segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Sensibilità


Teresa D’Ávila escreveu um poema em um sonho distante. Marguerite Gautier se suicidou aos quinze anos. O romance está morto. Plágio. A utopia vive e passa bem, obrigada. As vinte e uma causas da depressão prolongada e o único motivo de nossa existência. Ou persistência. Desista. Não, não sonhe tanto. Duvide. Não, não desista. Abstrair. Esperar. Longas esperas e nada se resolve. Paliativos. A utopia vive e passa bem, obrigada. Mais uma vez e novamente. Definitivamente. As vinte e uma causas da depressão prolongada e o único motivo de nossa existência. O bichano ronrona e as duas gatas brincam de esconde-esconde.

Não é possível. A conversação dos gafanhotos está interferindo na absorção. E os olhares curiosos estão atrapalhando completamente a introspecção ou quietude dos ambientes internos. Ração para gatos adultos que vivem em ambientes internos. Gatas felizes satisfazendo as próprias vontades e aspirações. Fazem o que querem. A casa pertence aos felinos. Sempre. Os humanos apenas abastecem necessidades felinas e anseios inocentemente hedonistas e puros, além de manterem a organização e a higiene da casa para o total conforto das mimadas e soberanas gatas.

Catherine Deneuve em Pele de Asno. Madeleines na pausa para o chá de frutas vermelhas Casino. Twinings ou Casino? Sócrates fica indignado ao ouvir que madeleines não são adequadas para gatos. Mas o bichano já aprendeu a roubar comida quando as donas se distraem. A alimentação e o paraíso de Sócrates. O gato é elegante e não tem tendência a engordar – além da prática diária de exercícios como caçar marcadores de livros coloridos ou pular da cama para o chão ou do chão para a cama. Mas insistem na idéia de que comida de gato é ração e pronto. Ele jamais aceitará este ponto de vista humano.

Twinings ou Casino? Sócrates aprecia ambos os aromas. Os mais doces. O romance nunca estará morto. Quem disse isso é que já morreu. Plágio. O romance e as utopias vivem e passam bem, obrigada. E vida longa à pequena família felina de gatunos que roubam comida humana. Roubar é muito feio. Mas os bichanos estão perdoados. São tão doces e inocentes. Alegram e preenchem totalmente os tais ambientes internos que os humanos constróem para si mesmos.

Ao ar livre, madrugada, luz da lua – um breve passeio solitário (...). Um pouco de vinho após o balé. Um pouco de sonho em nosso cotidiano. As aspirações reais e soberanas da eterna remodelagem de sonhos que nunca se esgotam. A renovação do silêncio. A paixão vive e passa bem, obrigada.

Liz Christine

terça-feira, 3 de setembro de 2013

La cantina dei poeti


As atenções sugestionáveis e os corações partidos (...). Inspire novamente. Sempre. Confianças dúbias e quebras de sentido repentinas. O perfeito acabamento sem palavras. Dispersões. A concentração fugitiva. A modelagem do silêncio reagente. Paixões que retornam e se renovam. Pouco a pouco. Em alguns instantes. Em cada reticência. Em cada brecha. Tranque as portas. Sempre. Sempre há ouvidos atentos. Bem atentos. As atenções sugestionáveis e os corações partidos com escolhas imperiosas. Não há tanto espaço para dúvidas agora. Em alguns instantes. Em cada brecha. Tranque as portas e a imaginação se espalha sobre as coisas todas. Exercícios de imaginação. Sócrates se exercita todos os dias. O gato de companhia chamado Sócrates. A feminilidade das babuskas lésbicas. As distinções e os limites. Percepções altamente subjetivas e visões levemente imparciais. Os muitos ângulos de uma frase discreta. Tão doce e discreta quanto o brilho da lua ao chegar no paraíso. O paraíso de Sócrates é a alimentação. Alimentação de utopias e caminhos para tornar cada vez mais reais os ideais todos. Não basta apenas sonhar. É preciso viver a realidade que poderia ser mais e mais saborosa. O tempo apura ou estraga. Vinho ou qualquer outra obra que retorna. Sonhos que se apuram e se aprofundam. Obras de arte que se tornam compreensíveis. Ou não. Percepções altamente subjetivas e visões levemente imparciais. O tempo que apura ou estraga. A paixão mais profunda. O vinho mais doce. Moscato spumante ou spumante rosato (...). Il vino dell’amore petalo moscato ou – (...),

Ou uma coisa ou outra, escolher, já está escolhida – palavras que retornam e se renovam. A escolha ideal sem muita sombra de dúvida. A música do Reino Das Sombras e a primeira estrofe da letra de À quoi ça sert l'amour (...).

