quarta-feira, 16 de maio de 2007

um espelho às avessas


Faz dois anos que não vomito. Agora eu faço ginástica localizada e jumping. Duas aulas seguidas. Leio livros na bicicleta ergométrica. Vou lendo, sublinhando trechos, viajando. A música na academia não é das melhores mas… Fico na bicicleta lendo romances ou contos cheios de sexo, sexo, sexo, depois vou fazer minhas aulas com a cabeça cheia de palavras. A cabeça cheia de palavras. Chego em casa e tomo um banho quente, um café forte com leite em pó Molico, um iogurte desnatado com mel e uma barra de cereais de mousse de chocolate. Eu coleciono lingerie, tenho verdadeiro fetiche. Coleciono também sandálias vermelhas. E adoro comprar sabonetes naturais de baunilha ou mel ou rosas, e hidratantes com os mesmos ingredientes. Às vezes eu me sinto terrivelmente – desesperada. Quero compartilhar fetiches. A bulimia e a anorexia me tornaram um pouco anti-social. Eu detestava sair para comer ou comemorar qualquer data comendo. Achava idiota. Ou eu não comia nada e morria de vergonha por recusar tudo, ou simplesmente terminava a refeição na privada. Com a cara na privada. Gosto muito de sexo oral e de tantos fetiches, fantasias sexuais. Gosto que imitem bichinhos que considero fofinhos, como gatos e cachorros e ovelhas e patos. Já vivi isso antes, uma vez. Durou dois anos e meio. Não é fácil encontrar o que se deseja. Não peço muito, espero para ver qual é a da pessoa. Se ela não tiver nenhum fetiche, fico quieta. Mas se tiver algum, ou muitos, eu adoro. Tudo me aconteceu naturalmente, ela começou a latir e eu disse – vem, totó, vem e me fode. Era maravilhoso. Acabou. Eu a amava? Acho que sim. Mas o que é amor? Eu precisava dela e dos carinhos e brincadeiras dela. Acho também que ela cuidou de mim. Todas cuidaram. Sou assim mesmo, criança. Inconsequente. Era, pelo menos. Agora não sei mais. Tudo mudou bastante ou nem um pouco. Mesmo curada do transtorno alimentar, ainda acho idiota sair para comer. Prefiro tomar capuccino com bastante chocolate ou chantilly ou com licores ou brandy. Café com licor e chantilly é divino. Eu vomitava também palavras não-ditas, pesadelos e decepções. Não era só comida. Nunca era só comida. Talvez eu quisesse vomitar minha infância. Eu tive todas as bonecas que eu quis. Eu brincava de marido e mulher com minha prima mais próxima. Fazíamos estórias, representávamos e nos beijávamos. Ficávamos nuas. Mas a infância não foi só brincadeiras. Haviam neuroses e brigas constantes. E a única diversão, adivinhe!… Era comer fora. Só conheci Truffaut, Fellini, Bergman, Buñuel, na adolescência. Meus pais não assistiam isso. Detesto rock. Meu pai adorava. Meu pai adorava filmes de ficção científica e comédias babacas. Detesto. Não haviam livros na estante, exceto os de Psicologia. Não havia literatura. Logo que meus pais se divorciaram, o que, aliás, foi um alívio para mim, aos domingos haviam almoços na casa dos meus avôs paternos. Muita muita comida, e comia-se até não sobrar nem um grãozinho. Programas de domingo na tv. Tudo uma merda. Eu não queria mais comer. Tinha fome sim, mas de amor, não de comida. Antes de frequentar lugares gays, minha vida foi um inferno. Só depois eu fiz amizades, que se perderam pelo caminho, mas me deixaram ótimas lembranças e o desejo de encontrar mais pessoas para conviver. Mas os domingos cheios de comida eram terríveis e estressantes, um clima neurótico, pesado. Mais pesado ainda era que minha mãe era contra eu e minha irmã sairmos com meu pai. Mas queríamos nos relacionar com ele. Valia a pena? Quando foi que eu contei um segredo ao meu pai? Nunca. Acho que ele nunca soube nada da minha vida, quando eu desmaiava por não comer ele aparecia fazendo escandâlo. Eu no soro. Eu me consolando com prazeres extremos não-convencionais. Gostaria que alguém tivesse me salvado. Todo mundo me salvou. Quase todo mundo me salvou de certa forma. Cada relacionamento foi uma salvação. Sempre pensei em suicídio mas quando gostava de alguém eu desejava viver. E até pensava em me curar do transtorno alimentar mas era muito difícil. Meu pai tem tara por roupas de mulher. Eu também. Mas meu pai sempre traiu as mulheres que teve. Eu tentei ser sincera e ter relacionamentos abertos. Tentei ser um espelho às avessas do meu pai. Ninguém nunca compreendeu porque não conhecia minha infância. Meu pai mentindo e enganando e trocando de amante e discussões e mentiras, eu não queria isso para mim… Eu tentei ser diferente dele, falar verdades, viver abertamente. Agora eu não sei mais de nada. Eu não olhava para trás. Não sabia as origens dos meus comportamentos. E agora? E agora que penso no meu pai e em como ele era, o que mudou em mim? Meu pai entendia de tecidos, cortes, tendências. Comprava espartilhos pretos. Só compro lingerie vermelha ou cor de rosa ou branca. Adoro vermelho. Meu pai detesta gays, não conhecia os lugares que eu ia. Mas se veste de mulher…

Liz Christine

quinta-feira, 10 de maio de 2007

dois amores estragados


Lambendo as minhas costas. Eu estou bêbada e peço para você lamber as minhas costas, percorrer minha coluna vertebral com as unhas, falar no meu ouvido. Você me obedece. Sua língua percorre minhas costas, sinto suas unhas levemente, você é tão leve... tão delicada. É assim que deve ser. Eu estou bêbada e peço para você dizer que me ama com os olhos, olhar para mim e falar que quer ficar comigo para sempre, não importam nossos problemas. Você faz como eu mando, repete minhas palavras. Diga que quer me devorar e me descobrir com sua língua e seus dedos, diga que quer beber minha voz, diga que quer entrar nos meus sonhos mais obscuros e inconscientes, diga que quer me seguir em todos os meus desejos, diga que quer ser minha, completamente minha, só minha, mas diga que quer também me ver com outras, diga que quer eu e mais alguém ao mesmo tempo, diga que quer me possuir com alguém nos olhando, diga tudo que eu te peço, diga, fale, fale agora, fale sem pausas para tomar fôlego. Eu estou bêbada e peço para você passar sua língua atrás dos meus joelhos, e beijar depois minha nuca enquanto acaricia meus seios, me envolvendo toda. E você faz, suavemente mexe nos meus seios. Eu digo que sinto um prazer absurdo nos seios, é quase um orgasmo, orgasmo nos seios também, e você não larga mais meus seios. Eu estou bêbada e estou com a pessoa errada, é claro, quem eu queria mesmo está ali com outra. Bem, talvez eu até te ame um pouquinho mas não vamos falar de amor agora. Eu estou tão bêbada que quero chorar ouvindo músicas velhas de quando eu estava apaixonada por aquela pessoa, aquela ali com outra, está vendo? Peço para ouvir Portishead. É, Portishead, eu ouvia quando era uma criança cheia de sonhos. Uma criança tendo suas primeiras namoradas, suas primeiras experiências sexuais, suas primeiras decepções. Estamos na sala. Quem eu quero e a outra vão para o quarto, são mais reservadas. Eu não. Você coloca Portishead, Glory box, e minha cabeça gira. Engulo dois calmantes e sinto que não tenho mais ordens. Sinto ternura por alguém cuidar de mim e fazer minhas vontades, mesmo sabendo que amo outra. Eu faria algo assim? Acho que não. Não gosto nem um pouquinho de obedecer. Gosto de felinos e de apanhar de vez em quando. Mas ninguém me domina. Eu apanho quando eu quero. Quando eu preciso. Agora eu quero. Eu quero um hematoma. Mas você não gosta disso, diz que isso não, isso você não vai fazer. Você é tão boazinha, não seja assim tão boazinha comigo, eu não mereço... não mereço mesmo. Já amei duas vezes, e sabe o que eu fiz? Dei um belo jeito de estragar tudo, sabia?, sabia? Bem, talvez eu também te ame um pouquinho, porque você merece, você merece ser amada. Mas ninguém consegue me ajudar, ninguém pode me ajudar!, porque eu sou assim mesmo, um pouco insegura, um pouco pervertida, muito infantil, doce e desprotegida, infiel e mandona. Eu quero que me amem. Eu quero que me desejem. Eu quero que façam tauagens por mim, como eu fiz pelas mulheres que foram importantes na minha vida. Você sabia que todas as minhas tatuagens simbolizam mulheres, sabia? Minha vida amorosa e afetiva na minha pele. Sim, você também está aqui, no meu corpo, você é uma das borboletas. Sabia?, sabia?, sabia? Não tenho inibições quando me sinto segura. Eu te falo tudo assim, eu mando também, eu peço, eu insisto, me bate, me bate, me bate, eu preciso, enquanto toca essa música. Vamos trocar de Cd, você diz. Eu estou bêbada ainda, bebi mais duas taças de champagne de um gole só, sem eduação nenhuma, estou me preparando para chorar pelos amores perdidos... agora eu quero alguma coisa para acordar. Me dê uma pílula para acordar de um pesadelo. Chega, Liz, chega!, você fala. Mas eu estou em crise. Faz um favor? Conta sua infância, como eram seus pais?, você gosta deles?, eles sabem que você é lésbica? Não, não sabem, você já me contou tudo. Conta de novo. Ou me agarra e me faz esquecer. Me faz esquecer de mim mesma e de dois amores estragados...

Liz Christine

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Eu te exijo

Fumando palavras e ausências fumando abstinência saudade vontade
Fumando angústias recordações a noite que vem fumando estrelas que cantam
“Todos nós estamos na lama” – Oscar Wilde, O leque – “mas apenas alguns de nós estão olhando as estrelas.” O que estou olhando é um espelho eu vestindo um casaco apenas um casaco eu me olhando no espelho de cabelos úmidos e olhos irritados pela fumaça
Coração irritado pela ausência ausência de mim mesma se me estruja el corazon
Eu não estou em cada palavra que eu digo
Estou em cada silêncio distante que prolongo estou em cada brasa que cai na pia
Fumando vozes no banheiro fumando vozes de sonhos a voz do Louis Armstrong sorri para mim cantando “Ain’t nobody’s business if I do” what did I do what did I do
Pego a tesoura e corto uma mecha de cabelo gostaria de cortar minha língua e não poderia mais não poderia mais não poderia mais
Mas eu adoro
So lonely I wanna die Todos tão sozinhos nós estamos inseridos numa confusão de vozes que opinam sem ajudar e eu exijo eu exijo
Uma língua apenas uma língua que não me exija nada e que não me confunda e que não me ame porque amar é cercar de cuidados que estou despreparada para receber
Receber e retribuir receber e aproveitar receber e assoprar
Assoprar as feridas do amor não correspondido porque eu não correspondo ao comportamento esperado eu não correspondo à esperada delicadeza com os sentimentos e anseios alheios
Eu e a minha ansiedade e confusão de sentimentos e fumaça e ausência
Ausência de mim mesma no cotidiano e nas frases trocadas eu não tenho mais domínio do que respondo respondo qualquer coisa só para fugir
A verdade é essa: quero fugir
Fugir com uma língua por duas semanas para fumar todas as músicas que eu amo
Uma língua que não me ame que não me exija porque amar é também exigir e eu exijo eu exijo
Eu te exijo

