quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Babbo Natale




Kitri ha dato un profumo a Lise. Gliel’ha dato ieri. Sócrates ha dato una bambola a Marie Taglioni. Gliel’ha data due giorni fa. Ho dato catinp a Sócrates. Gliel’ho dato oggi. Pamina e le sue sorelle Adina e Liù hanno ricevuto dei giocattoli. Le babuske e matrioske organizzeranno un cenone per le amiche fate e umane. Sócrates sta aspettando più catnip. Mia madre ha comprato vino e grappa. Forse ce li dará domani perché torna dall’estero in serata. Tra una settimana è Natale. Siamo in vacanza. Buone Feste.

Liz Christine

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Volare




As danças medievais. A música irlandesa. A música escocesa. O ritmo da kalinka. Tudo no mesmo sonho. Uma cena de cada vez. Sognare, cantare, volare.

Não cante agora – a fada lilás está fazendo pirouettes.

Pas seul – Giselle está dançando no primeiro ato. De novo. Tudo no mesmo sonho. Uma cena de cada vez. Romeo está se vendo no espelho. Kitre está na sorveteria com Lise.

De novo. Novamente. Oberon está miando em sua casa. Sócrates está escrevendo em outra casa – a casa de Sócrates. Oberon e Nikiya são irmãos – Titânia é namorada de Nikiya. Já não sabemos?

Chá ou café? É hora de acordar. Sócrates mia. Sócrates ronrona. Sócrates quer cookies ou chocolate extra-cremoso. Mas não pode – só pode ganhar ração. E ponto final.

(Reticências)

... Ho letto quel libro che mia madre mi aveva prestato. Quello che parlava di una principessa...

Sto ancora sognando... Sognare, cantare, volare.

Liz Christine

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Cenas paralelas




La luna e le stelle che scendono le scale tutti i giorni.
            Le scale del cielo che i sogni scrivono.
                       I sogni nei tuoi occhi.

Stava cercando la prossima musica. “Ma no, questa no” – pensa Sòcrates. “Una musica per ispirarmi. Forse Pomp and circumstance, March n°1, di Edward Elgar o Lakmé di Léo Delibes…  Certamente Pomp and circumstance, March n°1 sarebbe perfetta adesso…”

O início da tarde, o cair da tarde, e nenhuma palavra. O café diário, a segunda xícara no cair da tarde, a primeira xícara pela manhã, e nenhuma palavra. Duas semanas e nenhuma palavra. Sócrates continuou sonhando e consumindo ração da Farmina, continuou observando o mundo à distância, continuou miando pouco ou muito, continuou olhando a lua através da rede de proteção nas janelas, continuou assistindo aos balés no computador, mas durante duas semanas fugiu de toda e qualquer conversa – tirou férias de palavras, faladas ou escritas. Nada escreveu, nada leu, a ninguém deu ouvidos – apenas sonhou e ouviu músicas instrumentais. Pensou em ouvir Lakmè mas desistiu, apesar de adorá-la com paixão. Ouviu outras músicas então. E nada escreveu. Estava sonhando com Greta Garbo...

Nikiya e Titânia se encontraram com frequência. Bastet e Cristina continuaram juntas. As unhas de Pamina foram cortadas à sua revelia. E Marie Taglioni, como Sócrates, também sonhou. Mas sonhou que estava na Espanha com sua família. A lua tudo viu e suspirou...

Liz Christine

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Greta Garbo




_ Sou eu – diz a gata olhando a pasta de fotos de sua humana no computador.
_ E essa humana de cabelos vermelhos, quem é? – pergunta Sócrates.
_ Não é uma humana, é uma fada, não está vendo as asas? – diz a gata.
_ Não... Estou vendo as tatuagens, não as asas... – responde Sócrates.
_ Você não enxerga as asas porque não quer vê-las, é uma fada, estou dizendo... Ela vem sempre aqui, é amiga da minha humana, eu a conheço... – insiste a gata.
_ Amiga ou namorada? As minhas donas têm uma relação afetiva e amorosa entre si... – comenta Sòcrates.
_ Que linguagem é essa? Você as nomeia “suas donas”? Felinos não têm donos ou donas, eu li uma matéria que chamava os humanos que convivem com gatos de “catlovers”... – responde a gata.
_ As palavras não fazem tanta diferença assim, e aliás, não são apenas humanos ou humanas que convivem com felinos, podem ser babuskas e matrioskas também... – diz Sòcrates. E completa – Não importa como são chamadas ou como se auto-denominam, elas me adoram de qualquer maneira...
_ As palavras fazem toda a diferença... Você que escreve deveria saber disto... – diz a gata.
_ Eu sei disso mas isso não afeta meu cotidiano tanto assim, além do mais, estou com fome... O que sua humana tem de bom na geladeira? Você sabe abrir a geladeira da sua casa? – pergunta Sòcrates.
_ Sei, claro... Acho que temos queijos italianos e pasta de soja hoje, você gosta? Tem também iogurte grego e um pouco de ravioli que sobrou de ontem... – diz a gata.

