domingo, 2 de junho de 2019

Cerejas e um ramo de rosas



E então... E poi, (...), E então...

Aquele rosto não saía dos seus pensamentos.

Ela fotografava os gatos - o seu gato, o gato da vizinha, as gatas das redondezas.

Antes, ela tinha duas gatas e um gato.

Agora, ela tem uma outra gata e o mesmo gato.

Ela leu sobre a fada Pari-Banu. Ela releu todos os contos de As mil e uma noites.

E releu outros livros, e nada conseguia escrever.

Ela disse: “Tudo já foi dito antes. Até esta frase - tudo já foi dito antes - já foi dita e repetida.”

“Mas nada dissemos ainda” - foi o que disse a ovelha que degustava uma fatia gorda de camembert. “Deixe-me escrever por você” - disse a voz do sapo que andava sumido há tempos. E a gata miou. O gato miou também. O polvo sorriu. E aquele rosto não saía dos seus pensamentos. “Não diga nada” - ela disse a si mesma. Um pássaro azul se aproximou da janela.

As fadas trouxeram mais lascas gordas de camembert. E chovia. E continuava chovendo. As fadas trouxeram um ramo de rosas.

E dentro da música era primavera. Mas na realidade era outono. Onde ela vivia, porém,  era sempre primavera. E onde ela vivia? Ela vivia dentro daquela música. Qual delas?

“Liberte-me.” - disse a ovelha. “Quero plantar cerejas no seu conto.” - disse novamente a ovelha. “Mas eu não escrevo contos.” - ela respondeu. “Então isso é um poema?” - perguntou uma das corujas, eram muitas corujas ao redor dela. A coruja ficou sem resposta. Ela ofereceu um chá de mirtilo às corujas, para se desculpar por não haver respondido. Ela não queria mais falar. Não era por mal. Adorava seus bichinhos de estimação. Ela os tratava bem, e eles a ajudavam também (...).

Liz Christine

domingo, 19 de maio de 2019

Le fantôme de la liberté



"Venham comigo, senhoras e senhores que de alguma forma estejam cansados de (...): venham comigo, e aqueles que estão cansados do mundo que conhecemos, pois novos mundos temos aqui." (do livro Contos maravilhosos, Lord Dunsany)

Je me souviens de toi ....
Toi qui n’existes pas ....

Je regarde mon chat ......
J’écoute une chanson de ...
... Jean-Philippe Rameau ...

(Danse des Sauvages -
    Les indes galantes -
            Act 9)

Je sors    J’en reviens
      J’en rêve
Je reste chez moi

Je me souviens de toi ....
Toi qui n’existes pas ....

Et je m’inspire de toi.

Liz Christine

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Maçã com mel (tea for two)



Afastei os medos e convidei a liberdade. 

Ela já estava pensando em se aposentar ou buscar outros refúgios.

Aqui não se ouvem a si próprios. Aqui não se ouvem uns aos outros. Aqui não dão ouvidos à sensível interpretação de parênteses e senões.

Mas ela, a liberdade, veio e aceitou uma xícara de chá.

E cumprimentou meu gato, minha gata, as borboletas dentro do armário e os livros da estante.

           Maçã com mel.

Então afastei o tímido silêncio e convidei também a música.

Ela também veio, e dessa vez chegou um pouco mais alegre.

Trouxe tipos variados de sonhos, macarons e doces pequeninos (como mini brigadeiros de morango).

Mas precisávamos de mais consistência (...).

Então chamamos o espírito que habita em cada livro desta ou daquela estante, e ele também veio.

Ele nos pediu precaução e nós prometemos guardar o seu segredo.

E assim passamos algumas horas agradáveis, mas já era o momento da realidade voltar para casa.

A realidade queria expulsar todos os convivas e as minhas convidadas e o espírito dos livros desta ou daquela estante.

         Mas não o permiti.

Deixei-a sentada sozinha na mesa e fomos jantar uma pasta italiana (...).

Liz Christine