Ninguém sabe – mas já está escolhida.

(...)


Liz Christine

terça-feira, 6 de agosto de 2013

As pupilas do gato-esfinge


A falsa beleza de teorias vazias e plenas apenas de ausências totais e absolutas de

Tanto tanto faz faz faz tanto faz

Total falta de princípios ou valores essenciais ou respeito ao próximo

Tanto faz tanto faz

O único valor no mundo atual é “how much?”

Bom mesmo é ouvir miados ronronantes

Miados que não estão à venda pois quando querem fazem silêncios totais

Descansam plenamente

Nada é pleno ou quase nada – apenas sonhadores ou sonhadoras quase à margem de

Nada é pleno ou quase nada – quase tudo é quase sempre quase um tanto faz

Tanto faz tanto faz

Do your best to change the subject

O mundo é dos peixes o mundo é das árvores o mundo é das gatas e do gato-esfinge

O mundo é dos coelhinhos o mundo é dos rios e mares e o ar deveria ser mais

Limpo

E as idéias ou ideais ou valores essenciais deveriam ser mais

Limpos límpidos transparentes ou ocultos

Oculte suas crenças

Agressividade em todas as partes

Não há convivências pacíficas nem plenas de compreensão apesar das

Diferenças

Cada qual querendo gritar mais

Cada qual querendo impor suas idéias aos outros seres vivos

Cada qual tão certo de estar tão mais certo que todos

Que já nem mais escuta

Bom mesmo é ouvir miados

Os peixes não nasceram para abastecer a demanda dos supermercados ou restaurantes

O mundo é dos peixes tanto quanto

Dos sonhadores ou sonhadoras ou minorias quaisquer ou de quem ainda

Quem ainda consegue se constranger ou se horrorizar com

A sociedade secreta de pavões fúteis e fofoqueiros que repetem “how much?”

Há outros tipos de pavões, é claro

Sempre há dissidentes ou minorias e agora qualquer tipo de valor real ou essencial ou até poético ou

Ou

Quaisquer tipo de valores ou crenças ou sonhos são estranhos em um planeta de insano consumismo

Quem sonha em mudar ou melhorar o mundo ou as relações humanas ou em resgatar valores sufocados por tamanhas insanidades consideradas corretas é então

O estranho no ninho – nem mais existem ninhos pois os ninhos agora são alugados provisoriamente e sofrem altíssimas especulações imobiliárias

Ninhos provisórios sonhos provisórios e as pessoas esquisitas atravessando tempos difíceis com sonhos eternos e utopias limpas – pois é, que gente esquisita essa (distribua para nós, pobres coitados e pobres coitadas, toda a sorte de anestésicos e remédios psiquiátricos que nos impeçam de pensar e sentir ou sonhar e escrever ou suspirar e adotar nossas queridas companhias de estimação tão doces)... bom mesmo é ouvir miados ou latidos ou toda sorte de comunicação sensorial além do falho diálogo humano... consumismo exagerado é anestesia – há o necessário e essencial, naturalmente...

