sexta-feira, 13 de abril de 2007

Lilases


A mulher nua sorriu com as mãos cheias de gelo picado. Ela despejou em mim os alfinetes que ela tirou da gaveta lilás. Não tive reação. Nenhuma palavra. As palavras fugiram todas da minha boca quando ela mordeu meu ombro esquerdo. Eu estava de calcinha e sutiã, cabelos úmidos, lendo, quando as janelas se abriram e eu fechei os olhos. Então uma fantasia cega despertou em mim e eu cantei o sorriso dela e perguntei – “o que você fez do gelo picado?”. “Espalhei no chão”, ela me respondeu. O mesmo chão onde eu estava deitada. Ela sentou do meu lado, fumando, e as paredes caíram com um suspiro.

Dentro da cômoda roxa tem uma taça transparente com sorvete de flocos coberto de calda de chocolate quente. Dentro da cômoda roxa tem um bebê de três meses que já aprendeu a falar. Dentro da cômoda roxa tem dois livros que atormentam minha rotina. Minha rotina é a cômoda roxa. Ela me surpreende com seus esmaltes e me cansa com suas queixas. Ela se queixa. Reclama quando é preciso acordar. E acorda mal-humorada, apontando meus tropeços e inconclusões. Sou um ser sem conclusões. E me tranco dentro da cômoda roxa.

Sinto sede mas as pessoas andam secas. E eu quero me embriagar dos sonhos delas. Os meus, eu quero desenhar. Desenhar meus sonhos nos seus olhos. Sinto fome mas as pessoas andam reticentes. E quero ser a sobremesa delas. A sobremesa gulosa e também reticente. Andamos todos reticentes. Mas eu transbordo incoerência. A incoerência do desejo que recua. Recua ante a aridez das paisagens. A profundidade me atrai. A intensidade me assusta. Eu caminho com o medo. O medo das pessoas que andam secas.

A mulher nua sorriu aproximando uma vela do meu rosto. Beijei as mãos dela. Ela perguntou por que eu andava meio apática. “É o medo”, respondi. “Medo de quê?”, ela quis saber. “Dos seus alfinetes”, eu disse, “tenho medo dos seus alfinetes”. Então ela recolheu do chão todos os alfinetes e os guardou na gaveta lilás. Deitou do meu lado e eu logo me acomodei sobre ela. Sobre a nudez macia dela. Dissemos tudo uma à outra. Tudo que palavras não podem exprimir. A comunicação entre gemidos e pernas e línguas. Dividimos um cigarro e as barreiras desabaram com o dia nascendo.

Sinto sede, ansiedade, fome e cansaço. Pessoas reticentes. Vidas mal dosadas. Falta intensidade. E a profundidade não é bem vista. O cansaço também não é bem visto. E a ansiedade, a ansiedade de caminhar, ir ao encontro de, ir ao encontro de.

Liz Christine

3 comentários:

klangbild disse...
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kkfs disse...

maravilhoso, como sempre....

Anônimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado