quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Diário da irmã de Sócrates


O avô de Desdêmona tem olhos azuis, o pai tem olhos verdes e a mãe tem um olho de cada cor de onde nascem frases quando ela nada diz. Permanece muda para todo o sempre – quase nunca mia – mas seus olhos dizem tudo e expressam todas as suas manias. Sim, toda a família felina tem manias que mudam ou não em acordo ou desacordo com o mundo inútil ao redor. Tão inútil e fútil é quase tudo lá fora – assim pensa o pai de Desdêmona. Quantas palavras ditas em vão e nunca se entendem – assim pensa a mãe de Desdêmona. E quando se irritam falam coisas das quais se arrependem logo em seguida, não conseguem perceber os muitos ângulos de cada ponto ou vírgula em uma única frase – a mãe complementa seu raciocínio para si mesma. Cristina, a namorada de Bastet, fez aniversário em outubro mas este ano a comemoração foi mais reservada, ao contrário do ano passado quando fizeram uma festa para muitas convidadas. Em outubro do ano passado convidaram todas as amigas, além de Éluard e Sócrates. E Desdêmona é uma das amigas. Sócrates já a conhece. Os felinos e felinas já se conhecem todos através de pensamentos ocultos e sigilosos ou miados ou olhares intensamente expressivos (dos mais distantes aos mais próximos). E mesmo assim a espécie felina se estranha ou se esquiva de vez em quando. Gostam de ser donos do próprio espaço e em geral detestam intrusões ou não fazem amizade tão rapidamente com os novos inquilinos da casa. Quando humanos trazem mais um novo felino para conviver no mesmo espaço podem ocorrer alguns distúrbios – passageiros ou não – porque gatos são territoriais. Alguns mais sociáveis, outros bem menos. Sócrates faz o tipo anti-social. Sai pouco e não anda sozinho pela rua – prefere ser transportado pelas suas duas donas em sua casinha de transporte – mas tem lá suas conhecidas e amigas também. E além disso, seu suave amor platônico – mas deixa para lá. As fantasias suavemente correspondidas através de miados. Hoje Desdêmona e Pamina visitaram Sócrates, que estava lendo o último livro do Neil Gaiman após saborear a ração da marca Farmina. Suas donas trouxeram esta ração há duas semanas porque adoram mimá-lo. Ele adorou. É véspera de Natal e Sócrates já quase destruiu a embalagem do panetone italiano que suas donas trouxeram para casa – elas ganharam de presente porque estão estudando italiano com Pamina que é um pouco italiana (a gata de tripla personalidade às vezes tem crises de identidade e acha que é inglesa mas é italiana – melhor nunca contrariar). Sócrates aguarda a tranquilidade zen (os sapos a conhecem bem) que os livros encomendados e o aprimoramento dos mimos que ele recebe lhe trarão a cada novo ano. O amor inesgotável que se renova diariamente – tão sonhado e quase impossível na sociedade humana – é merecido e digno da família felina. E de todas as espécies amistosas que convivem pacificamente com as insanidades humanas. Conviver com humanos é difícil, todos nós sabemos, mas quando eles se esforçam ou pelo menos tentam fazer o melhor... nós, felinos ou felinas, podemos aturá-los e até amá-los (quem sabe?) e tentar lhes ensinar o que sabemos melhor que todos eles quando são dignos de confiança e afeto... Ah, a espécie humana...

;-)


Liz Christine

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Nebbioso


Às vezes uma tristeza súbita se enrosca em pensamentos ocultos e se espalha por todos os recantos onde ficam escondidas as chaves do paraíso perdido – ah, idealismo (a inocência mora no coração das corujas loucas e nos olhos felinos que costumam se esconder de intrusões ligeiras e superficiais ou desconfortáveis – tão desconfortáveis quanto falar em vão)... Abrir parênteses para sussurrar novamente – (falamos em vão, já notaste? Sim, falamos totalmente e completamente em vão, as múmias maldosas não processam informações e fabricam infernos – entre quatro paredes ou sob o luar, o inferno é aqui, o paraíso reencontrado após os exercícios de imaginação também é igualmente aqui neste mesmo mundo, e o limbo também fica neste mesmo espaço, todos os mundos se interligando e se interpondo e se anulando ou complementando ou distorcendo ou acrescentando mais e mais, mais conhecimento, menos compreensão mútua, a sociedade é um hospício ou prisão, estamos todos tão confusos e

Pausa. Recomece os exercícios e fuja do inferno – falamos em vão, já notaste? Quem se importa? Os humanos querem falar – quem se importa se há ou não compreensão neste planeta insano? O respeito ao próximo, a liberdade da escolha ou da recusa, as diferenças, o amor felinamente ronronante, os bichanos e os bichos todos – o amor a todas as espécies, igualmente sagradas, diferenciadas e atuantes. Ou isolacionistas ou orgulhosas ou afetuosas ou independentes ou amorosas – esconderijos. A natureza e todas as suas espécies, a humanidade e toda a sua poluição – ao menos tentar. Ao menos tentar consertar alguma ou qualquer coisa ou o que poderia ser possível dentro de todas as limitações de (...).

Ainda há tempo. Sempre há. Mas ninguém percebe. Ou algumas poucas notam mas que poderiam fazer? Algumas poucas corujas loucas. Pamina, a gata, não quer conversar agora. Está procurando as chaves que não estão em esconderijos mais óbvios que um silêncio quase contrariado. Adianta falar? Recomece os exercícios e imagine como poderia ser a convivência ideal entre Pamina, a gata com tripla personalidade, e o poema personificado dentro de um espelho enfeitiçado que a fada lilás roubou do sótão de uma bruxa quase múmia e quase quase. Quase inimiga da tranquilidade reencontrada na meditação antes do chá. O café nosso de cada dia e o chá dos dias todos inteiramente quase. Ella quase te alcança mas foge sorrateiramente. O caos das palavras e a liberdade reencontrada após o café nosso de cada dia e o chá dos dias todos. A tristeza súbita passa lentamente e repassa silêncios quase lúcidos. Os sonhos quase lúcidos de Flora. E Sócrates assiste balés com as babuskas novamente (...).