Liz Christine

segunda-feira, 7 de maio de 2007

plantações de palavras


I just can’t put my poor self together… quero mel, velas, sorvete de pavê, sorvete de café e sorvete de brownie. Quero ela, você, e mais outra, e mais outra. Mais outra música. As músicas todas têm um rosto. Rostos que se repetem. Músicas têm cor, corpo, olhos, cabelos, perfumes, curvas, estatura. Eu me olho no espelho e nunca me reconheço. Quando me vejo semi-nua eu me amo tanto quanto um gato ronronando. Eu me espanto com o que eu fiz. Meu inconsciente escreve. Meu inconsciente lê pessoas. Meu inconsciente relê o passado. Não existe passado. Apenas sentimentos. Todos presentes, todos presente. Não existe nem passado nem futuro. Pessoas nascem a cada instante. Cada vez que se conhecem. “Nasci na noite em que te conheci, eu não tenho passado...” Uma frase do filme Gilda que nunca esqueço. Porque eu sinto assim. Mas faz tempo que não me sinto nascer de novo. Eu me sinto velha e desbotando de tantas lágrimas colhidas ao pé das orelhas repletas de piercings. As ovelhas estão cada vez mais irascíveis. Por que há pessoas vingativas nesse mundo tão repleto de verde e azul e vermelho e lilás e roxo e rosa? Não sou assim. Sou o ronronar de um gato. Eu quero prazer, quero nascer, quero ser um sorvete cremoso derretendo numa tarde fria e úmida de inverno. Quero uma língua incansável, uma mente artística, um corpo feminino e delicado. Quero a voz que me faz suspirar também, não precisa fazer nada, apenas falar. Não sei. Todos os assuntos, não sei. Eu nunca sei de nada, nem de mim mesma. Não sei mais o que eu penso a respeito de nada. Mas sei que as ovelhas estão irascíveis. E maldosas. Talvez seja impressão. As ovelhas não mexem mais na minha cabeça, nas minhas costas, na minha nuca, no meu cóccix. Elas mexiam em tudo, sabia? E amavam Billie Holiday, tanto quanto eu. Quero todas. Todas as músicas que me fizeram derramar lágrimas de saudades. Saudades de ronronar. Saudades de ser um sorvete cremoso derretendo numa tarde fria e úmida de inverno. Saudades de ser criança que ama brincar com suas bonequinhas de porcelana. Saudades de andar semi-nua por entre plantações de palavras. Saudades do verde nos meus lábios. Nunca mais eu vou fugir. Nunca mais eu vou mergulhar. Nunca mais eu vou calar a boca. Quero ir-me embora. Quero voltar ao verde. Quero seguir em frente com o amor que eu sinto crescer a cada amanhecer. Cada anoitecer. Amor pelas músicas que se reduzem a duas únicas imagens. Rostos que se repetem. Palavras que me envolvem. É assustador o meu problema. Meu problema se chama...

Liz Christine

Disgusting memories

Liz às vezes representava um pouco, ou muito. Sorria quando queria fugir. Liz às vezes chorava, sozinha ou no colo de alguma mulher. Nem sabia ao certo o motivo pelo qual chorava. Mas agora ela sabe, não sabe? Também choro por coisas bonitas, cenas de filmes, mas Liz tinha disgusting memories. Liz confiava nas namoradas que teve, amigas, e na mamãe dela. Mas ela não poderia falar o que escondia até de si mesma. Agora eu posso. Sorria quando queria fugir. Disgusting memories.

