quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

A lágrima dos belos olhos


Eu bebo, bebo, bebo, bebo uma lágrima em meio à inércia. A inércia produtiva das madrugadas insones. Eu uso, uso, uso, eu abuso da sorte brincando com imagens. Imagens que brotam dos lençóis e sobem pelas minhas pernas até meu pescoço e sussurram em meus ouvidos. Cantam a lágrima dos belos olhos que refletem a perda parcial da inconsistência mental. O conteúdo força as paredes do estar. Nem sempre estou onde quero mas eu me busco em cada reencontro com o procurado desabrochar de uma verdade. A verdade de duas bocas que se beijam, trocando algumas poucas palavras ou nenhuma. Em nenhuma das vezes em que nos vimos eu falei do que me afligia naquele momento. Porque nada, nada, nada, nada me atingia realmente. Eu queria te alcançar, e resto era apenas o resto. O resto era só as sobras, sombras de uma realidade unicamente preenchida por um desejo profundo de alcançar você. Só você me arrancava das histórias sem final que duravam tanto e se entrelaçavam entre uma leitura e outra divagação. Entre os livros e a imaginação havia a realidade de relacionamentos que se concluíam por si mesmos. Eu estava sempre dividida. Dividida entre umas e outras e você.

Liz Christine

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

O quarto escuro


Eu preciso, eu preciso, eu preciso – de tudo que não se alcança pela simples oposição de divergências inconstantes. Uma hora eu quero, outra hora eu desejo ainda mais, e depois eu penso que isso não é para mim mais do que já estava reservado em sonhos. Mas depois do depois eu me descubro perguntando se não devia simplesmente... arrancar você completamente das possibilidades impossíveis dos meus devaneios. Não divagar mais sobre você, sempre você – é a vaga idéia imprecisa que eu fiz de você que me desestabiliza os anseios. Desejo te ver. Quero te ignorar. Quero te conhecer cada vez mais até o infinito das transformações cotidianas. Mas você está tão longe do que eu queria ter para mim que... quero esquecer. Quero liberdade. Eu teria liberdade com você? E você tem imaginação febril e cheia de conflitos entre vontades e prática? Quero o inesperado de um azul tranquilo na sua fala. O cotidiano é monótono. Já foi melhor. Quando eu tive todas elas, uma de cada vez ou algumas juntas, ao mesmo tempo. As rosas. As rosas não gostavam que eu escrevesse sobre um sapo. Eu vivi sob bases que afundaram diante do peso das circunstâncias. Eu me decepcionei. E fui aprisionada. Absorvida e aprisionada pela monotonia do desencontro de cada dia. Posso pensar em quem eu quiser, posso querer quem eu bem entender, posso me perguntar todas as questões essenciais para mim e não encontrar nunca a saída desse quarto escuro.

Liz Christine

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Gosto de febre


Ela deixou um gosto de febre na minha boca. E quando as unhas dela deslizaram pelas minhas costas, eu pensei naquela música, aquela sobre a cor dos corpos que se desejam e se descobrem na escuridão. A escuridão da fala que ainda não encontrou a pergunta certa. A escuridão do tato que procura em outro corpo o próprio sentido. E como eu buscava, buscava em cada encontro o sentido pleno de uma verdade absoluta. Nunca existe a absoluta certeza. Ela perguntou tudo o que podia a meu respeito. Não questionei nada. Quando a mão dela subiu por debaixo da minha blusa e afastou meu sutião, eu me lembrei de outra música, alguma música sobre a provável impossibilidade de viver sem a nossa metade. E eu disse: vem comigo – e a levei para um canto ainda mais escuro. A música alta não interferia na minha memória musical – e era só disso que eu me recordava, músicas que já haviam tocado em alguma parte de mim. Não me lembrava de mais nada. Não havia mais nada… só o gosto de febre que fazia com que eu desenhasse sons e palavras dentro da escuridão de uma interseção que não vai se repetir. Mundos diferentes. Realidades divergentes também têm interseções.