Um poema que tem rosto, um sonho que tem coração, um ideal que tem noções básicas de realismo, um espelho enfeitiçado roubado, as dificuldades do diálogo humano, a linguagem gestual que dispensa as palavras – e as chaves do paraíso finalmente reencontradas. Não há nada neste mundo melhor que a tranquilidade – sim, é verdade. A tranquilidade vale mil vezes mais que qualquer tipo de discussão. Os bichanos e os bichos todos se exercitam enquanto brincam – depois descansam tranquilamente. Filhotes felinos que jamais crescem. Palavras jamais pronunciadas. A não ser que pudessem ao menos ser compreendidas. Ouvidos atentos e silêncios sorrateiros. Reencontrar diariamente por alguns minutos ou horas – o tempo necessário. Ainda há tempo. Sempre há. Para qualquer tipo de utopia com noções básicas de realismo. (         )


Liz Christine

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Sogno


Através da instabilidade da balança indicando o peso das asas invisíveis aos olhares humanos. Distraídos ou extremamente concentrados e absorvidos olhares humanos. As asas estão leves enquanto idealizam respirando a doçura dos sonhos mais (...) –

Reticências – suaves porém intensas as...

Palavras diáfanas ou sílfides recobertas de silêncios aprazíveis e...

Mais.

Mais leve. Mais intensa. Mais profundidade na absorção de...

Reticências – a balança porém indica o peso errado. A balança está com defeito. Exagerando contratempos. Ampliando mínimos defeitos. Exalando perplexidades diante de verdades nuas. A balança está com defeito. Fabricando um peso irreal diante dos fatos. Não confie mais na balança. Muito menos ouça tolos conselhos tão confusos quanto –

Quanto falta ainda...

Ainda – há espaço para mudanças ou retornos (...). Decida-se no fundo da xícara de café ou chá. Ou nos olhos de Sócrates – tão doce quanto as nuvens que as ovelhas recontam ao observar a gata insone. Pamina é o nome da gata que sofre de tripla personalidade – parcialmente alegre em alguns momentos porém. Porém e porque ou será que ou quem sabe ou ninguém sabe ou ninguém jamais adivinharia o quanto ;-)

Apenas o tempo impaciente porém (novamente) persistente e tranquilo em suas inclinações romantizadas – (novamente) apenas o tempo tem o dom de apurar significados sentidos com delicadeza e tato...

Porém e porque ou será que ou quem sabe ou ninguém sabe ou ninguém jamais adivinharia o quanto ;-)

Pamina revê o pas de deux de Harlequinade saboreando chá de mirtilo e maçã (Twinings, naturalmente). Flora enche um cálice com Limoncino. Flora é outra gata com inclinações lésbicas que se acha parecida com Pamina. Elas não se comunicam – cada uma está em seu canto e porém (novamente, como de costume),,

Exalando tranquilidade diante de verdades nuas. O sonho é eterno enquanto o cotidiano faz alguns ajustes na balança. A balança se ajusta. O cotidiano segue e continua. E o sonho fica em cada música compartilhada com a janela telada.

Liz Christine


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Vederti ballare



As irmãs celibatárias. Uma pequena sociedade secreta de pavões. A falta total de discrição das múmias sofrendo de gula enfadonha ou até mesmo de compulsão alimentar. Cada qual com sua comedida bagagem de problemas discriminatórios. Preconceitos antecipadamente reprimidos. O pensamento é livre – não sofrendo repreensões ou olhares de desaprovação se não forem pronunciadas as medidas. Medidas a serem tomadas então a partir de desde sempre e quando e toda vez que desejada seja a – ...

Seja feita a vossa vontade –

Encontrar a mesma vontade em outro ser (vivo) – duas consciências distintas com o mesmo objetivo ou vontade – semelhantes – exceções – minorias – pequenas sociedades secretas – as coisas todas têm consciência em parte à parte em si bemol – o sol e a consciência essencialmente felina (...),

A tão desejada tranquilidade – a mente quieta e o coração tranquilo. O conforto da paz de espírito reencontrada. Seja como for, soulsister.

A primeira vez – em que nos olhamos. Era uma apresentação de Giselle. A primeira vez – em que nos procuramos. Era domingo. Sunday kind of love. Era domingo na voz de Etta James – na realidade era um outro dia. Mas a voz da Etta James preenchia todo o ambiente. E foi assim, soulsister. O gato mais querido do mundo tem medo de chuva. E quando venta forte o gato se esconde. O gato mais querido do mundo tem pavor de relâmpagos mas adora a neve em Roma. Principalmente em novembro. Mas nem sempre. Nem sempre tem neve quando o gato quer. Mas os pinolis sempre chegam na hora certa quando a gata pede – e os pedaços levemente derretidos de Babybel chegam igualmente na hora certa quando são pedidos. O gato gosta de muitas coisas. Os pavões arruaceiros não – os pavões da pequena sociedade secreta gostam é de criticar tudo e todos. Sem distinção e sem parcimônia. Sem bom senso e na maior parte das vezes sem muita educação. Apesar da boa aparência. Que aliás não significa muita coisa às vezes. Até onde as aparências enganam ou até onde a aparência poderia ser um espelho dos pensamentos? A postura pode ser um espelho. Ou não? Ou sim? Ou talvez? Ou depende? Seja como for, soulsister.

Os pavões de boa índole – diferentes de outros tipos de pavões que se refugiam em pequenas sociedades secretas de arruaceiros sociáveis.

O café está muito bom hoje. O quiche de champignon também. Mas não sofremos de compulsão alimentar nem somos múmias. Consciências essencialmente felinas. O galgo que vemos passear de vez em quando é igualmente elegante. Transtornos não são piadas. É que não resistimos. As múmias fofoqueiras nos fazem sofrer – são muito venenosas. Desculpem a falta de tato. Mas precisamos de vez em quando. Rir da chuva que assusta o gato. O gato é muito querido. As babuskas igualmente. E as sapatilhas também.


Liz Christine

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Specchio



_ Um espírito atravessa o teto…
_ Que espírito?
_ O espírito da minha alma gêmea...
_ E isso existe?
_ Não... Não, não existe. Não quero fazer sentido...

Acabou-se. Começa hoje. Agora. Ou nunca. Uma música de Elvis Presley. Uma música de Aretha Franklin. Billie Holiday, Chet Baker, Edith Piaf, Beatles. Não se aproxime porque… nada…

… faz – sentido, apenas quero

(ser)

                  … Livrai-me do mal…


Bastet, lembre-se dela. A liberdade quase. Impossível ou não. O cotidiano e seus problemas diários – aprisionam. O pensamento livre. Os sonhos sólidos. O chão que se desmancha a cada passo. A coreografia das horas nuas. Plágio eterno. Tudo se modifica. Agora. Ou nunca. Já esperamos demais – muito mais do que deveríamos. O lixo continua pelas ruas – o lixo é recolhido apenas uma vez durante a madrugada. E vão se acumulando. As utopias. Impossíveis ou não. Melhorar, mudar, permanecer, manter, apurar. A engrenagem fragilizada. O sistema falido. Tudo errado. O certo é imaginar como poderia ser – e tentar permanecer em...