Liz Christine

domingo, 6 de maio de 2007

Anfetaminas

Tenho algo a dizer? Não. Não quero conversar com você. Quero que você me agarre, só isso. Temos algo em comum? Acho que não. Não sei, não te conheço muito bem. Todos nós temos algo em comum mas nunca somos parecidos o suficiente. Fala-se demais o tempo todo. Ando pela rua e venho ouvindo conversas. Desnecessárias. Eu falo demais também. Mas não tenho mais vontade de te conhecer. Desisti. Gostaria de ter sido sua amiga mas agora só penso que é um alívio... você não ter participado da minha vida. O que eu teria perdido? O que eu teria ganho? Tirando o sexo oposto, amo todas as experiências que eu tive. Quer saber? Tive orgasmos todas as vezes que dormi com uma mulher. Todas. Quer saber mais? Eu conto. Mesmo que fizessem as coisas que eu adorava, como lamber e chupar, eu não tive orgasmo com homem. Quantas vezes? Três. Duas e meia. Quatro. Quatro fizeram sexo oral em mim, e as coisas normais entre homem e mulher, bem, isso foram duas e meia porque uma das vezes eu simplesmente mandei parar. Das outras vezes eu estava muito mal para pedir. Não estava nada sóbria. Minha primeira vez com uma mulher foi maravilhosa. Não foi especial porque eu não estava apaixonada, mas eu senti prazer e me senti adulta. Claro que eu era nada mais que uma criança. Minha primeira vez com homem? Terrível. Tive até enjôo mas haviam muitas substâncias atuando no meu cérebro, sangue, corpo. Eu nem estava enxergando, via tudo embaçado e tremendo. Claro que não olhei nem medi cada milímetro do corpo dele, como eu faço às vezes com mulheres. Eu olho mesmo para mulheres nuas. Pode ser de dia, com luz acesa, com a luz fria e cruel de um banheiro. A luz dos banheiros é mesmo cruel, não é? Dá para ver tudo. Sempre faço as unhas no banheiro. Adoro tirar fotos no banheiro. Adoro foder no banheiro. Mas com homem eu não olhei nada. Não saberia desenhar um corpo masculino. Nem em filmes me agrada ver. Não é atraente. O primeiro que me chupou parecia ser mais delicado. Mas acho que ele nem sabia que era o primeiro. Foi o único que gostei. Depois dele teve um cara vinte anos mais velho. Havia outra garota na cama. Pela simples presença dela, foi até bem gostoso. Mas até aí, aquelas coisas que eu ouvia as mulheres hetero falando sobre, nada delas. Eu não fazia mesmo nenhuma questão. Ia namorando mulheres, saindo com mulheres, quando ficava com um cara nem pensava em experimentar. Com o primeiro que me chupou eu até pensei, pensei mesmo, mas não fiz nada. Eu estava sóbria com o primeiro. Com o segundo vinte anos mais velho, não estava. Nem um pouco. Mas com eles foi só sexo oral. Nem os vi sem roupa. Até que eu tive um verdadeiro surto. Queria a todo custo esquecer alguém. Não queria gostar mais do meu primeiro amor. Achava que era simples assim, que ia esquecer experimentando com outro o que eu queria com um. Tomei tudo que podia e pronto – foi uma merda. Foi a pior escolha possível. Ele me deu ecstasy, ao todo tomei uns quatro. Ele não fez nada que pudesse me dar prazer e era terrível. Eu acreditava tanto que nada demais havia acontecido que até falava em conversas que nada demais havia acontecido. Voltei