Tutto rosso: gli stivali, lo smalto Chanel (numero otto), il rossetto Dior e i capelli della fata. La vita in rosso. La vie en rose. Rosa è il colore dei sogni. Il tutu della ballerina è rosa. I sogni sono rosa. I sogni allo specchio dove la gatta si guarda. Ieri il gatto l’ha incontrata e hanno visto insieme le foto al computer dell’umana che abita con la gatta. Oggi è venerdì e il gatto scrive un messaggio:

“Ci vediamo alle otto e mezza... Prendiamo un cappuccino insieme? Un bacio.”

Forse questa notte la gatta sognerà con la ballerina che ha visto al computer. La sua umana è amica di una fata che ama il colore rosso. Le due amiche si vedono due o tre volte alla settimana o tutti i giorni. Il gatto ha gli occhi chiari. Sòcrates, certamente. Probabilmente Sòcrates verrà con sua sorella stasera. Alle otto di sera circa. Venti e mezza. Sì, Sòcrates verrà stasera ma non gli piace uscire da solo. Quindi, verranno una delle sue padrone e la sua sorellina con lui... Quella che ha i capelli lunghi e neri è la sua padrona preferita e lo accompagna stasera. Chi è la gatta che Sòcrates ha visto ieri e vedrà oggi?

Liz Christine

domingo, 12 de outubro de 2014

Dodici ottobre




Preguiça. Quando me faltam idéias, leio as anotações de Ella ou de minha irmã. Tento ver o mundo através dos olhos de Bastet ou de Cristina. Ella anota sonhos mas não faz literatura. Minha irmã sim o faz. Literatura felina. Anch’io. Neanch’io. Nem sempre mostro o que escrevo – quase nunca o faço – mas as felinas sempre encontram um meio de ler todos os escritos. Leggo per prendere l’ispirazione. I sogni delle mie amiche. E não me agrada escrever na primeira pessoa do singular. Eu, io – tu, lei, noi, voi, loro. Noi gatti, voi matrioske... Preguiça. Hoje não quero escrever... vou rever um balé e jantar um carpaccio de salmão... Hoje é dia dos(as) gatos(as) – todos os dias o são...

(fragmento das anotações de Sócrates)

Liz Christine

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Il libro di Sòcrates




Às onze e meia da noite o gato está descansando. Às duas da madrugada ele se levanta e escreve em seu caderno de anotações. Escreve apenas cinco palavras e depois digita em seu computador. Completa o rascunho com mais três frases e tenta ver o céu noturno através da rede de proteção da janela. É lua crescente, ele o sabe, mas não consegue vê-la através da janela com rede. Então ele finaliza seu rascunho com as três últimas linhas. Eis aqui o texto do gato (em italiano(-:

La solitudine. Il silenzio.

Il mare, il fiore rosso, un pacchetto di sigarette.

Non ne fumare, non le parlare – lei non capirebbe (...).

Non vorrei spiegarle che ho sognato che volavo (- :

/-: ,.. Una farfalla o una gatta cacciatrice o una ballerina...

Un gatto cacciatore giocando con la solitudine di un libro –

Il libro che io scriverò in silenzio mentre guardo i suoi occhi ;-)

Annelino al naso e dieci tatuaggi – ho disegnato una fata...

(-;)e scrivo per lei adesso)

Liz Christine

domingo, 7 de setembro de 2014

Gatos preguiçosos (gatti pigri)




Estamos todos preguiçosos após brincarmos com catnip. Escuto uma breve conversa sem prestar muita atenção porque estou me lavando meticulosamente e demoradamente. As babuskas estão vendo um filme – enquanto nós estamos todos preguiçosos. Escuto outro breve diálogo felino mas desta vez distinguindo bem as palavras miadas...

