas não disse nada e falei sobre outras coisas – você me disse que eu precisava de alguém que me desse vestidos caros. Eu imaginei então que você era um vestido, o vestido que melhor me vestia era teu corpo nu – e pensei que alguém ia te trazer de volta para mim. Fiquei esperando que alguém trouxesse minha boneca preferida falando coisas desconexas. Você falou que eu ia me casar com um editor e ia publicar um livro e eu imaginei que o editor seria gay e nunca tocaria em mim mas ia adorar me fotografar com minhas mulheres todas e tiraríamos muitos fotos eróticas só com mulheres. Por que você dizia tantas bobagens no telefone de madrugada? E o que você quis dizer quando falou que haviam pessoas dentro de uma urna? Não entendi mas respondi que eram pedaços de pessoas misturadas. E você disse que não, eram pessoas mesmo, e ainda disse assim: “essas coisas existem mesmo...” Minha bonequinha de olhos verdes e frases loucas, quam acabou doida fui eu. Sempre fomos, não? Mas você se adaptou, eu não. Você provavelmente mudou muito, eu não. Eu só perdi alguns pedaços importantes de mim. Você levou embora uma das melhores partes da minha breve vida. Sem nenhuma culpa. Eu também nunca me senti culpada por ter feito quase tudo como eu quis. Mas também nem sempre sabia o que eu queria e criei problemas para mim mesma difíceis de resolver. Eu quis viver intensamente e acabei no inferno da minha memória que nem eu consigo juntar os pedaços...

Liz Christine

sábado, 19 de abril de 2008

Febre dos sentidos


Febre dos sentidos. Visão embaçada pela sede dos teus olhos. Você é minha fome. E eu só quero me alimentar de você. Não preciso de sal nem de açúcar, quero o mel das tuas palavras e o gosto da sua pele. Eu sei o que você vai dizer, você sempre me fala o quanto me ama e me quer do seu lado. Então eu espero, eu te espero chegar naquele momento em que nos permitimos dizer tudo, sabe aquela sensação de que o mundo é perfeito enquanto estivermos abraçadas? Pode me apertar com força, eu gosto, mas me beija com suavidade, a mesma suavidade que tem o perfume de uma rosa fresca.

Liz Christine

terça-feira, 15 de abril de 2008

Estrelinha verde


Uma estrelinha verde piscando dentro da chuva e eu aqui tão solitária pensando em teus olhos que piscam dentro das minhas mãos que tocam meu corpo cansado. Cansada de não fazer nada, eu me sinto tão cansada de fazer nadinha para ter você de volta me envolvendo em seus abraços apertados e me beijando dentro da minha introspecção constante que se dissolvia na tua pele nua. Teus seios eram tão brancos quanto os meus mas você não tinha nenhuma pinta entre os seios como eu tenho. Você contava minhas pintas e me contava sua infância e me falava que teve um gatinho quando criança. E você tinha um gato que morava com sua avó e que rolava quando fazíamos carinho na barriguinha dele. E eu acreditava que eu era a sua gata ruiva porque eu era ruiva e já não sou mais. E não sou mais temperamental e difícil de controlar também. E também já desconfio de palavras doces, mas antes eu me deliciava e me entregava às doçuras de escutar você falando comigo como se eu fosse tua gatinha. Mas agora que sei que não era eterno desconfio de qualquer declaração de amor e afetividade. Você me destruiu um pouco quando foi-se embora levando com você a melhor parte de mim. O que eu era para você foi a melhor parte de mim. Teu quarto era o melhor lugar do mundo e talvez não exista mais desde que você se mudou de lá. Eu já tinha ouvido declarações antes, eu já tinha visto pessoas apaixonadas antes, já tinha provado também o sabor dos ciúmes alheios e já sabia que meu amor à liberdade e minhas precipitações estressavam quem convivesse comigo. Mesmo assim você foi única e especial em tudo. Porque foi a primeira que amei de verdade e tudo era novo então. Talvez eu pudesse ter amado antes mas – não quero falar sobre outro erro meu. Eu destruo. Destruo tudo que me toca porque tenho tanto medo, tanto medo de não conseguir ir embora quando bem entender, que destruo assim. Minha estrelinha verde, agora chove e não tenho você para me proteger da morte. Porque eu morro um pouco quando estou solitária e morro mais ainda quando me jogo. Cansada e com muita sede, tanta sede. Sede dos bicos dos teus seios, sede de você toda, e cansada de me lamentar. Choro tudo que já foi destruído e durou o suficiente para me ensinar a verdadeira liberdade. Não quero mais várias mulheres. Quero uma só e seria livre ao lado dela...