Estado de...

... Não diga nada. Suspenda o pedido. Tem formol no suco. Quem fiscaliza? Quem é responsável por isso? Pergunte a outra pessoa, não sabemos de nada.

Há quem diga que não existe certo e errado – palavras vazias, apenas palavras. Então qualquer tipo de injustiça é válida? Tirar uma vida por bens materiais não é errado então? Agredir gratuitamente ou ofender pessoas inocentes também não é errado? Há os ladrões que roubam com armas e os ladrões que roubam com discursos baratos e abuso de poder oficial – a demagogia de políticos que roubam nossa qualidade de vida. Os planos de saúde que não nos atendem quando precisamos. Os hospitais públicos nem se fala. E a cultura, melhor forma de aprender e exercitar a sensível elaboração de pontos de vista, o que é a cultura neste mundo insano?

Sistema falido. A engrenagem fragilizada. Como melhorar? A quem interessa melhorar? A todos nós, exceto aos que se alimentam e enriquecem através de misérias e ignorâncias humanas. Manipulação de sistemas falidos.

Specchio, specchio delle mie brame...

"Quando mi trastullo con la mia gatta, chi sa se lei non faccia di me il proprio passatempo più di quanto io faccia con lei?"
(Michel De Montaigne)

Diga que o paraíso existe – é reencontrado durante as pausas introspectivas em olhares felinos. A mente quieta e o coração tranquilo novamente e sempre que for possível. Que assim seja. Mas como pode ser assim em momentos como este em que estamos tão...

... contrariados e insatisfeitos?

Pausas diárias. Inspire. Até as mais doces companhias de estimação ficam contrariadas de vez em quando. Seja sensata mas não deixe de exercitar as mais sensíveis elaborações de...

:-(a dieta della tradizione mediterranea per il tuo felino(-:

 Un po' di meritato riposo – specchio, specchio delle mie brame...

(Virgolette)

Liz Christine



segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Sensibilità


Teresa D’Ávila escreveu um poema em um sonho distante. Marguerite Gautier se suicidou aos quinze anos. O romance está morto. Plágio. A utopia vive e passa bem, obrigada. As vinte e uma causas da depressão prolongada e o único motivo de nossa existência. Ou persistência. Desista. Não, não sonhe tanto. Duvide. Não, não desista. Abstrair. Esperar. Longas esperas e nada se resolve. Paliativos. A utopia vive e passa bem, obrigada. Mais uma vez e novamente. Definitivamente. As vinte e uma causas da depressão prolongada e o único motivo de nossa existência. O bichano ronrona e as duas gatas brincam de esconde-esconde.

Não é possível. A conversação dos gafonhotos está interferindo na absorção. E os olhares curiosos estão atrapalhando completamente a introspecção ou quietude dos ambientes internos. Ração para gatos adultos que vivem em ambientes internos. Gatas felizes satisfazendo as próprias vontades e aspirações. Fazem o que querem. A casa pertence aos felinos. Sempre. Os humanos apenas apenas abastecem necessidades felinas e anseios inocentemente hedonistas e puros, além de manterem a organização e a higiene da casa para o total conforto das mimadas e soberanas gatas.

Catherine Deneuve em Pele de Asno. Madeleines na pausa para o chá de frutas vermelhas Casino. Twinings ou Casino? Sócrates fica indignado ao ouvir que madeleines não são adequadas para gatos. Mas o bichano já aprendeu a roubar comida quando as donas se distraem. A alimentação e o paraíso de Sócrates. O gato é elegante e não tem tendência a engordar – além da prática diária de exercícios como caçar marcadores de livros coloridos ou pular da cama para o chão ou do chão para a cama. Mas insistem na idéia de que comida de gato é ração e pronto. Ele jamais aceitará este ponto de vista humano.

Twinings ou Casino? Sócrates aprecia ambos os aromas. Os mais doces. O romance nunca estará morto. Quem disse isso é que já morreu. Plágio. O romance e as utopias vivem e passam bem, obrigada. E vida longa à pequena família felina de gatunos que roubam comida humana. Roubar é muito feio. Mas os bichanos estão perdoados. São tão doces e inocentes. Alegram e preenchem totalmente os tais ambientes internos que os humanos constróem para si mesmos.

Ao ar livre, madrugada, luz da lua – um breve passeio solitário (...). Um pouco de vinho após o balé. Um pouco de sonho em nosso cotidiano. As aspirações reais e soberanas da eterna remodelagem de sonhos que nunca se esgotam. A renovação do silêncio. A paixão vive e passa bem, obrigada.


Liz Christine

terça-feira, 3 de setembro de 2013

La cantina dei poeti


As atenções sugestionáveis e os corações partidos (...). Inspire novamente. Sempre. Confianças dúbias e quebras de sentido repentinas. O perfeito acabamento sem palavras. Dispersões. A concentração fugitiva. A modelagem do silêncio reagente. Paixões que retornam e se renovam. Pouco a pouco. Em alguns instantes. Em cada reticência. Em cada brecha. Tranque as portas. Sempre. Sempre há ouvidos atentos. Bem atentos. As atenções sugestionáveis e os corações partidos com escolhas imperiosas. Não há tanto espaço para dúvidas agora. Em alguns instantes. Em cada brecha. Tranque as portas e a imaginação se espalha sobre as coisas todas. Exercícios de imaginação. Sócrates se exercita todos os dias. O gato de companhia chamado Sócrates. A feminilidade das babuskas lésbicas. As distinções e os limites. Percepções altamente subjetivas e visões levemente imparciais. Os muitos ângulos de uma frase discreta. Tão doce e discreta quanto o brilho da lua ao chegar no paraíso. O paraíso de Sócrates é a alimentação. Alimentação de utopias e caminhos para tornar cada vez mais reais os ideais todos. Não basta apenas sonhar. É preciso viver a realidade que poderia ser mais e mais saborosa. O tempo apura ou estraga. Vinho ou qualquer outra obra que retorna. Sonhos que se apuram e se aprofundam. Obras de arte que se tornam compreensíveis. Ou não. Percepções altamente subjetivas e visões levemente imparciais. O tempo que apura ou estraga. A paixão mais profunda. O vinho mais doce. Moscato spumante ou spumante rosato (...). Il vino dell’amore petalo moscato ou – (...),

Ou uma coisa ou outra, escolher, já está escolhida – palavras que retornam e se renovam. A escolha ideal sem muita sombra de dúvida. A música do Reino Das Sombras e a primeira estrofe da letra de À quoi ça sert l'amour (...).