“Che stai leggendo?” – domanda la sorella di Sòcrates.
“È una biografia di Gertrude Stein e Alice B. Toklas, scritta da Diana Souhami.” – Sòcrates le risponde e domanda anche: “E tu, scriverai quel racconto su una fata che si è fatta suora?”
“Non lo so... Il mio racconto cominciava così: una fata si è fatta suora, l’altra fata sta imparando l’italiano... – sua sorella gli risponde e domanda: “Che pensi? Ma ho scritto solo l’inizio, vorresti leggerlo?”
“Meglio fare silenzio adesso, gli umani stanno arrivando...” – dice Sòcrates, sentindo i rumori.

Sócrates está desconfiado, penso eu, ou o barulho vem de apartamentos vizinhos ou da rua, pois hoje sei que não teremos visitas humanas. Hoje é um dia normal, como tantos outros, apenas ganhamos catnip e estamos ouvindo o filme sem assisti-lo realmente. Sócrates é quem mais gosta de assistir filmes ou balés. Mas ele está quieto em um canto, conversando discretamente com sua irmã. Eu, Marie Taglioni, gosto do aroma dos livros e de ler os trechos que são sublinhados pelas proprietárias dos livros. Sou curiosa sim, e isso me diverte porque elas têm essa mania. Sublinham frases e eu vejo tudo. Alguns de nós são adotados por fadas, outros(as) por babuskas e matrioskas, outras(os) por humanos(as) com coração felino ou não – e alguns de nós convivem com outras espécies. Triste seria ser adotado(a) por alguém que não compreende felinos e outras espécies afetuosas e únicas. Temos manias específicas, como por exemplo os banhos meticulosos ou deitar em livros. Sei que Sócrates às vezes mia às três ou quatro da madrugada, e muitos felinos o fazem. Mas, felizmente, nós deste pequeno núcleo de amizades e parentes felinos fomos muito bem adotados. Todos nós. E continuamos preguiçosos hoje...

Liz Christine


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Felinos




Felinos domesticados não falam (como humanos) mas compreendem bem a linguagem humana. Conversam entre si e até cantam (alguns felinos apreciam música) através de doces miados. Acho até que há os que reconhecem datas e espreitam a despensa ou geladeira. Há os que gostam de iogurte e queijo (sim, há felinos que gostam de queijo). E existem também os que adoram chocolate. Nada disso é indicado para gatos. Eles bem o sabem. Mas não resistem.

“La dieta sbagliata e gustosa per umani... Hai già visto la torta di cioccolato?” – domanda una gatta amica.
“Sì, l’ho già leccata...” – risponde Pamina.

Sócrates hoje foi apresentado às irmãs de Pamina. Elas se chamam Adina e Liù.

“Ho visto due opere che mi sono piaciute...” – dice una.
“Erano Lelisir damore e Turandot...” – dice l’altra.
“La nostra umana ci ha spiegato che ha scelto i nostri nomi perché le piacciono queste opere. Piacere, siamo Adina e Liù...” – dicono le due gatte.
Sòcrates ascolta la loro presentazione mentre beve un bicchiere di acqua.

As duas babuskas assistem ao balé Marco Spada antes do jantar. E Sócrates aguarda a sobremesa. É aniversário de um parente humano. Haverá um jantar. Mas Sócrates está preguiçoso. Está no colo ouvindo a música do balé e de vez em quando espia alguma cena. A coreografia lhe agrada. Não quer espiar a geladeira com as outras gatas amigas. Hoje Sócrates se sente mais tranquilo e talvez não se esconda das visitas, como de costume. Depende dos tons de vozes e de diversos fatores. Tudo depende, tudo varia, tudo se mistura – e o essencial permanece no pacato cotidiano de Sócrates.

“(...) prosperava na estabilidade (...). Não via com bons olhos o caos entrando em sua vida (...).” (um trecho do livro Um gato de rua chamado Bob do autor James Bowen)

Sócrates leu este livro mas sabe que ele próprio não é um gato de rua – ele próprio é um gato muito caseiro, ao contrário de outras(os) conhecidas(os). Tem seus momentos de correria e brincadeira também e, além disso, não é um gato previsível. Nenhum felino é tão previsível quanto poderia parecer. Nenhum – apesar das manias que obviamente cultivam diariamente...

