sexta-feira, 1 de julho de 2016

Un cappuccino




A castidade existe - ela mora no terceiro andar. Enquanto a cigarra ronca ruidosamente a gata sapateia. Não espere que este tríplice silêncio faça sentido - ou que faça destes sentidos uma poesia musical altamente compreensível. Os sonhos são ainda mais gloriosos e a castidade mora no terceiro andar - Macha, aonde foste agora? Parece que a cigarra parou de roncar mas a gata continua sapateando (...).

Sócrates me perguntou o que seriam estas novas (ou reencarnadas) formas de se fazer música - e respondi assim: "non lo so, je ne sais pas, va savoir...". Mas isto não o satisfez como resposta. Lascia stare (...).

Acabo de me casar com o espelho. Não brigamos mais como brigávamos antes. Estamos em paz e apaixonados. Já fomos apaixonados por Macha mas sempre dissemos que não, nunca, jamais, em tempo algum. Oengos me presenteou com este espelho e o aceitei mas com uma certa prevenção e hesitação, afinal já possuí um espelho invertido enfeitiçado antes e o quebrei e tive sete meses de silêncios em que nada consegui prever nas xícaras de café. Ao final de sete meses de silêncios nasceram um livro prematuro e o reinício das fábulas interrompidas.

                   - Ti va un cappuccino? -

                           (...)

Liz Christine

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Poema




"Qui est-ce?" (...) "C'est Macha."
"C'est un rêve?" "Oui."

_ Se estás sonhando, cuidado...
_ Por quê?
_ Sonhas demais. Já sonhaste todas as palavras e não escreveste o essencial.
_ Não faço idéia do que seja "o essencial"...
_ Nem precisas saber. Apenas escreva.
_ Escrevo sem saber para quê serve escrever?
_ Sim. Jamais saberás (...).

E então um outro poema me disse que havia uma outra consciência me observando e eu perguntei então o porquê das pontuações e reticências e o outro poema me abraçou e disse "Macha, Macha querida, então usaste as vírgulas, Macha, minha querida Macha, voltaste então ao lar? Revê-la é uma glória e escreverei um poema em ode aos felinos e às espécies todas que tanto amas, e igualmente eu as amo todas, mas não deveria eu usar estes termos ou este verbo preciso, troquemos de verbo, amar não, Macha, é um verbo oculto nas profundezas e raízes dos sonhos, oculto e submerso, apenas sentido, não fales, troque e esconda e o pegue de volta, e novamente, Macha, apenas tu me entendes...". E fez-se silêncio. Fez-se silêncio mas sim, eu consegui, pronunciei uma frase, consegui pronunciá-la, e então usei as vírgulas e pronunciei a frase. Mas não me ouviram, e se ouviram (escutaram em silêncio e a resposta veio então na semana seguinte) e então resolvi usar as reticências...

E Macha perguntou a mim então - "Como vai o Sócrates?" E perguntei de volta "Mas conheces Sócrates?" E abandonei novamente toda e qualquer pontuação e decidimos então escrever um poema para Sócrates e então nasceu outro poema e o poema respirou cantou e fez uma música e a música falava da vida e da cura e da vida e do ato de sonhar e da realidade que aos poucos chega no nosso quintal... mas não temos quintal, Macha querida, imaginemos um quintal pois moramos em um apartamento e levaremos Sócrates para Paris, não é verdade? Diga que sim, Macha. E ela foi-se antes que eu fizesse o café. Mas fiz café e Macha voltou. Macha tem a chave. A chave dos sonhos. E conhece Sócrates, o gato querido. Então acendemos uma vela de mel e suavizamos a luz do quarto. E então não escreveremos a nossa privacidade nem a alheia e enviaremos olá aos felinos das redondezas e deste planeta esquisito onde palavras tentam decifrar o silêncio de Macha. Conhecestes Macha? Façamos mais café (...).


Liz Christine


quinta-feira, 19 de maio de 2016

Dagda




Dagda nasceu dentro de uma casa (e não nas ruas como outros que, ainda assim, felizmente, são adotados). Era uma ninhada de quatro filhotes, três fêmeas e um macho. A mãe de Dagda era da raça ragdoll, o pai não tinha raça definida mas tinha um belo miado e a típica elegância digna dos felinos. Os filhotes seriam todos doados, exceto um a ser escolhido (que faria companhia à mamãe ragdoll, como dissera a humana da casa). Dagda, que ainda não tinha sido nomeado, queria ser o escolhido (não pela casa nem por causa da humana, mas sim porque queria continuar ao lado da mamãe ragdoll). E então surgiu o primeiro grande problema na vida do pequeno filhote - eis que sua humana escolheu uma das fêmeas para ficar para sempre na casa ao lado da mamãe ragdoll. O pequeno Dagda, que ainda nem tinha nome, seria então adotado por uma outra família ou pessoa qualquer. O filhote primeiramente se sentiu indignado e logo em seguida se sentiu triste e oprimido, e depois verdadeiramente deprimido, e então desenvolveu também uma ligeira mania de perseguição - sempre que ouvia o telefone ou interfone tocarem fugia e se escondia ou dentro do armário (que o filhote, apesar da chave, já sabia como destrancar) ou no banheiro humano (os felinos também têm seu próprio banheiro, como se sabe, mas o filhote corria para o banheiro humano). A humana, sensibilizada com a doçura do filhote e preocupada com seus recentes e precoces problemas psicológicos, resolveu nomeá-lo inspirada em um livro que estava começando a ler - o nome seria Dagda. Ela achou assim que poderia animá-lo mas o pobre Dagda desenvolveu ainda mais uma outra mania: fobia do inocente golden retriever da casa do vizinho. O vizinho tinha também um beagle (por quem Dagda nutria uma sincera amizade e afeição). A humana pensou então que deveria ajudar Dagda a superar todos estes precoces problemas sem nenhum motivo aparente antes de enviá-lo para ser adotado - e foi assim que se passaram cinco anos sublimes para Dagda (que havia nascido em 2011)... pois desta forma Dagda não foi adotado e permaneceu onde sempre quis, além de ganhar as mais deliciosas rações e mimos. A humana decidiu (em três anos de convivência) que cuidaria para sempre de sua pequena família felina involuntária (mamãe ragdoll, Dagda e sua irmã). Dagda acabou tão mimado que já não teme mais nem o interfone nem o telefone nem o  golden retriever do vizinho (...).

Liz Christine