Ninguém sabe – mas já está escolhida.

(...)


Liz Christine

terça-feira, 6 de agosto de 2013

As pupilas do gato-esfinge


A falsa beleza de teorias vazias e plenas apenas de ausências totais e absolutas de

Tanto tanto faz faz faz tanto faz

Total falta de princípios ou valores essenciais ou respeito ao próximo

Tanto faz tanto faz

O único valor no mundo atual é “how much?”

Bom mesmo é ouvir miados ronronantes

Miados que não estão à venda pois quando querem fazem silêncios totais

Descansam plenamente

Nada é pleno ou quase nada – apenas sonhadores ou sonhadoras quase à margem de

Nada é pleno ou quase nada – quase tudo é quase sempre quase um tanto faz

Tanto faz tanto faz

Do your best to change the subject

O mundo é dos peixes o mundo é das árvores o mundo é das gatas e do gato-esfinge

O mundo é dos coelhinhos o mundo é dos rios e mares e o ar deveria ser mais

Limpo

E as idéias ou ideais ou valores essenciais deveriam ser mais

Limpos límpidos transparentes ou ocultos

Oculte suas crenças

Agressividade em todas as partes

Não há convivências pacíficas nem plenas de compreensão apesar das

Diferenças

Cada qual querendo gritar mais

Cada qual querendo impor suas idéias aos outros seres vivos

Cada qual tão certo de estar tão mais certo que todos

Que já nem mais escuta

Bom mesmo é ouvir miados

Os peixes não nasceram para abastecer a demanda dos supermercados ou restaurantes

O mundo é dos peixes tanto quanto

Dos sonhadores ou sonhadoras ou minorias quaisquer ou de quem ainda

Quem ainda consegue se constranger ou se horrarizar com

A sociedade secreta de pavões fúteis e fofoqueiros que repetem “how much?”

Há outros tipos de pavões, é claro

Sempre há dissidentes ou minorias e agora qualquer tipo de valor real ou essencial ou até poético ou

Ou

Quaisquer tipo de valores ou crenças ou sonhos são estranhos em um planeta de insano consumismo

Quem sonha em mudar ou melhorar o mundo ou as relações humanas ou em resgatar valores sufocados por tamanhas insanidades consideradas corretas é então

O estranho no ninho – nem mais existem ninhos pois os ninhos agora são alugados provisoriamente e sofrem altíssimas especulações imobiliárias

Ninhos provisórios sonhos provisórios e as pessoas esquisitas atravessando tempos difíceis com sonhos eternos e utopias limpas – pois é, que gente esquisita essa (distribua para nós, pobres coitados e pobres coitadas, toda a sorte de anestésicos e remédios psiquiátricos que nos impeçam de pensar e sentir ou sonhar e escrever ou suspirar e adotar nossas queridas companhias de estimação tão doces)... bom mesmo é ouvir miados ou latidos ou toda sorte de comunicação sensorial além do falho diálogo humano... consumismo exagerado é anestesia – há o necessário e essencial, naturalmente...

Distribuam remédios que nos impeçam a todos e todas de pensar ou sentir ou sonhar – distribuam também diagnósticos gratuitamente e fones de ouvido

Sim, fones de ouvido – para não ouvirmos mais os preconceitos e esteriótipos diários

Devemos ouvir as gatas e o gato-esfinge – apenas e mais

Não pense em nada durante quarenta minutos – ouça apenas a própria respiração (purifique-se do excesso de poluição sonora) – ou escute música ouvindo cada detalhe mínimo no som que ninguém mais escuta porque a maior parte fala por cima das músicas (concentre-se, não fale, concentre-se) – assista um filme ou reveja um balé se preferir – ou olhe as pupilas do gato-esfinge (         )

(...),


Liz Christine

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Moderato con moto – sonhos coreografados


Separe o husky siberiano dos filhotes da gata. Brigam muito. Brigam demais. Pobres filhotes de raça. British shorthair e outras tantas. Tantas palavras e tantos silêncios. Todas as espécies de gato são admiráveis. Havia uma centopéia no pesadelo. O pesadelo retorna quando a centopéia viciada chega. Viciada em problemas de curta duração e longas dores de cabeça. A centopéia e o mosquito e a crueldade da ignorância. Julgamentos precipitados e falsas observações que nunca ousam mudar de idéia diante dos fatos. Aprimore a educação e os cuidados com os filhotes da gata. Tão meigo é o husky siberiano – briga demais apenas pela incompreensão das diferenças. Não é tão tolo mas é tão rígido – não há muito espaço para dúvidas. Duvidar sempre. Duvidar muito. A segurança da credibilidade. Como tantas vezes já foi dito antes – a loucura da sinceridade absoluta. Já ouvi ou li ou sei lá – esta frase se repete parceladamente. Em outros sonhos descritos. A coruja louca de novo. Não fale mais dela. O que é bom para uma pessoa pode não ser bom para outra – o limite e o respeito ao próximo. Julgamentos precipitados, brigas eternas, tentativas de autoritarismo – e a liberdade de escolha, onde fica? Cada coisa no seu avesso. Tentando não ser o oposto. O oposto das reticências – um breve silêncio e um pouco de introspecção alternada fazem muito bem à saúde. Os filhotes da gata retribuem os cuidados recebidos e ronronam gentilmente com um pouco de orgulho moderado.

O orgulho moderado. A intensidade dos passionais. As coisas se alternam. O tempo todo. Observando fixamente. Tentando desviar as atenções. Disfarçando ou camuflando. Sem querer admitir. O orgulho moderado se torna mais profundo. Até que –

Até que não se possa mais admitir. Que a paixão se transforma por etapas mas não se acaba. Recomece. Transforme – as reticências no sonhar acordada.