Liz Christine

sábado, 12 de abril de 2008

Mar esverdeado


Coração partido
Febre frio sede
Febre de sentidos alterados pelo excesso
Excesso de sede e tateio toda a minha e a tua pele
Nuas como é nua uma noite de palavras trocadas
E sentidos tocados
Passeia pelas minhas imagens
Tua mão me massageia com certa violência
Mas teus beijos são doces
Como é doce teu perfume de criança espontânea
Ao natural sem esconderijos e disfarces
Teus beijos me são necessários como sonhos são essenciais
Você é a mais verdadeira das minhas verdades
Quando estamos assim abraçadas e nuas
E as estrelas sussurram que mesmo que essa noite acabe
Mesmo quando o mar se for de dentro de nossas frases
Ditas no escuro
Ainda estaremos juntas
Juntas no meu coração partido
Partido porque a realidade é crua
E lá fora não há música
Mas aqui assim com você
Eu me renovo e me esqueço
Esqueço o frio
E mergulho no mar esverdeado

Liz Christine

terça-feira, 8 de abril de 2008

The way you look tonight

I see your face in every flower, your eyes in stars above
Estrelas nas paredes, seu cabelo escorrendo água, estrelas-do-mar no chão do banheiro. Tem uma piscina dentro do chuveiro, e conchas dentro da piscina, conchas peroladas e pequeninas. Seus olhos escorrendo pétalas de rosa, você se desmanchando em sorrisos luminosos, seus braços se agitando em breves movimentos. Estamos assim, protegidas pelo vapor d’água que embaça todos os espelhos. Pode-se desenhar nos espelhos, desenhar um sol, uma lua, peixinhos e gatos. Os gatos miam em espiral e recortam palavras da minha boca. Eu estou cantando no seu ouvido.

I’m living in a kind of daydream
Já é quase de manhã, já é quase meio-dia, já são quase dez da noite, o tempo escorre assim, a noite voa, o dia vem. Vem me dizer que me deseja sempre úmida e fresca. Sou a angústia de uma idéia sem refresco. O prazer de um desejo recíproco. Sou o prazer de um desejo satisfeito. Sou o tédio de uma noite sem sentido. Sou a satisfação de um prazer compartilhado. Sou a obsessão que se repete monótona. Sou a diversidade que gira em espiral.

“... cair dentro de si mesmo, mergulhando numa tonta e escura onda de amor.” (Perto do coração selvagem, Clarice Lispector)

Você se cansa da piscina. Quer sair do banheiro. A água está tão quente, as conchas são tão macias, eu não quero sair não. Quero adormecer aqui e acordar abraçada com você. Quero viver assim e respirar todas as pétalas que escorrem dos teus olhos. Todas as gotas de exaustão que escorrem do seu cabelo. Você está exausta. Eu não. Estou bem acordada. E desejo as estrelas brilhando nas paredes.