Liz Christine

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Nessun dorma




       ... “Ma il mio mistero è chiuso in me,
              il nome mio nessun saprá!...”



Ella aprecia e admira a voz de Andrea Bocelli. Lensky também. Lensky é um gato gordo com tendência a ironias. Ella às vezes o ignora. Prefere companhias felinas ou humanas mais gentis. Sócrates é amável, apesar de fugir de visitas indesejáveis ou humanos que ele desconhece. Sócrates também ouve música, como a maior parte dos felinos domesticados. Hoje Lensky entediou Marie Taglioni, que normalmente não se entedia nem estranha ninguém.



... E então fez-se silêncio no quarto de brinquedos. E a babuska voltou a música ao início.



                                                    ... Nessun dorma...



                                                               (...).



Liz Christine

sábado, 2 de agosto de 2014

La famiglia




Ella manteria o silêncio (se as águas fossem prateadas ou...

... caso refletissem e se mantivessem mais serenamente estáveis...

... estáveis em suas oscilações propensas ao – acaso, nunca,

Feche os parentêses). Pontue e recoloque cada...

... livro nas estantes, cada, acaso, nunca,

Pontue. Reticências. Abra parênteses e não esqueça as aspas...(-:.,:-/...

“Se sognare un poco è pericoloso, la sua cura non è sognare meno ma sognare di più, sognare tutto il tempo.” (Marcel Proust)

                       “Un gatto è bellissimo da una certa distanza:
                   visto da vicino è un'inesauribile fonte di meraviglia.”
                                               (Pam Brown)

Pamina ha due sorelle e un fratello, già lo sai. E Pierina Legnani é la migliore amica di una delle sorelle di Pamina. Pamina la conosce.

Sòcrates ha scelto tre libri sabato. Erano una biografia e due romanzi. Sòcrates ha letto sessanta pagine della biografia domenica. Oggi è martedì. Pamina ha mangiato un arancino e gli ha detto: “L’arancino mi è piaciuto”. Sòcrates non le ha risposto.

I gatti. Le gatte. La famiglia delle babuske. Sòcrates scrive come una delle proprie padrone. Sono due padrone, già lo sai anche, e una è scrittrice.

Dóceis felinos e outras espécies de companhia às vezes se absorvem reciprocamente com quem convivem e observam – refletindo até comportamentos, preferências alimentares e manias. Lo sappiamo già...

Liz Christine

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Nascondino




Pamina está presa. Afiando as unhas em uma almofada acabou não conseguindo se soltar. Miou. Mas não foi ouvida rapidamente. Demorou um pouco. Miou novamente. A ajuda chegou então. Pamina escutou palavras gentis e ganhou alguns mimos. Descansou um pouco, acordou, viu um armário que costumava estar sempre trancado – e uma das portas não estava trancada agora. Pamina então está presa.

Le nuvole non avevano un argomento piacevole.

Le gatte osservano le nuvole.

Otto anni fa – o quattro o cinque anni fa. Il compleanno.

Dal Primo Maggio. Dal Primo Dicembre. L’anno scorso.

Dal Novembre. Qualche giorno. Qualche volta. Qualche libro.

Le gatte osservano le nuvole. E scrivono. Anch’io. Neanch’io.

Pamina foi brincar e fecharam o armário – mas ela lá dentro permaneceu em silêncio. Não miou, não avisou. Hoje ela está inquieta. Normalmente é calma. Não faz muito barulho. Quase não mia. Mas hoje é diferente. Talvez sejam as fases lunares. Pamina é sensível. E agora ela está com sede e quer sair do armário. Mas está com preguiça de miar. Miar consome energias. Pamina está cansada. Brincou demais e pesquisou todos os itens do armário, um a um. Encontrou uma boneca vestida de bailarina. Uma recordação de infância. Uma boneca antiga mas em ótimo estado. “Não se fazem mais brinquedos assim hoje em dia” – ela pensa. Ou fazem? Pamina resolve meditar enquanto está presa. Mas logo sentem a sua falta e chamam seu nome. Ela consegue ouvir todos os passos enquanto a procuram. “Nascondino” – ela pensa. Até que abrem as portas do armário, uma a uma, ansiosamente – e lá então encontram Pamina. Ela ganha colo e beijos. Ronrona. E mia suavemente.