(...) – Tantas palavras e tantos silêncios. Ela comenta tantos livros e eu escuto. Nem sempre ela quer opiniões. De vez em quando ela deseja sonhos. Sonhos coreografados. Um pouco ensaiados e um pouco inventados. Tão reais quanto a oferta de pinolis que serão usados na receita. A receita para desbloquear a senha perdida sem arranhar ou destruir o orgulho moderado. Separe o husky siberiano dos filhotes da gata. Brigam demais. Brigam muito. O limite e o respeito ao próximo. Conclusões invasivas não nos interessam. As babuskas concordam parcialmente. E me convidam para um cappuccino. Respondo que sim pedindo que a centopéia nunca mais me traga pesadelos e desapareça para sempre ou que se transforme em um urso polar de pelúcia.


Liz Christine

sábado, 6 de julho de 2013

Segreti


A lontra coartativa tem raiva. Raiva da coruja louca que tem preguiça. Preguiça de debater pontos de vista com a gata insone que tem fome. Ou sede. A fome degustando sonhos com macarons e cappuccinos. A sede insinuando desejos brotando em cerejeiras. As cores insinuadas – lembranças desbotadas. O presente tão irretocável continua desativando as lembranças tão desbotadas – tantas cores em desuso. Amizades tão imaginárias. A lontra coartativa tem raiva. Raiva da coruja louca que tem delírios. E preguiça. Delírios de grandeza e preguiça de debater. Os pontos de vista entristecidos da tripla personalidade da gata insone que tem fome. E sede. Fome recompensada com gorgonzola e pinolis. Sede incansável. As babuskas têm sede – a gata insone ignora. As babuskas têm ciúmes – a gata insone não compreende. Ela nada faz a respeito. Não se defende dos impropérios e delírios – a realidade indefinida. Tripla personalidade. Ela ignora tudo e sorri alegremente ou chora quando já não aguenta mais. Tanta cobrança e acusação. Tripla personalidade eternamente indefinida com poucas certezas e milhares de dúvidas. Certeza de que as babuskas são indispensáveis. Trazem cerejas frescas, perfumes e beijos que se multiplicam em ronronantes amabilidades. E um pouco também de cansaço. Trazem muitas palavras dispensáveis que apenas confundem as tão poucas certezas que restam no cotidiano febril da gata insone. As contradições alternadas refrescam o estado febril das intensidades que são abstraídas durante o jantar.

Sócrates – o gato que imagina que suas amizades são todas imaginárias. Sócrates tem desenvolvido uma extrema desconfiança de todos os seres humanos. Confia apenas em bichos domesticados e em suas duas donas. Desconfia de qualquer ser humano que não seja uma ou outra de suas donas. Muitos humanos se dizem ou se consideram grandes amigos de Sócrates. Mas Sócrates acha que é a imaginação deles. Estão todos loucos. Estes humanos não são nada confiáveis. Não se pode contar com eles. Não podemos confiar – é o que Sócrates diz às suas donas quando elas saem de casa para resolver qualquer coisa. Elas trabalham em casa. Mas a espécie humana sempre tem algum problema para resolver na rua ou alguma compra a ser feita. Seres humanos só sabem comprar mais e mais e sempre – todas as compras são altamente necessárias e indispensáveis. Inclusive a ração, a areia, o patê, a água mineral e o catnip do Sócrates. Comprar, comprar, comprar. Princípios humanos. Seduzir, seduzir, seduzir – esqueça um pouco (pelo menos um pouco) tanto consumismo insano. O que afinal é tão realmente necessário e indispensável? – a resposta desta pergunta não é pronunciada mas logo chega através de imagens flutuantes que se dissolvem em alguns minutos (...).

Vinte e cinco minutos. Três minutos. Uma hora e meia de pura quietude saciada.

Assistir silenciosamente ao balé Romeo e Julieta. Rever de novo e sempre Giselle.

Acordar para comprar maçãs. Sócrates suspira vendo A Bela e A Fera. Mundo insano. Realidades particionadas redirecionadas. Mudar a direção dos olhares. Tripla personalidade em foco. Fotografar instantes. Instantes de abstração. Acordar diariamente. Poderia ser muito melhor se fosse possível (...).


Liz Christine  

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Das outras (ou dos outros)


Uma babuska mora na Rue d’Enfer. Ela tem uma gata chamada Leonor de Aquitânia e adotou outra gata (ainda sem nome) há poucos dias atrás. Ela troca e-mails comigo todos os dias mas vamos mudar de assunto. Não quero ser humana. Quero ser felina. De certa forma sou desde sempre. Nem quero ser concreta. Quero ser outra – mais uma outra abstração em teus sonhos. Nunca serei realista. Bem sabemos que todas as formas de idealismo nas relações humanas estão destinadas ao fracasso. A velha fórmula da mentira. A loucura da verdade absoluta. Sinceridade com delicadeza. Bem sabemos que todas as fórmulas vão falhar. Sempre. Não somos iguais – mesmo com muitas coisas em comum. Nunca seremos iguais. Então nenhuma fórmula definitiva poderia servir para todos nós. Minorias descabeladas. A massificação e a generalização. Mas vamos mudar de assunto. Ficou chato. Bem sabemos que significados variantes facilmente se dissolvem ou se acumulam na imaginação retida na alfândega. Uma linda babuska (outra) visitou a cidade Casale Monferrato fazendo anotações para um roteiro. Ela também quer conhecer Veneza. E ela tem uma coruja de estimação além de três gatas e um cachorrinho. A coruja de estimação mora nos fones de ouvido e dita frases que ela jamais repete e nunca entende. A coruja é louca e faz tratamento psiquiátrico. As três gatas são perfeitamente saudáveis e afetuosas (o cachorrinho também é bastante afetuoso e perfeitamente saudável). E ainda tem a criação de mini-pôneis em uma pequena cidade do interior lá no Brasil. Digo lá porque estou aqui. Aqui bem longe do Brasil. Talvez longe até do chão. No fundo do mar ou no alto das pedras que cercam o mar. Em qualquer outro lugar que tua imaginação alcance. Até onde ela alcança? Não, não sei. Não sei como as pessoas não se cansam de tentar. Já desisti. Estou cansada. Não vou mais procurar. Vou fugir. Na verdade é assim e foi assim desde sempre. Nunca quis nada disso. Mas é irresistível. A intensidade. A doçura. A profundidade. As coisas boas da vida. Não gosto de chocolate meio amargo. Gosto de chocolate branco – o mais doce. Cioccolato bianco e grappa.  Duas babuskas distantes uma da outra se cansaram profundamente da grande mentira e falta de tato que são as relações humanas no planeta insano do consumismo extravagante e se tornaram então celibatárias. Uma delas namorou apenas mulheres e nunca jamais em tempo algum quis namorar nada do sexo oposto. A outra até teve dois casinhos leves e passageiros com esse tal sexo oposto só para ter certeza de que comparando os gêneros era muito melhor namorar mulheres. Ela teve poucas namoradas mas foram relacionamentos longos (e conturbados). O lado bom é inegável, mas as relações humanas sempre conturbadas e atormentadas por tantos fatores. Ah, um longo suspiro de cansaço. Por melhor que seja, como são complicadas as convivências e tentativas de compreensão (...). Então um belo dia (na verdade foi no início da noite) elas se esbarraram e aos poucos se descobriram até parecidas. Muitas coisas em comum. Será que a compatibilidade ajuda? Existem também pequenas diferenças complementares. De qualquer forma elas estão juntas agora. De qualquer forma a vida das babuskas eu observo de longe. Mas vamos mudar de assunto. Vamos parar de falar da vida das outras ou dos outros. Vamos falar de nós. Vamos deixar minhas queridas babuskas em paz um pouco. Trocamos e-mails todos os dias. E as rosas que você me enviou estão no meu quarto. Junto com as minhas coleções. Coleções de livros, coleções de brinquedos ou bonecas, coleções de perfumes, coleções de sapatilhas e coleções de silêncios. Não conte para ninguém. Não conte para ninguém os sonhos que só você viu e ninguém mais conhece. Decifrando silêncios e mergulhando em liberdades suavemente transparentes que apenas nós compreendemos.

