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domingo, 2 de agosto de 2020

Anotações


Naquela época em que ela tinha insônia, e às vezes ela anotava os sonhos, e às vezes ela jogava fora algumas anotações, e às vezes ela relia outras anotações, ela se lembrava de alguma vez em que havia sonhado com uma jaguatirica brincando na grama, e a grama era tão perfumada, e a jaguatirica tão afetuosa e ao mesmo tempo um pouco implicante, e ela ria, e se sentia tão bem, e às vezes tinha vontade de chorar por nada, sem saber nem o motivo, apenas porque a grama era tão perfumada, e as borboletas tão dóceis, e ela tinha insônia, e às vezes invertia os poemas, e uma vez sonhou com poemas, e ela gostava de cappuccino, e bebia cappuccino todas as semanas, e agora ela nem tem mais insônia, e dorme bem, e dorme tão bem todas noites, e ontem, depois de tanto tempo, ontem ela sonhou com aquela jaguatirica que ela havia conhecido anos antes, em sonhos, tão afetuosa e um pouco implicante, brincando na grama e mergulhando na água, pois havia também muita água, e algumas borboletas, e ela acordou e viu as matrioskas. A gata pediu ração quando viu que ela estava acordada. Ela tinha duas gatas e um gato. O gato e a outra gata também acordaram, e ela contou a eles que havia comprado mais livros e que eles poderiam lê-los também e deu bom-dia, ou talvez boa tarde, ou talvez um olá, ou talvez ela tenha abraçado a gata, e então ela ligou o computador e deu mais um bom-dia às plantas.

 

Liz Christine

terça-feira, 2 de junho de 2020

Sombras tão leves quanto sílfides



Teria sido melhor guardar o silêncio dentro daquela matrioska que me olhou atentamente e quase sorriu e disse umas palavras à gata que mora aqui. Ela disse à gata que mora aqui: “Custodire il cuore, sabe o que significa isso?”. E a matrioska respondeu: “Sim, eu também li sobre isso ontem”.

Teria sido melhor tentar traduzir o que não foi dito, e não havia como dizer, ou deveríamos ouvir as nuvens e as ovelhas e o gato e a pata do gato – as belas patas do gato teriam me contado se deveríamos ter tentado te contar o que é real e o que não é.

Não sabemos como te alcançar e te trazer para a realidade que gostaríamos de viver, eu e as sombras que vejo flutuando tão leves quanto sílfides.

Liz Christine

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Um Poema para Maio



A matrioska branca e dourada mora há mais tempo na estante de livros. A matrioska vermelha, de olhos azuis e cabelos castanhos, está ali há menos tempo. E o gato observa as matrioskas na última prateleira da estante de livros. “Hoje temos um aniversário aqui” - pensa o gato, tentando escrever um poema, mas humanos ruidosos fazem barulho nas janelas, e o gato não ouve direito a si mesmo. O gato observa os livros e as matrioskas na estante mais uma vez, mas poemas não são assim tão simples de se escrever. E a sua irmã-gata também o observa da janela com rede, onde ela está deitada e quieta. O gato se concentra nos próprios pensamentos e esquece as coisas ao redor. Então ele escreve, e a música acalma e preenche o ambiente.

Liz Christine