Liz Christine
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
amor é o meu maior desejo
Liz Christine
sábado, 11 de agosto de 2007
Dancers in the rain
O que você poderia me oferecer para descontrair? Cigarros? Não, obrigada, ainda não fumo, vou fumar daqui a três anos, sei porque me vejo daqui a três anos. Não vou pensar em você por um tempo e depois não vou te esquecer nunca mais. Você vai ser minha única experiência nesse sentido, talvez. Parece um filme. Tudo isso me parece um filme. A tempestade, a cama de casal, esse jarro em cima da mesa-de-cabeceira. Bebo litros e mais litros, até dormir. Vou acordar? Sonho de pupilas dilatadas, abro os olhos de vez em quando, sinto a cama se mexendo. Não preciso te desejar, não preciso disso e não desejo. Não te conheço e não vamos mesmo nos conhecer nunca. Não, você não é importante para mim, apenas o que estamos fazendo. Eu escolhi você? Não sei. Por qualquer motivo que desconheço mas talvez eu até adivinhe. Não penso em nada enquanto isso, em nada, só vou adivinhar daqui a muito tempo quando tudo isso fizer parte do meu passado. Por enquanto sou uma folha com apenas duas frases escritas à direita de um desenho sem cores. Mas daqui a algum tempo esse desenho vai ter cores e as frases, as frases vão se multiplicar, e outros desenhos surgirão, uns sobre os outros, até não se entender mais nada. Eu já não me entendo agora, imagine depois de você, se vou entender alguma coisa. Mas o que estou fazendo aqui? Durmo, acordo, bebo do jarro sobre a mesa-de-cabeceira, a cama se mexe mais e mais, durmo de novo.
Não penso em nada. Vejo algumas imagens. Acho que não penso mas ainda vou descobrir que havia outro rosto no meio das imagens que eu me deliciava assistindo. Havia outro rosto, e um desejo sim. Qual? Experimentar? Morrer? Mudar? Mudar de lugar e de companhias? Mudar por dentro? Acordo no hospital.
Liz Christine
o passado que se foda
Estou saturada de passado!, digo sempre que não importa quando aconteceu se ainda vive de alguma forma dentro de nós mas estou saturada de tudo que já passou!, eu quero abrir a janela e gritar para a rua – o passado que se foda! Quero esquecer tudo!, quero nascer de novo nessa vida!... mas... não quero esquecer minhas ex namoradas e as ondas boas e paixões correspondidas e prazeres e orgasmos e fantasias realizadas e tantas outras coisas e... não, eu quero esquecer tudo!, tudo!, tudo que não vai se repetir porque nada se repete e o passado que se foda!
Eu não demonstro nada, eu não falo nada, eu mal olho na direção dessa pessoa. É a idade, eu sei, além do mais eu sempre gostei de professores e professoras. De literatura, de teatro, de psicologia, de francês, mas nunca de... ah escrever é maravilhoso!, falar é muito bom!, mas eu não quero mais pensar nisso. Eu só penso nisso agora, mas eu vou conseguir esquecer. Eu quero esquecer. É pela idade, só isso. Claro que nunca falaríamos sobre Bergman nem sobre Rubem Fonseca nem sobre Lya Luft nem sobre – e o meu passado? O que eu faço com o passado?
Eu pareço uma criança que cismou com um brinquedo novo. Não sei a idade exata mas toda vez que tento calcular eu fico nas nuvens... vivo nas nuvens há um mês. Acho que tem um mês que comecei a imaginar coisas. Também, eu leio demais, isso atrapalha porque me faz sonhar. Eu não quero mais sonhar!
Não consigo pensar em coisas cotidianas, as contas que se fodam também! As contas a pagar e as idas ao mercado, que se foda tudo! Eu odeio supermercados. Adoro meu celular e meu ipod porque detesto a realidade e quando vou fazer qualquer coisa fico ouvindo música ou ligo para a mamãe toda hora. Amo minha mamãe que me ajuda tanto. Mas agora quem pode me ajudar a esquecer alguém que vejo todos os dias?, alguém que... não tem nada a ver comigo! Preciso enumerar todos os possíveis defeitos para não desejar mais. Deve ter péssimo gosto para música, talvez, não sei, não, é claro que tem, não sei...