Liz Christine


sábado, 4 de maio de 2013

O balé das sereias



“Havia sido uma mudança melancólica e Emma não podia fazer nada a não ser suspirar e desejar coisas impossíveis, até que o pai percebesse e ela se visse obrigada a parecer alegre.” (Emma, Jane Austen)

O pai do polvo é também avô do Cupido (também conhecido como Eros). Cupido é um gato com lindos olhos claros que mudam de cor de acordo com a iluminação. As sereias fugitivas desprezam solenemente o teatro de marionetes chamado Bar dos Desapegados. Mas o Bar dos Desapegados anda lotado e em evidência na mídia e em aulas de psicologia de botequim. Até um filme de arte já foi feito sobre o Bar dos Desapegados (e também três documentários). Além dos livros de auto-ajuda e best-sellers autografados por celebridades adeptas do poético movimento dos Desapegados. Poesia de botequim ou de barco improvisado. A tempestade alaga as ruas e o lixo não está sendo recolhido. As casas infestadas de mosquitos e os tetos desabando. E as tristezas descabidas – todas justificáveis. Todas perdoáveis. Todas fáceis de serem esquecidas. Esqueça sempre. Esqueça até as melhores lembranças e as difíceis ou improváveis saudades. Esqueça tudo, não há sentido – não é uma questão de procurar. Não procure, diga que não existe mais. Não crie (um ou muitos sentidos), diga que se acabaram todos. Não existe mais a interpretação de silêncios. Não há palavras, há nuvens. São nuvens carregadas – ou andando nas nuvens ou sonhando no Theatro Municipal. Em qualquer lugar é igual – as sereias fugitivas. Fogem em citações de Gertrude Stein e em polidas conversações de livros escritos por Jane Austen. Fogem do sol também. Como as meninas de mãos dadas de outro texto. Ou de qualquer filme sonhado que jamais será filmado. Nenhuma platéia verá. Ninguém fará download. As babuskas lésbicas estão sonhando acordadas. Acordadas com a compreensão mútua e sonhando com sapatilhas. Suspirar e desejar. Coisas tão impossíveis quanto realizar sonhos. Esconda-se. Realize sonhos em esconderijos. Concretizando utopias e andando nas nuvens. Cupido é um gato charmoso e culto – além dos lindos olhos claros que mudam de cor de acordo com a iluminação. E o polvo tem um bom coração meio inclinado a um infeliz abuso das palavras cafonas – mas é um bom polvo. E assim as sereias descansam na banheira de hidromassagem – elas merecem. Merecem ficar longe do teatro de marionetes. A liberdade tranquilizadora reina nas nuvens do papel de parede no quarto da menina de cinco anos. Cinco anos de suspiros. E vinte e dois anos de músicas apaixonantes. E quinze anos de poesia surrealista. E a eternidade no tapete. A gata adulta mia como filhote ouvindo Ella Fitzgerald – e os queijos são degustados na mais completa satisfação das aspirações felinamente românticas.

“Era alguém a quem Emma podia revelar tudo que pensava e que lhe dedicava um afeto tão profundo que jamais terminaria.” (Emma, Jane Austen)

O tempo é fútil, o tempo é volúvel, o tempo é eterno, o tempo é profundo, o tempo passa, o tempo fica, o tempo restabelece, o tempo muda, o tempo transcorre lentamente. O tempo absorve rapidamente. E a tempestade prevalece junto com as nevascas do lado oposto ou seguinte ao sonho essencial das sereias tirando fotos dentro do banheiro do Theatro Municipal.

Liz Christine

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Carta aos nascidos em maio – Carlos Drummond de Andrade



Amigos e amigas que nascestes em maio:

Estas letras e este autor aqui estão simplesmente para se integrarem na poesia dessa circunstância e avivá-la em vós, se acaso vai murchando, como sugeri-la a todos os outros seres, infortunados seres que nasceram em março, em julho, em novembro. Porque vosso nascimento é pura canção, mesmo que sejais economistas, deputados, capitães-de-corveta. Uma predestinação lírica presidiu a vosso berço, e que tenhais enveredado por um caminho prático, onde a palavra maio significa apenas assembléia-geral de uma companhia de produtos químicos, não tem a menor importância: estais marcados de maio, carregais convosco, no canal de vossas veias, invisível, incapturável, imperturbável e aliciante, o princípio de maio. E ele jamais permitirá que vos tomem por um simples homem de outubro, e na vossa miúda e radiante biografia há de sempre insinuar a nota íntima, cristalina e melodiosa, de um pequeno acidente feliz, individualizadora do destino humano.

Maio sois e maio continuareis. O uso grosseiro de vossa vida não lhe corromperá de todo a limpidez original; se um dia matardes, se vos venderdes à política, se vos tornardes a vergonha de vossa pátria, ainda assim o lado maio de vossa fisionomia continuará indelével, e fará com que se murmure: "Coitado! apesar de tudo, nasceu em maio." E tu nasceste em maio – assinala o poeta ao fim do canto em que celebra o mês especial, assim como aquele que se inclinou diante do recém-nascido marcado pelos deuses, afiançando: Tu Marcellus eris. Por quê?