para minha ex, havíamos brigado por causa desse episódio, e passaram-se alguns meses. Mas brigamos de novo, conheci outra e me apaixonei à primeira vista. Claro que eu tinha que tentar estragar tudo de cara. Quando ela viajou e fiquei sozinha, aprontei. De novo eu tomei tudo que podia. E fui parar num lugar. Não me lembro de muita coisa mas não fui sozinha. Fui com um amigo que gostava de homens. Essa vez eu considero a minha primeira vez com homem de verdade pois não parei pelo meio. Ele me deu uma droga que eu não conhecia, nunca tinha usado. Contei à garota e ainda voltei lá com ela. Dessa vez tive uma overdose. Foi assim que conheci a mãe da garota, no hospital. Mas ela continuou comigo. Comecei a namorar uma amiga dela porque novamente eu só queria esquecer e agir como se nada tivesse acontecido. Mas ela era insistente, conseguiu que eu namorasse as duas ao mesmo tempo, e depois ainda conseguiu me deixar tão louca por ela que acabei por namorar apenas ela. E até terminarmos não repeti experiência traumática nenhuma. Eu achava que nada disso me importava realmente. Quando ela terminou comigo eu fiquei péssima. E ela me ligava toda noite para conversar e tocava em assuntos proibidos que não havíamos conversado durante todo o tempo em que ficamos juntas. Ela me atormentava. Comecei a sonhar que estava morta. Tive pesadelos. Para mim, só haveria uma cura, no meu novo surto – para esquece-la eu devia tentar de novo. Devia dar um tempo de mulheres e tentar mais uma vez. Mas não consegui. Convidei duas meninas para ficar comigo e com um amigo. Não fiz nada com ele. Novamente eu não estava sóbria, mas nem estava tão mal assim. No dia seguinte levei um soco no nariz da garota que havia terminado comigo. Daí em diante, foi só ladeira abaixo. Antes eu me drogava por prazer e quando estava mal ou ansiosa abusava um pouco a mais. Tive ondas maravilhosas com mulheres mas convivi com elas no dia-a-dia, normal e sóbria. Dormia com elas de segunda a domingo. Com homens, eu nunca estava sóbria, exceto com o único que eu gostei. E ainda tinha bad trip. Lembrei de tudo que eu havia apagado para o meu próprio bem. Admiti pela primeira vez para mim mesma o que eu nem acreditava que fosse verdade. Eu não gosto de homem. E parei de usar drogas. Era maravilhoso muitas vezes, eu não me arrependo. Mas parei. Só que antes de parar eu entrei numa de tomar remédio para emagrecer. Para não ter pesadelos, eu não dormia. Mas passei a viver um pesadelo, nem precisava dormir. Estava cheia de memórias desagradáveis. Já estava com mais uma garota, e mais bulímica do que nunca. Ela me achava anoréxica e ficava me oferecendo comida, tentando me ajudar, mas eu nunca comia e se comesse vomitava. Falava coisas sem nexo e via fantasmas do passado passeando pela minha mente. Foi terrível. Tenho pena dessa menina. Não, tenho pena de mim, porque ninguém sabia o que realmente estava acontecendo comigo. Como eu saí disso? Não sei. Ainda tenho alguns pesadelos, mas não todo dia. Acho que não tenho cura disso. Eu nem pensava sobre certas coisas, apagava da memória. Às vezes digo para mim mesma que não foi tão mal assim. Mas foi. Foi um pesadelo.

