
Faz dois anos que não vomito. Agora eu faço ginástica localizada e jumping. Duas aulas seguidas. Leio livros na bicicleta ergométrica. Vou lendo, sublinhando trechos, viajando. A música na academia não é das melhores mas… Fico na bicicleta lendo romances ou contos cheios de sexo, sexo, sexo, depois vou fazer minhas aulas com a cabeça cheia de palavras. A cabeça cheia de palavras. Chego em casa e tomo um banho quente, um café forte com leite em pó Molico, um iogurte desnatado com mel e uma barra de cereais de mousse de chocolate. Eu coleciono lingerie, tenho verdadeiro fetiche. Coleciono também sandálias vermelhas. E adoro comprar sabonetes naturais de baunilha ou mel ou rosas, e hidratantes com os mesmos ingredientes. Às vezes eu me sinto terrivelmente – desesperada. Quero compartilhar fetiches. A bulimia e a anorexia me tornaram um pouco anti-social. Eu detestava sair para comer ou comemorar qualquer data comendo. Achava idiota. Ou eu não comia nada e morria de vergonha por recusar tudo, ou simplesmente terminava a refeição na privada. Com a cara na privada. Gosto muito de sexo oral e de tantos fetiches, fantasias sexuais. Gosto que imitem bichinhos que considero fofinhos, como gatos e cachorros e ovelhas e patos. Já vivi isso antes, uma vez. Durou dois anos e meio. Não é fácil encontrar o que se deseja. Não peço muito, espero para ver qual é a da pessoa. Se ela não tiver nenhum fetiche, fico quieta. Mas se tiver algum, ou muitos, eu adoro. Tudo me aconteceu naturalmente, ela começou a latir e eu disse – vem, totó, vem e me fode. Era maravilhoso. Acabou. Eu a amava? Acho que sim. Mas o que é amor? Eu precisava dela e dos carinhos e brincadeiras dela. Acho também que ela cuidou de mim. Todas cuidaram. Sou assim mesmo, criança. Inconsequente. Era, pelo menos. Agora não sei mais. Tudo mudou bastante ou nem um pouco. Mesmo curada do transtorno alimentar, ainda acho idiota sair para comer. Prefiro tomar capuccino com bastante chocolate ou chantilly ou com licores ou brandy. Café com licor e chantilly é divino. Eu vomitava também palavras não-ditas, pesadelos e decepções. Não era só comida. Nunca era só comida. Talvez eu quisesse vomitar minha infância. Eu tive todas as bonecas que eu quis. Eu brincava de marido e mulher com minha prima mais próxima. Fazíamos estórias, representávamos e nos beijávamos. Ficávamos nuas. Mas a infância não foi só brincadeiras. Haviam neuroses e brigas constantes. E a única diversão, adivinhe!… Era comer fora. Só conheci Truffaut, Fellini, Bergman, Buñuel, na adolescência. Meus pais não assistiam isso. Detesto rock. Meu pai adorava. Meu pai adorava filmes de ficção científica e comédias babacas. Detesto. Não haviam livros na estante, exceto os de Psicologia. Não havia literatura. Logo que meus pais se divorciaram, o que, aliás, foi um alívio para mim, aos domingos haviam almoços na casa dos meus avôs paternos. Muita muita comida, e comia-se até não sobrar nem um grãozinho. Programas de domingo na tv. Tudo uma merda. Eu não queria mais comer. Tinha fome sim, mas de amor, não de comida. Antes de frequentar lugares gays, minha vida foi um inferno. Só depois eu fiz amizades, que se perderam pelo caminho, mas me deixaram ótimas lembranças e o desejo de encontrar mais pessoas para conviver. Mas os domingos cheios de comida eram terríveis e estressantes, um clima neurótico, pesado. Mais pesado ainda era que minha mãe era contra eu e minha irmã sairmos com meu pai. Mas queríamos nos relacionar com ele. Valia a pena? Quando foi que eu contei um segredo ao meu pai? Nunca. Acho que ele nunca soube nada da minha vida, quando eu desmaiava por não comer ele aparecia fazendo escandâlo. Eu no soro. Eu me consolando com prazeres extremos não-convencionais. Gostaria que alguém tivesse me salvado. Todo mundo me salvou. Quase todo mundo me salvou de certa forma. Cada relacionamento foi uma salvação. Sempre pensei em suicídio mas quando gostava de alguém eu desejava viver. E até pensava em me curar do transtorno alimentar mas era muito difícil. Meu pai tem tara por roupas de mulher. Eu também. Mas meu pai sempre traiu as mulheres que teve. Eu tentei ser sincera e ter relacionamentos abertos. Tentei ser um espelho às avessas do meu pai. Ninguém nunca compreendeu porque não conhecia minha infância. Meu pai mentindo e enganando e trocando de amante e discussões e mentiras, eu não queria isso para mim… Eu tentei ser diferente dele, falar verdades, viver abertamente. Agora eu não sei mais de nada. Eu não olhava para trás. Não sabia as origens dos meus comportamentos. E agora? E agora que penso no meu pai e em como ele era, o que mudou em mim? Meu pai entendia de tecidos, cortes, tendências. Comprava espartilhos pretos. Só compro lingerie vermelha ou cor de rosa ou branca. Adoro vermelho. Meu pai detesta gays, não conhecia os lugares que eu ia. Mas se veste de mulher…
Liz Christine
Liz Christine