Não vou enumerar os defeitos em voz alta porque seria politicamente incorreto mas, que se foda!, o maior defeito mesmo é ser... normal demais para mim. Mas ninguém é normal... eu quis dizer hetero. É um defeito de fabricação que algumas pessoas têm. A maioria tem ou finge que tem esse defeito mas devíamos ser todos polisexuais. Eu prefiro mulheres mas não estou livre de nada. Ninguém quer ser como os outros mas todos nós tentamos ser normais, tirando algumas exceções que gostam de chamar mesmo a atenção. Eu gostaria de não ter transtorno alimentar e não reclamar quando minha mãe me convida para comer fora ou compra um doce ou pede uma pizza. Mas nisso eu não sou normal. Acho que não sou normal em nada. Eu não posso mesmo olhar para uma pessoa normal. Eu tenho que pensar em outras coisas... em qualquer outra coisa!, mas...
Liz Christine
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
difícil de acreditar

Liz Christine
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
Suicídio
Tentei suicídio três vezes. Eu falava muito sobre morte e suicídio. Agora não mais falo sobre tais assuntos. Agora quero viver. Sempre amei viver mas já tentei suicídio. Eu amo o amor e na ausência dele nada parece fazer sentido. Amo a vida apenas porque existem o amor e o sexo – e a literatura e a música e o cinema. Se não fossem essas coisas, eu não aguentaria sobreviver. O amor existe sim. Existe mesmo? Quero viver na ilusão. Acreditar nas mentiras de amor – como, por exemplo: quero ficar com você para sempre… ou: não desejo mais ninguém… Tudo mentira! Ou não? Já escutei tanta coisa, e acreditei. A minha salvação é acreditar. Quando começo a duvidar tudo vai perdendo as cores e o sentido. Só vivo para isso, o resto são consequências de estar viva.
Liz Christine
sexta-feira, 3 de agosto de 2007
The end of me
Liz Christine
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
Bergman:
Do roteiro de A hora do amor:
“Tentei viver sem você. Pensei que fosse possível. Pensei que pudesse retornar à minha antiga existência. Mas não posso fazê-lo. Dói fisicamente viver sem você. É como um trabalho permanente; faça eu o que fizer, nunca consigo livrar-me dele. Nunca imaginei que as coisas chegassem a este ponto. Eu não sabia que estava tão absolutamente ligado a você. Pensei que passasse. Quando a deixei foi para evitar emoções adicionais, lágrimas, erupções de sentimentos. Eu não aguentava mais esta situação. Eu quis cortar fora tudo aquilo. Eu quis, finalmente, reencontrar a paz. Mas as coisas não aconteceram como eu pensava, em absoluto. Tudo apenas piorou. Não posso viver sem você. Soa terrivelmente ridículo dizer que não posso viver sem você. Mas é a pura verdade. Não há meio de expressá-lo de alguma maneira mais adequada. (…)”
“Sim, é verdade. É a pura verdade. Nenhuma pessoa me fez tanto mal como você. Nenhuma pessoa me fez sofrer como você. E, mesmo assim, eu não vou segui-lo. É possível que isso me martirize o resto de minha vida. Sei que sempre haverá de doer.”
Do roteiro de Sonata de outono:
“Se alguém pudesse me amar como sou, talvez, finalmente, me pudesse encontrar.”
“Eva
É como se fosse um fantasma que de repente cai em cima da gente quando uma pessoa abre a porta para o quarto da infância. Isto, quando a gente já há muito tempo se esqueceu que, apesar de tudo, ainda existe uma porta para o quarto da infância. Acha que já sou adulta?”
Viktor
Não sei o que significa ser adulta...
Eva
Nem eu tampouco.
Viktor
Ser adulto, certamente, é poder dominar seus sonhos, suas esperanças. A gente não deseja mais.
Eva
Você acha?
Viktor
A gente não tem mais surpresas.
Eva
Você, sentado aí de cachimbo na boca, como parece inteligente e cheio de bom-senso. Você é adulto, completamente adulto.
Viktor
Acho que não. Ainda não parei de ter suspresas todos os dias.
Eva
Surpresas? Supresas com o quê?”