Liz Christine

domingo, 22 de junho de 2014

Più la vedo




Tristeza que cai em flocos



Moendo grãos de café



Flocos desabam do céu



Caffè ristretto, caffè lungo, espresso



O céu das ovelhas caiu no chão



La coniglia piange all’alba



... “All’alba vincerò, vincerò”...



Nessun dorma, nessun dorma



Fino alla prossima settimana



Quando la musica suonerà



La musica del sogno che ho visto oggi



Ho visto un sogno piangendo



La coniglia piangeva



E as ovelhas pintavam um quadro



O quadro da tristeza que passa



Passa por todos e mergulha no mar



O mar gelado de inverno brando



Suavemente as ondas desenham



Desenham um olhar que guarda o infinito



O infinito de um silêncio repleto de palavras



As palavras do sonho, o sonho que diz:



... “Più la vedo, più mi piace”...



Fouettes de um cisne, olhos felinos, grãos de café



Grãos de café moídos na hora



A hora em que acordo ao ouvir novamente



... “Più la vedo, più mi piace”...



Liz Christine

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Marie Taglioni e Sòcrates




Il gatto dice alla gatta: “Lascia che ti guardi...”. La gatta non gli risponde perché sta guardando la propria padrona. I gatti o le gatte non hanno padrone o padroni – tutti noi sappiamo la verità ma questa gatta è gentile. La sua “padrona” le piace e sempre dice alla gatta: “Sei il mio amore, sei la mia gatta carina...”. Quindi il gatto rimane in silenzio ma scriverà un racconto. Il titolo del racconto sarà il nome della gatta: Marie Taglioni.

... O gato não quer que ninguém leia seu conto. O gato desenha bem e faz um retrato de Marie Taglioni – que vejam, então, o seu desenho. O conto não. Ele não publica seus escritos. Sua irmã, que também escreve (e publica para a família felina), rouba todos os escritos e rascunhos do gato sem que ele saiba. Mas ela mantém a autoria preservada e toda a espécie felina sabe que Sócrates é quem assina aqueles textos – Sócrates, claro, o próprio. Sócrates é um gato possessivo. Marie Taglioni é sociável e nunca estranha outros felinos nem humanos. Marie Taglioni não se importa com campainhas e interfones tocando, Sócrates os detesta. A irmã de Sócrates é amiga de Marie Taglioni e Pamina.

Dizem que as gatas ou os gatos não têm dono ou dona – dizem que a espécie felina é a verdadeira proprietária de tudo. Talvez.

Talvez Sócrates esteja estudando com Pamina. Pamina também desenha mas não escreve. A irmã de Sócrates é misteriosa e publicou um texto de sua própria autoria em Dezembro do ano passado. Na verdade não são irmãos biológicos – são irmãos de alma. Mas ambos nunca falam isso a ninguém. Algumas pessoas, humanos ou quaisquer outras espécies que não sejam os felinos, poderiam rir desta expressão. Mas a espécie felina jamais. Os felinos compreendem. Tudo e mais um pouco. E há humanos com coração felino. Todas as espécies, com a exceção de alguns humanos, podem ser adoráveis. Mas a espécie felina é admirável em sua compreensão detalhista e alheia. Ao mesmo tempo impassíveis, afetuosos, amorosos, orgulhosos, mimados, indiferentes, sensíveis ao extremo e grandes observadores – são a família felina.

Marie Taglioni adora sair. Sócrates não. As amizades de Sócrates devem visitá-lo em seu território. E às vezes ele não quer receber ninguém. Falando assim Sócrates pode parecer não muito simpático mas na verdade é o gato mais doce do universo com quem ele gosta. Ele só é difícil – sim, é um gato difícil para aqueles acostumados à média. Ele é único, porém, como dito anteriormente, extremamente possessivo com o que lhe diz respeito. Guarde suas palavras até que alguém as compreenda – é o que Sócrates faz. É adepto do silêncio “social” – faz silêncio socialmente e fala em ambientes privados. E Marie Taglioni é o oposto de Sócrates em quase tudo – é extrovertida e conversadeira. Cada qual do seu jeito mas todos felinos e amplamente fotografados...

E oggi, dopo la cena, Sòcrates prenderà un caffèlatte con la sua amica Marie Taglioni...

Liz Christine

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Il lettore




La pioggia. Abbiamo pianto. Notte fonda. La lettura e le parole che non diciamo mai. Ascoltiamo senza dire una parola. Niente. Nulla. Nessuno. Mai. Dimenticare. Riesco sempre – a disegnare i tuoi sogni.