“_ Você quer beijar-me, Ivich? – disse a rapariga lisonjeada.
_ Quero, vem. – E puxou-a pelo braço, autoritária.
(…) Finalmente tomara-lhe o rosto entre as mãos e a beijara na boca.”
A idade da razão, Sartre

Liz Christine

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Abraço de sapo


Ontem vi um sapo azul e quis dormir dentro do azul do sapo. Eu só queria um casaco de abraço de sapo. Um casaco que me protegesse do rato que chove desde o final da festa até meio-dia ou talvez de tarde. Não sei que horas acordei. Nem sei se acordei. Uma noite sem sonhos. Dormindo desde então... desde que saí da janela aberta de onde queria me jogar. Eu pulo. Pulo numa mini cama-elástica, desde que não quero mais sair para nada. É temporário, quase tudo passa, mas nada passa realmente. Tudo fica flutuando a cada cigarro cor-de-rosa que apago. Uma amiga desaparecida me escreveu e desapareceu de novo. Desapareceu dentro do calor da minha pele que faz hoje desde que não vou acordar mais de uma noite que morre aos poucos. Quero trocar de cor dos olhos. Quero ver tudo da cor das palavras que você me escreve. Mas vejo verde. Ou laranja.

Liz Christine

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Non, je ne regrette rien – na voz de Edith Piaf


Non, Rien De Rien, Non, Je Ne Regrette Rien
Ni Le Bien Qu’on M’a Fait, Ni Le Mal
Tout Ça M’est Bien Egal
Non, Rien De Rien, Non, Je Ne Regrette Rien
C’est Paye, Balaye, Oublie, Je Me Fous Du Passe

Avec Mes Souvenirs J’ai Allume Le Feu
Mes Shagrins, Mes Plaisirs,
Je N’ai Plus Besoin D’eux
Balaye Les Amours Avec Leurs Tremolos
Balaye Pour Toujours
*Je Reparas A Zero*

Non, Rien De Rien, Non, Je Ne Regrette Rien
Ni Le Bien Qu’on M’a Fait, Ni Le Mal
Tout Ça M’est Bien Egal
Non, Rien De Rien, Non, Je Ne Regrette Rien
Car Ma Vie, Car Me Joies
*Aujourd’hui Ça Commence Avec Toi*

(Minhas frases favoritas estão em negrito)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

À quoi ça sert l’amour?

You’ll see, one day, these dreams will pull you through my door

Nada para dizer nada para dizer só a memória
A memória do nosso encontro desencontro desencanto e outras palavras
Memória de palavras pronunciadas em momentos cor de violeta e verde-água
Eu fumo e ignoro e durmo e sobrevivo eu me alimento de sonhos e espaços silenciosos
Espaços vazios de móveis espaços a serem ocupados espaços de tempo entre uma existência e outra
Espaços de tempo entre uma resposta e uma dúvida
Espaços de tempo entre um sonho recortado e uma música que começa
Começa assim: “vamos falar de amor… somente de amor…”
Amor? Nada para dizer nada para dizer só a memória
Memória de amores simultâneos breves eternos aveludados sinuosos
Memória da minha segunda e mais completa paixão
Não quero viver na memória quero viver no presente vamos falar do presente
Presente é desencanto e outras palavras presente é sobrevivência e espaços silenciosos
O presente é precário sóbrio gasto envelhecido pesado
Eu não visto bem o presente
Quero me revestir de indiferença ao presente indiferente e alheio
Estou alheia, você indiferente, eu quase me acabando
A sobriedade prolongada me déstroi a falta de ações simultâneas me destrói
Sua idéia de amor me destrói
Você fala em dor e sacrifício eu falo em prazer e liberdade eu vivi o prazer e a liberdade você viveu a dor e o sacrifício e nosso final foi amargo e lento
O final da minha liberdade foi agonizante e o final do meu prazer é inquestionável
Não se fazem mais perguntas eu não pergunto mais se pode morrer o amor ou se talvez ele seja só ilusão e expectativa e engano e comunicação deficiente e
E você não me pergunta mais o que eu quero o que eu sonho o que eu fui e sou agora
Não nos perguntamos mais se teria conserto a comunicação deficiente
Nem discutimos mais
Nem rimos mais
Nem fantasiamos a realidade insatisfatória
Quero ir embora vou embora estou indo embora
Carregando na memória e no corpo os momentos lilases e verde-água de aroma amadeirado e suave

“You go to my head and you linger like a haunting refrain, and I find you spinning ’round in my brain, like the bubbles in a glass of champagne”
(música You go to my head, na voz de Frank Sinatra)

O senso de liberdade a minha falta de bom senso os amores simultâneos a dor alheia a minha dor, a minha dor é a dor alheia, a dor alheia é minha vontade
Minha vontade prevalece meu desejo é satisfeito e as conseqüências…
As conseqüências eu carrego na memória e no corpo e nas palavras
Nada para dizer nada para dizer nada mais a dizer agora
Acabou

Liz Christine