Decerto não sabeis bem por quê, mas sentimentalmente o apreendeis, e, homem ou mulher, os nascidos em maio caminham ao peso de uma carga suave – uma andorinha não pesaria menos - , que é o pressentimento, a intuição de participarem de um segredo atmosférico, pois ele está gravado, em hieróglifos, no ar, e no vento perpassa. "Nós os de maio..." – tendes o direito de sublimar, em face da mesquinha situação de nós outros, os do resto do ano (exceto os da segunda quinzena de dezembro, é claro!). E aqui ouso afirmar que vosso segredo é meio-pagão, meio–religioso, de tal modo as coisas se baralham no mundo, e os mistérios se prolongam e se entrelaçam. Porque há em maio dois meses: o mês de Maria, e o mês de maio propriamente dito. Se sois cristãos romanos, maio bate sinos na vossa infância ou na vossa madureza, e aspirais o incenso, entoais o Janua Coeli, Turris Eburnea e não sei que mais invocações encantatórias, e vos ajoelhais, e assistis à coroação da Virgem, se não a coroais vós mesmos, com a mão antiga e branca que nasce de súbito na ponta de vossos braços adultos. Mas, se não sois cristãos, não faz mal, maio ainda é festa, e festa foi sempre, desde o velho mundo latino, que o consagrava a Apolo e lhe punha à cabeça uma cesta de flores. Apolo, flores, fim do cruel inverno, irradiação da primavera, procissão de palmas verdes, enfeites de casa com verde, tudo verde, verde, verde, e esse ramo florido e enguirlandado que na Idade Média o amigo ia plantar à porta da casa do amigo, a 1º de maio, e que se chamava maio, e que sugere ao meu austero dicionarista Caldas Aulette esta expressão para definir um sujeito todo enfeitado: "Parecia mesmo um maio". Como sugeriu a Camões, em momento de ternura, o doce verso:

Só para meu amor é sempre MAYO.

De resto, o segundo maio, o mariano – em que não desfaço, tanto lhe devo eu próprio em evocações e sensações artísticas depositadas no fundo de meu pobre materialismo -, só nasceu mesmo no século XVIII, quando o padre jesuíta Lalomia teve a idéia de transformar paganismo em cristianismo (muitos de nossos santos, Deus me perdoe, guardam a sombra de divindades ou entidades pagãs, a julgarmos pelo caso de São Sátiro, contado por Anatole France), e dedicou o mês a Nossa Senhora, compondo em 1785 Il Mese de Maggio consacrato alle gloria della gran Madre de Dio. Maio cristianizou-se, porém muito de sua magia continua ligada ao reverdecimento espontâneo das árvores, ao desatar das águas presas durante 89 dias e 2 horas, na deliciosa falsa contagem dos meteorologistas, às expansões da terra que penetrou em um novo ciclo e aconselha bichos, gentes e plantas a que amem, amem desbragadamente. Não estou delirando, ó criaturas de maio. Tudo isto se passa em outro hemisfério, mas também por estas bandas austrais maio é primavera, senão na natureza, pelo menos em estado de espírito, em concordância íntima de valores, em consubstanciações vaporosas de que cada um de nós adquire a fórmula, a qual, ó eleitos, nem sequer precisais aprender, pois a recebestes com o primeiro vagido. Concordo, sem repugnância, em que o nosso mês de maio cai no fim do outono. Custa-me pouco aceitar o outono brasileiro, se o vejo, como aqui no Rio, de um azul diáfano, arrepiado por um friozinho que enxuga e perfuma o suor das coisas, tristes coisas urbanas usadas pelo sol do trópico, e por ele restituídas à sua prístina pureza. Não há tempo mais leve, caricioso, humano e coloquial do que este maio carioca, revestido ou não de prestígio mundano, porque sorri tanto aos freqüentadores de concertos como aos homens sentados em bancos de jardim público, ao passageiro do bonde Freguesia, ao remador, à datilógrafa do Serviço de Proteção aos Índios, ao médico do Pronto-Socorro, ao Senador Melo Viana, aos meninos da Escola Cócio Barcelos, aos pedreiros construindo edifícios, à massa palpitante de uma cidade feita de subúrbios que transbordam até à Avenida Rio Branco: maio dá para todos, reparte-se amorosamente entre homens sofredores e homens de boas roupas, como uma conciliação meteorológica, um arco-íris pairando sobre as contradições da cidade. Se bem que, de coração, ele se volte mais, num enternecimento cúmplice, para aquela parte do povo que sua no rude batente, e a que é dedicado, desde 1890, o seu dia inaugural.

Mês de Nossa Senhora coroada de rosas, e de operários que morrem pela causa de oito horas de trabalho no mundo, frio mês das montanhas mineiras, nostalgia de namoradas e rezas, cartuchos de amêndoas que a irmã trazia da coroação na Matriz, que era um grande navio iluminado, conversas no adro, à espera do leilão de prendas, vagos estremecimentos de poesia, formas infantis de um sonho que mais tarde seria inquietação e carinho franjado de ironia – tudo isso vai brotando desta caneta comercial com que escrevo, e baila no ar e me penetra – tudo isso é vosso, é a própria substância de que se tece vossa vida, ó nascidos e bem-aventurados em maio! Para quem esta carta é colocada na mala irreal de uma posta feérica.


CARTA AOS NASCIDOS EM MAIO
Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Cenas destacadas (Tempo di valse)



O temperamento protetor do chow chow – as gatas excessivamente mimadas e aveludadas – dóceis como a lua enigmática – A esfinge sem segredo e uma biografia (que não foi lida nem folheada) de Oscar Wilde (...),,,  A prisão de Dostoiévski e o exílio na querida Sibéria – tão querida quanto os parênteses (inspire)...

Inspire o novo perfume de sempre – as gatas excessivamente mimadas e aveludadas exalam a nova percepção de sempre da mais completa satisfação dos sentidos (todos os sentidos dentro do armário que guarda os vestidos e o J’adore)...

O vestido de Grace Kelly em sua festa de noivado (aquele filme remixado) e o vestido que Greta Garbo usa bebendo champagne em uma festa (aquele papel de uma russa descobrindo Paris e o romantismo atormentado por políticas de contenções de poéticas interpretações do mais antigo dos impulsos)...