Liz Christine

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Do diário de uma ex-anoréxica


“Adianta escrever, se ninguém vai ler?
Adianta, sempre.” (do livro O Caso Morel, Rubem Fonseca)

“Aqui dentro eu só penso em sexo, sexo…Diga alguma coisa.” (do livro O Caso Morel, Rubem Fonseca)

“Leonardo aconselhava parar algumas vezes, olhar manchas das paredes, cinzas, nuvens, lama, lugares assim onde podem estar idéias maravilhosas. Mas nas pessoas exite ainda mais para ver.” (citação no livro O Caso Morel, Rubem Fonseca)

“Só penso em sair daqui e apanhar uma mulher. A vida é uma sucessão de besteiras. A minha pelo menos. A sua também?” (do livro O Caso Morel, Rubem Fonseca)

“Fiquei imaginando: eu vivendo, na mesma casa, com várias mulheres. Quanto mais eu pensava, mais a idéia me agradava.” (do livro O Caso Morel, Rubem Fonseca)




“Suspeito que o universo não é apenas mais estranho do que supomos: é mais estranho do que somos capazes de supor.” (citação no livro O Caso Morel, Rubem Fonseca)

Queria que meu corpo demonstrasse como me sinto por dentro. “Os adultos são crianças obrigadas a viver fantasias de adultos”, frase do livro Sonata de outono, Bergman. Simplesmente amo essa frase. Sou uma criança, é claro, sempre vou ser. Queria ter peso de criança. Muito se fala sobre a ditatura da moda, a ditatura dos padrões de beleza. Passei a adorar moda só na adolescência. Não a convencional, eu ia a festas gays e passei a gostar um pouco de moda. Mas minha mãe foi bailarina. Ela me levava ao Teatro Municipal desde muito pequena. Eu amava os balés assim como amava as fábulas. Giselle era meu favorito. Eu amava a Rainha das Sílfides. Todas aquelas bailarinas diáfanas, todas de branco, a Rainha das Sílfides entrando no palco com um véu branco cobrindo o rosto. Todas mortas. Maravilhosas. Mortas por amor. Isso me estimulava mais do que O patinho feio. Eu não sonhava em virar um cisne não. Dos cinco aos oito anos eu sonhava mesmo era em morrer de amor. Hoje em dia, claro, desisti, e prefiro me curar de amores mortos com boas orgias do que definhar. Minha mãe não sabia, talvez, das minhas fantasias de criança. Achava apenas que estava me dando cultura. Mas eu sempre fantasiei muito. E sempre me senti tão frágil. Só queria ter uma aparência frágil. Aos doze anos comecei a querer emagrecer. Aos treze já era anoréxica. Cheguei a 33 quilos. Aos catorze fiz meu primeiro curso de teatro e fui à minha primeira festa gay. Virei bulímica um tempo depois. Engordei alguns quilos e queria manter um determinado peso, não precisava ser 33, claro. Acho que nunca tive tendência a engordar. Apenas quis viver abaixo do peso considerado normal. Não por causa da ditatura da moda. Cada um tem seus motivos. Hoje em dia ninguém te aconselha a ser frágil e diáfana, pelo contrário. Ninguém te aconselha a isso, eu acho. Mas eu me senti assim e quis me expressar através de meu próprio corpo. Talvez eu esteja curada. Não sou mais bulímica nem faço greve de fome. Capuccino, café com leite e chocolate branco são meus vícios. Pavê e brownie e leite condensado desnatado também. Mas eu como saladas, barras de cereais, carne de soja e outras coisas. Quando deixei de ser bulímica eu só queria doces, afinal tinha me privado deles. Eu só ingeria coisas de que não gostava tanto para vomitar. Geralmente salgadinhos, frituras, eu não ligo para essas comidas. Cada bulímico tem suas manias. É ridículo culpar a moda, acho que seria melhor culpar a infância que cada um teve. As neuroses de cada família ou as gracinhas dos coleguinhas. Todo mundo passa por isso. Toda família tem suas neuras e problemas e colegas de colégio não são anjinhos… eu brincava de boneca e de marido e mulher só com meninas. Não tive problemas de adaptação em colégio algum. Mas minha vida familiar… esse é um problema que ainda não vou descrever.

Liz Christine

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Madrugadas


Não leio mais jornal na internet. Não mais vejo o dia amanhecendo. Toda madrugada eu fico agitada, vou para o banheiro e acendo velas azuis e cor-de-rosa, ou vermelhas ou de mel, acendo também incensos, abro o chuveiro e durmo com a água. Deito no chuveiro de pernas abertas, ou deixo a água caindo pelas minhas costas, meu cabelo, meus seios, deixo a água me beijar toda. Tomo uns dois ou três banhos por dia, e o banho da madrugada é só para relaxar. Sentir prazer. Antes de entrar no chuveiro eu danço, com ou sem música. Estendo uma toalha no chão e deito me olhando toda. Gostaria de olhar outro corpo. Prefiro o conjunto, o todo, mas se tivesse que escolher uma parte favorita seriam seios e quadris. Pele, boca, olhos, cílios, unhas, cintura. Fumo no chuveiro ou bebo um pouquinho de licor. E me deixo pensar à vontade, ou nem penso em nada. Penso que gostaria de uma resposta. O que devo fazer? Parar de pensar. Parar de fantasiar, isso eu consigo por pouco tempo. As fantasias me distraem e me preenchem, dão vontade de continuar viva, mas podem me sufocar de tanto desejo de viver com intensidade. Eu não quero a tranquilidade. Mas eu quero segurança. Eu não quero certezas. Mas eu quero amor. Eu não quero mais sofrer. Mas eu... falo demais. Fico cansada, cansada de falar ou escrever. Retratos de mim mesma. Sempre pensando em alguém... Quem?

Liz Christine

quarta-feira, 2 de maio de 2007

todo o amor dentro de mim


liz está deprimida. liz está sozinha. liz não está deprimida. está desesperada. os anos passam passam passam
e dias felizes ficam cada vez mais distantes
eu quero agora eu quero hoje quero nesse
instante
quero um instante de alegria
quero alguns orgasmos seguidos
conversar sem medo sem trava
quero esquecer o que me incomoda, apenas o que me incomoda
e guardar as melhores lembranças junto com aquela caixinha de areia cor de rosa perfumada
perfume de almíscar ylang ylang
línguas de mulher
curvas de mulher
mulheres cantando amores e desamores
mulheres mulheres mulheres
...................................