Liz Christine

sexta-feira, 14 de março de 2008

Olhos verdes de mel com waffles


Eu preciso, eu preciso, eu preciso, e se não conseguir eu morro. Morro de saudade e de desgosto. Saudade do mel dos teus olhos e da tua intensidade de sabores. Você foi meu sabor favorito e dos seus olhos escorria calda de açúcar queimado, e dos teus seios nasciam todo o amor e a precisão das pétalas de uma rosa vermelha desabrochando. Tua pele e abraços, eu morro se não sentir de novo beijos teus em meu pescoço. Morro se não sentir tuas unhas deslizando pela minha coluna vertebral, da nuca até o cóccix. Eu preciso, eu preciso, eu preciso, e se não conseguir eu desapareço de tanta dor e desespero. Preciso ter um sonho quase real, vívido, um sonho que eu possa até apalpar, agarrar com os dedos e a língua, um sonho com os seus olhos e com você inteira. Porque ter você de novo, eu sei, não vou ter mais. Então que eu sonhe, que eu sonhe que o amor que você teve por mim uma dia, dois anos e meio, que eu sonhe que nosso amor durou até hoje. Eu sonhei sim, sonhei que tinha uma casa enorme com um quarto enorme e uma cama de casal enorme e uma piscina funda no quintal e três banheiras enormes em três banheiros diferentes dentro de casa, e eu me perguntava – e agora, sem ela, de que me adianta ter essa casa e essa cama de casal tão grande? E eu não quero, ouviu?, eu não quero sonhar assim... Não quero sonhar essa realidade tão afiada que me corta o coração, de que não tenho mais teu amor e teu corpo e tuas palavras e teus sonhos. Não quero sonhar que não estou mais nos teus planos. Quero sonhar outros sonhos com você, sonhos eróticos, sonhos voltados para um futuro que nunca vai ser. Já não te vejo mais, nem como amiga, e seria um martírio também ser apenas tua amiga. Queria que você fosse mais que minha namorada, minha mulher, meu amor eterno como é eterno o amor das músicas e dos filmes. “There’ll be one unless that someone is you...” – não é assim, se eu cantasse essa música seria outra coisa, mais ou menos assim: there’ll be many other girls but no one will be like you, you’ll always be the one I really love... there’s only been one love for me, and that one love is you… but I like sex and I can’t live without it… Será que posso amar de novo? Mesmo que sim, você e teus olhos verdes e tudo mais em você, são eternos dentro de mim. E agora, à parte os sonhos, onde eu encontro outra mulher inesquecível?

Liz Christine

quarta-feira, 12 de março de 2008

Quantas noites em claro?


Claro que eu tento, eu tento seguir em frente
Mas fico até as cinco da manhã pensando
Pensando em como era sentir teu corpo dormindo ao lado do meu
E me abraçando a cada vez que eu me virava ou me mexia
É claro que podia ter outro corpo, outro corpo dormindo ao lado do meu
E ainda assim, será que eu pensaria nos teus braços?
Depois que você se foi, eu te procurei em quatro mulheres
Em poucos meses foram quatro
E depois foi uma só em quem busquei ainda o que perdi de você
Sabe como é buscar uma pessoa em outras?
Ou simplesmente não querer se dar um tempo e admitir que se perdeu algo de importante?
Não me dei tempo algum após tua partida
Nem busquei a privacidade para sofrer
E ninguém jamais diria que eu sofria
Porque eu sorria e saía e bebia entre outras muitas coisas
Agora sim eu me dou o tempo necessário
Para pensar em tudo que dividimos
Mas novamente eu não me admito ficar assim
Quero correr contra e esquecer e seguir
Não escrevo sobre teus olhos porque gosto do passado
É algo que por mim eu nem pensava mais
Às vezes quero te desenhar repetidas vezes com palavras
Mas muitas outras vezes quero simplesmente colocar outra no teu lugar
Mas isso, eu sei, é impossível
Cada pessoa deve abrir o próprio espaço na vida de alguém
Ao invés de ocupar um vazio
E você deixou um vazio
Um abismo entre eu e a realidade
Ainda vivo naquela realidade
Aquela que você criou para mim e eu entrei
Você não escreve, mas criava realidades e mundos
E nomeava coisas nunca ditas
E deixou um vazio em mim
Entre eu e a possibilidade de quem sabe seguir
Eu te desenho repetidas vezes com minhas palavras
E te dedico meu blog inteiro
Mesmo quando não escrevo sobre teus olhos
Na verdade há alguém além de você
Que também me deixou um vazio
E estou cansada disso
Cansada de um par de olhos verdes e uma voz
Eu amava teu conteúdo e teus pensamentos únicos
E não tenho mais nada a dizer
Quantas noites em claro?

Liz Christine

segunda-feira, 10 de março de 2008

A sombra dos seus olhos


Estou sozinha em casa e tenho uma sombra olhando para mim. A sombra de uma vaga idéia acerca da sensação de não saber mais o que é sonhar em ser eu não sei mais como. Não sei mais como agir quando sinto que quero mergulhar mais fundo. Só penso em fugir de todo mundo mas te procuro em cada uma. Em cada sombra que olha para mim, eu te busco cada vez mais, eu me afasto de tudo que não possa ser como deveria ser naquela realidade de cores fragmentadas. Eu não creio. Não creio em nada que não seja feito com ou por aquilo que nasce espontâneamente e só cresce dando voltas e mais voltas dentro de um círculo que me protege da claridade que cega. Quero a luz de três velas de mel na escuridão de um quarto fechado. Quero a música da sombra dos seus olhos.

Liz Christine