Contenção de interpretações – contenção de palavras – contenção do mais antigo dos impulsos – não importa gênero nem linha de pensamento – contenção de despesas e ritmos poéticos – contenção de nobres coleções de sentidos aveludados – inspire (...).

As gatas não se contêm. Expressam com todo o amor-próprio característico da raça felina. Expressam em belos banhos e miados ronronantes. Toda a linguagem corporal felina. Elas conhecem tantas palavras – e tanta doçura no temperamento protetor do chow chow ou das babuskas. A proteção do ritmo poético de afetos macios – tão enigmáticas quanto a lua libertária e conservadora. Conservar as mais belas interpretações e os mais doces registros da profundidade das águas inquietas porém pacíficas e persistentes. E libertar o mais puro contentamento com as cerejas e o morango branco ou as framboesas e mirtilos. Porções de puro contentamento. Repita a sobremesa. E o frescor das novas idéias de sempre do planeta insano. O planeta que as gatas observam através da suave discordância da lua impraticável. Impraticável talvez o mais antigo dos impulsos descrito em todas as formas de arte. Conteúdo variável. Significado transformador ou em acordo com estruturas de cada período. Períodos variantes com novas mudanças de sempre. Sempre ou nunca mais. Romantismos contidos – destruídos por clichês e vulgares considerações. As gatas não se contêm – elas se expressam com todo o amor próprio bem característico da raça felina. E tudo muda. As mesmas mudanças de sempre. E as babuskas aplaudem. Aplaudem o balé russo e as águas e o queijo italiano. San Pellegrino, Pecorino e Cacio Cavallo. Filme remixado e o diretor de arte sonhando com lagos cor de rosa. O silêncio da pacífica interpretação de papéis. E o beijo das babuskas naquela página reinventada. Uma folha em branco e vestidos dentro de armários (onde o J’adore é guardado ao lado das cenas destacadas).

Liz Christine




domingo, 10 de março de 2013

(Não) Desvie seu olhar




Acho que tudo já foi dito. Antes. Depois. Desvie seu olhar. Agora ou sempre. Evitando memórias comprometidas por tamanha. Incompreensões parceladas ou solidões desfeitas. A solidão é pura ilusão. Sempre há alguém me observando. Sempre. Desvie seu olhar. Ao menos tente disfarçar. Mais um pouco. Claro demais. O sonho se torna claro. Agora ou sempre. Agora ou nunca mais. Pausa. Inspire. Incensos. Fumaças. Poluição. Perfumes. J’adore. Sabonetes de criança. Pensamentos de criança adulterados pela. Incompreensões parceladas ou solidões desfeitas. Camas desfeitas. Travesseiros novos. Um sonho diferenciado a cada despertar. Cada rosto uma sentença. Cada miado um encantamento. Cada silêncio muitos beijos. Cada minuto uma distração. Desvie seu olhar. Sempre esqueço que há alguém me observando. O gato de botas ou a gata branca ou as babuskas lésbicas ou as borboletas surrealistas com preferências diferenciadas ou camufladas em sonhos sutis. Sutileza sempre. É a sua voz. E os meus silêncios ou distrações. Sabonetes de criança. Pensamentos felinos. Filhotes felinos que jamais se tornam adultos. Encantamentos e inocências espontâneas congeladas no freezer. Ou apurados com perfumes ou com o tempo. Tempo que estraga ou que apura. Vinho ou qualquer outra coisa. Qualquer outro rosto já não interessa mais. Desvie seu olhar. Antes. Depois.

(Come una dolce farfalla che vola...),,,,,

(Libero delirio(-;

Não desvie seu olhar. Seu olhar me desperta. Pausa. Inspire. O sonho se torna claro. Sonhos consumidos em doces miados. Filhotes felinos que jamais se tornam adultos. Encantamentos profundos e impulsividades cautelosas escritas em olhares fugitivos. As babuskas lésbicas enviam flores e fogem. Fogem de olhares invasivos e mergulham no mais doce dos olhares. O único olhar que vale um sonho. Ou a real inclinação. A real inclinação do querer infinito. Quero a língua ideal ou olhares felinos ou músicas com asas ou palavras mergulhadas no chá de maçã com mel ou. Ou nada. Ou o que quero ou como sonho ou nada mais. Nada mais importa tanto assim. Tanto quanto. Livros reeditados. Poemas na madrugada. Felinas na madrugada. Balés e cappuccinos. Filmes e borboletas surrealistas abraçando suspiros.

(Come una dolce farfalla che vola...),,,,,

Não precisa mais desviar seu olhar (...).

Liz Christine


terça-feira, 5 de março de 2013

Considerações reflexivas




A música dos flocos de neve. A dispersão de múltiplas influências. La fée Diamant.

Exercícios de respiração de novo e sempre. Praticar todas as semanas. La fée des lilas.

Geléia de mirtilo e licores variados. A dispersão de múltiplas influências. A música da fada açucarada. Praticar todas as semanas. Licor caseiro de laranja e um cálice de Baileys. A absorção de significados suavemente camuflados. Mudar de direção e reencontrar a paixão única de todas as semanas. Praticar.

O primeiro beijo da tarde. O gato preguiçoso e gentil acorda às duas e meia da tarde. As fadas não dormem à noite. Elas absorvem. Absorvem a paixão única de todas as semanas. E refletem. Significados suavemente camuflados. A profundidade da revolta do mar. E o perfume da dama-da-noite apurando as considerações reflexivas.

O gato pensativo já não caça mais as mariposas desavisadas que circulam em banheiros fortemente iluminados. O gato é muito bem alimentado pelas fadas amigáveis. Cada vez mais preguiçoso. E cada vez mais gentil com as fadas ligeiramente lésbicas ou supostamente bissexuais. Ninguém sabe. O amor ultrapassa as insistentes manias. Manias de tentar aprisionar significados. Os significados se transformam diariamente. Exercícios de respiração de novo e sempre. Praticar todas as semanas. A exceção. O gato mimado ensaia uma patada na mariposa desavisada e logo desiste. O filé de tilápia vai ser servido. E as fadas se distraem. Elas se distraem no mercado vinte e quatro horas na seção dos iogurtes. Supostamente ou distraidamente. A paixão única de todas as semanas. De novo e sempre. Até o infinito das considerações reflexivas. Allegro molto vivace.

Liz Christine