falta delicadeza
falta tato
faltam prazeres sensoriais
faltam línguas e discussões passionais
falta encaixe perfeito entre corpos feminimos se movimentando

odeio quem sempre tem razão
o ser humano é muito mais do que razão
o que vc faz com meus sonhos e fantasias?

quero me alimentar das fantasias alheias quero sonhos dos outros
quero vestir as palavras de uma canção de 1920
e sair por aí

vivendo a minha vida

estou cansada cansada dessa casa cansada cansada cansada cansada

quero quero quero quero
sou um amontoado de queros

não quero não quero não quero
não quero o que não me dá prazer

.......................................

eu não quero mais ninguém
eu quero todo mundo
quero apenas duas ou três pessoas
quero só uma garota
quero todas as mulheres do mundo
quero ninguém

______________________________________________________________________

gostaria de estar morta é tudo que tenho a dizer (claro que eu não gostaria de estar morta)

todo o amor dentro de mim

memories hate disgusting memories

tired of talking and thinking about disgusting memories

lonely roads of memories

cansada de solidão eu não preciso de ninguém me consertando
apenas me deixe ser toda errada esquecendo o que eu quero esquecer e
errando o que eu quiser errar

quero mulheres mulheres prazeres

gostaria de morar em outro lugar no mesmo bairro só eu e ela

eu e ela para todo o sempre

ela absoluta

ela comigo enquanto tomo banho ela me compreendendo
ela lendo meus emails ela me mandando doces cartões

suaves carícias pele macia cílios longos e curvados tão branquinha

mas ela não sabia das disgusting memories - ou sabia? sabia? ela sabia? eu não sabia

ainda

a amo

o que vc faz com tantas palavras?

Liz Christine

terça-feira, 1 de maio de 2007

Quase insana


Insana. Vou acabar enlouquecendo se continuar sozinha. Eu preciso de alguém me abraçando e me fazendo sorrir. Eu preciso de língua, beijo, mãos, braços, pernas, cintura, quadris, seios, tudo, eu preciso de tudo. Eu preciso de uma mulher que goste de me agarrar tanto em casa quanto em banheiros públicos. Banheiros de shoppings, cafeterias, cinemas, banheiro da minha casa, banheiros da casa dela, banheiros, camas, chão, pia, todos os lugares. Mas minha libido é tão desenfreada que, mesmo preferindo mulheres... eu já quis experimentar o outro lado. Não gostei. Foram pouquíssimas vezes, não gostei mesmo. Péssimas lembranças. A não ser que fosse a voz dos meus sonhos, de novo nem em pensamento. Mas estou enlouquecendo, quase, mesmo. Ainda mais relendo O caso Morel. As mulheres de Rubem Fonseca. Todas aquelas mulheres. E eu sozinha, relendo o livro... difícil. Há algumas experiências lésbicas levíssimas no livro mas as mulheres estão sempre envolvidas com algum homem. E eu me identifico mais com o que Morel escreve e fala do que com as mulheres. Exceto pelas neuras femininas como peso e corpo eu sempre me identifico mais com personagens masculinos. No filme A viúva alegre eu queria ser o homem que vive rodeado de mulheres até que acaba se apaixonando pela viúva. Minha fantasia sempre foi mais ou menos essa. Nunca quis ficar numa torre esperando, esperando. Eu preciso é viver até encontrar o que eu quero... ah fantasias. Já tive tantas. Pessoas vinte anos mais velhas, garotas na minha faixa etária, ménages, exibicionismo, atitudes extremas como provas de amor, crises, sexo, sexo. Não existe comida afrodisíaca. Existe livro afrodisíaco. Existem pensamentos afrodisíacos. Quando li A Casa dos Budas Ditosos, anos atrás, também fiquei enlouquecida.

Quase todos os livros do Rubem Fonseca me deixam assim. Não ligo a mínima para o lado policial e etc. Eu só vejo sexo e relacionamentos. É tudo o que eu vejo. É a minha parte favorita nos livros. Mas eu não gosto só disso. Vou reler também A lenda do mel, que é uma fábula açucarada e romântica. Sem sexo. Personagens como fadas e bichinhos da floresta e os ventos de cada estação do ano. Talvez assim eu pense um pouco menos em...

Liz Christine