“Tudo existe, lado a lado, penetrando-se mutuamente. É como se fossem monstros gigantescos que a toda hora se transformam, entende o que eu quero dizer? Da mesma maneira deve existir também uma quantidade ilimitada de realidade. Não apenas aquela realidade que entendemos com os nossos sentidos obtusos, mas sim um montão de realidades girando à volta uma das outras, por dentro e por fora. Claro que é apenas o medo e o pretensioso bom-senso que nos fazem acreditar em fronteiras. Não existem fronteiras. Não existem, nem para os pensamentos, nem para os sentimentos. É a angústia que fixa as fronteiras, você também não acha? Quando você toca os compassos lentos da sonata de Beethoven para hammarklaver também deve sentir como se estivesse girando num mundo sem fronteiras, dentro de um movimento gigantesco que você jamais poderá reconhecer ou pesquisar.”
Do roteiro de Face a Face:
"Maria
O que é que você diria se eu levantasse a mão e acariciasse a sua face? E, depois, baixasse a mão e acariciasse seu peito? O que é que você diria se eu... Se eu baixasse ainda mais a mão e começasse a acariciá-la entre as pernas?
Jenny
Você é realmente encantadora e muito convincente. Mas deve saber que os psiquiatras são apanhados em situações como esta, com muita frequência. O grande problema, ainda por resolver, é justamente como evitar as ligações entre médico e paciente.
Maria
É agradável poder ser cruel em serviço?”
Do roteiro de Gritos e sussurros:
“Há, não obstante, uma particularidade: – Todos nossos interiores são vermelhos, em diferentes nuances. Não me perguntem porque razão deve ser assim, pois não o sei. Eu mesmo meditei sobre o assunto e acabei achando que uma explicação era mais cômica que a outra. A mais absurda, mas também a mais consistente, é que tudo isto, vem a ser, possivelmente, alguma coisa de interiorizado, e que eu, desde a infância, sempre me figurei o lado de dentro da alma como uma membrana úmida; em nuances vermelhas.”
“Maria é a mais jovem das irmãs, também ela bem e estavelmente casada com um belo e bem sucedido homem, usufruindo de razoável posicionamente social. Tem uma filha de cinco anos e, ela mesma, comporta-se como uma criança mimada, suave, brincalhona, alegre, com uma paciente curiosidade e gana de se divertir. É muito fixada em sua própria beleza e nas possibilidades de prazer que seu corpo oferece. Falta-lhe qualquer compreensão do mundo em que vive, bastando-lhe seu próprio ego e nunca se mortificando com alheias ou próprias limitações morais. Sua única lei é agradar.”
Do roteiro de A hora do lobo:
“A senhora idosa: Não se assuste, minha criança. Não sou perigosa. Pega a minha mão. Pega a minha mão, agora. Assim mesmo, finalmente. Agora, você sente a minha mão? Os dedos, as veias sob a pele? Ainda tem medo de mim. Sim, em minha idade fica-se com os dedos um tanto frios. Eu já atingi, em todo o caso, duzentos e dezesseis anos. Que estou dizendo, quero dizer, setenta e seis. Bem, é tempo de eu ir seguindo. Que é que eu fiquei de dizer? Ah!sim! Já me lembro outra vez. Na maleta preta dele, que está sob a cama, encontra-se o bloco com os desenhos que vimos ontem à noite. Ele quer destruí-los. Você deve pedir a ele que não o faça. Isto não seria bom. Ainda uma coisa. Na mesma maleta ele guarda seu diário. Leia-o. Mas não diga que fui eu que o sugeri. Ele desconfia de nós. E este é seu grande erro. Pois bem. Não se esqueça do que eu disse. Não, você não deve seguir-me. Seria cansativo demais. Para mim, queo dizer.”
Do roteiro de Da vida das marionetes:
“Você acha que eu falo demais. É verdade. Eu talvez vacile em contar o que me preocupa. Enquanto eu não pronuncie a palavra, o meu problema é como um sonho irreal. Quando eu a tiver pronunciado, então, terei menifestado a minha preocupação.”
O ar se transformou. Tornou-se suave e fácil de respirar. A luz cinzenta evaporou-se e foi substituída por uma luminosidade leve, assim como mãos amigas que tocavam nossos corpos feridos. Ao mesmo tempo escutei uma música distante ou talvez uma canção, não sei ao certo. Eram quatro notas simples em algum tom maior, consolando e curando. Nos procuramos um ao outro. Tocamos um nas feridas do outro.
“Peter
Agora você vai escutar o disco sobre a pervertida lealdade de Katarina. Não vamos divertir nosso amigo com outro dos nossos números de porrada?
Katarina
A boca não se cala. É como se ele tivesse angústia de silêncio.
Peter
No silêncio se escuta a verdade.”