Uma casa trancada. Janelas com rede de proteção e cortinas fechadas. Todas as luzes apagadas, exceto a luz do banheiro. Quartos trancados, tudo trancado – tudo, inclusive olhares e vozes. Ninguém fala, ninguém suspira, ninguém canta, ninguém jamais ouve uma única música – o silêncio é absoluto. A gata da vizinha desconfia que não há ninguém ali. Naquela casa pintada recentemente. Reformada. É um sonho do gato que pinta as unhas dos cisnes enfeitiçados – durante o dia são cisnes e durante a noite até o amanhecer são moças. E essas moças fogem, ou pelo menos tentam – daqui a um ou dois meses, entre oito e meia-noite e meia, o gato quebrará o feitiço. O gato gosta de ouvir Nina Simone. O gato tem uma bela casa onde vivem suas donas – o apartamento está no nome de suas donas mas o proprietário de todos os bens e do imóvel é ele, o gato. Sócrates, naturalmente. Sócrates sonha. Sócrates bagunça. Sócrates lê ou assiste. Tutto questo è possibile al computer, tutti i giorni, il gatto legge e studia le babuske e le matrioske e gli umani. O gato lê os olhos, os gestos, silêncios ou palavras, diálogos, livros, desenhos, coreografias, filmes, balés e sonhos – seus próprios ou os alheios.

                    “Mi dà sempre un brivido
quando osservo un gatto che
       sta osservando qualcosa che io
               non riesco a vedere.”
  (Eleanor Farjeon)


Liz Christine

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A continuação de um conto de fadas




O mutismo seletivo acentuado. Mordidas de lobos ferozes. O cavalo da raça mais pura não é surdo. Cappucceto Rosso não tem culpa se andou se apaixonando por Snow White. E Bela Adormecida vigia Belle e Myrtha dentro do castelo gelado de paredes transparentes onde todos os pensamentos são regravados diariamente. Myrtha é a rainha, como já sabem todas as fadas – e todos os habitantes do reino estão absolutamente vivos, exceto pelo Fantasma de Canterville que se refugiou na floresta após ser salvo por Virgínia que permitiu seu descanso eterno mas ele se entediou descansando e fugiu. O Fantasma de Canterville assassinou a própria esposa por ciúmes e por isto sua alma não poderia descansar – Virgínia erroneamente se apiedou e o salvou mas logo se arrependeu ao completar dezoito anos de sonhos e fantasias. “Um assassino não deveria ter sido salvo” – ela confidenciou ao irmão – “mas não conte para ninguém que eu te contei, eu havia feito votos de silêncio sobre isto” – ela completou o desabafo e nunca mais disse nada além a respeito, apenas carregou seu arrependimento consigo durante um tempo interminável que terminou quando se casou e esqueceu tudo. Ela teve uma filha que se chama Christine e acaba de completar seis meses mas já aprendeu a falar. Uma vidente fez uma bela previsão para o bebê de Virgínia – a partir dos três anos de idade Christine sofreria de mutismo seletivo, o que na verdade não é um sofrimento e sim uma bênção. Então Christine foi batizada e abençoada e presenteada pela fada lilás e outras fadas. A fada lilás, após tratamento com anti-depressivos e exercícios para controle de estresse, melhorou totalmente o humor mas não deixou que sua vida interior e introspecção natural se extinguissem – ela jamais desejou ser superficial ou frívola, dessas pessoas que vivem apenas o mundo externo e nunca enxergam os mundos internos naturalmente participativos em cada ponto de vista de cada indivíduo. “O relato é inconcludente” – disse Myrtha – “os lobos não serão perdoados, que vivam isolados do povo nas reservas florestais do reino para todo o sempre. Agora estou atrasada para as minhas aulas de canto, a sessão está encerrada por hoje, continuemos amanhã” – e após Myrtha pronunciar estas últimas palavras fez-se silêncio e a sessão foi encerrada. O silêncio gestual da rainha Myrtha – lembram? – por isto mesmo ela foi aconselhada a fazer aulas de canto. Uma rainha deve se pronunciar quando necessário mas sem esquecer a ternura ou sem esquecer que muitas vezes o silêncio pode ser de ouro. Tudo é relativo e cada caso é um caso. Calem-se todos agora, é hora da pausa para a meditação reconfortante nossa de cada dia (...).

Liz Christine