Distribuam remédios que nos impeçam a todos e todas de pensar ou sentir ou sonhar – distribuam também diagnósticos gratuitamente e fones de ouvido

Sim, fones de ouvido – para não ouvirmos mais os preconceitos e estereótipos diários

Devemos ouvir as gatas e o gato-esfinge – apenas e mais

Não pense em nada durante quarenta minutos – ouça apenas a própria respiração (purifique-se do excesso de poluição sonora) – ou escute música ouvindo cada detalhe mínimo no som que ninguém mais escuta porque a maior parte fala por cima das músicas (concentre-se, não fale, concentre-se) – assista um filme ou reveja um balé se preferir – ou olhe as pupilas do gato-esfinge (         )

(...),

Liz Christine

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Moderato con moto – sonhos coreografados


Separe o husky siberiano dos filhotes da gata. Brigam muito. Brigam demais. Pobres filhotes de raça. British shorthair e outras tantas. Tantas palavras e tantos silêncios. Todas as espécies de gato são admiráveis. Havia uma centopéia no pesadelo. O pesadelo retorna quando a centopéia viciada chega. Viciada em problemas de curta duração e longas dores de cabeça. A centopéia e o mosquito e a crueldade da ignorância. Julgamentos precipitados e falsas observações que nunca ousam mudar de idéia diante dos fatos. Aprimore a educação e os cuidados com os filhotes da gata. Tão meigo é o husky siberiano – briga demais apenas pela incompreensão das diferenças. Não é tão tolo mas é tão rígido – não há muito espaço para dúvidas. Duvidar sempre. Duvidar muito. A segurança da credibilidade. Como tantas vezes já foi dito antes – a loucura da sinceridade absoluta. Já ouvi ou li ou sei lá – esta frase se repete parceladamente. Em outros sonhos descritos. A coruja louca de novo. Não fale mais dela. O que é bom para uma pessoa pode não ser bom para outra – o limite e o respeito ao próximo. Julgamentos precipitados, brigas eternas, tentativas de autoritarismo – e a liberdade de escolha, onde fica? Cada coisa no seu avesso. Tentando não ser o oposto. O oposto das reticências – um breve silêncio e um pouco de introspecção alternada fazem muito bem à saúde. Os filhotes da gata retribuem os cuidados recebidos e ronronam gentilmente com um pouco de orgulho moderado.

O orgulho moderado. A intensidade dos passionais. As coisas se alternam. O tempo todo. Observando fixamente. Tentando desviar as atenções. Disfarçando ou camuflando. Sem querer admitir. O orgulho moderado se torna mais profundo. Até que –

Até que não se possa mais admitir. Que a paixão se transforma por etapas mas não se acaba. Recomece. Transforme – as reticências no sonhar acordada.

(...) – Tantas palavras e tantos silêncios. Ela comenta tantos livros e eu escuto. Nem sempre ela quer opiniões. De vez em quando ela deseja sonhos. Sonhos coreografados. Um pouco ensaiados e um pouco inventados. Tão reais quanto a oferta de pinolis que serão usados na receita. A receita para desbloquear a senha perdida sem arranhar ou destruir o orgulho moderado. Separe o husky siberiano dos filhotes da gata. Brigam demais. Brigam muito. O limite e o respeito ao próximo. Conclusões invasivas não nos interessam. As babuskas concordam parcialmente. E me convidam para um cappuccino. Respondo que sim pedindo que a centopéia nunca mais me traga pesadelos e desapareça para sempre ou que se transforme em um urso polar de pelúcia.


Liz Christine

sábado, 6 de julho de 2013

Segreti


A lontra coartativa tem raiva. Raiva da coruja louca que tem preguiça. Preguiça de debater pontos de vista com a gata insone que tem fome. Ou sede. A fome degustando sonhos com macarons e cappuccinos. A sede insinuando desejos brotando em cerejeiras. As cores insinuadas – lembranças desbotadas. O presente tão irretocável continua desativando as lembranças tão desbotadas – tantas cores em desuso. Amizades tão imaginárias. A lontra coartativa tem raiva. Raiva da coruja louca que tem delírios. E preguiça. Delírios de grandeza e preguiça de debater. Os pontos de vista entristecidos da tripla personalidade da gata insone que tem fome. E sede. Fome recompensada com gorgonzola e pinolis. Sede incansável. As babuskas têm sede – a gata insone ignora. As babuskas têm ciúmes – a gata insone não compreende. Ela nada faz a respeito. Não se defende dos impropérios e delírios – a realidade indefinida. Tripla personalidade. Ela ignora tudo e sorri alegremente ou chora quando já não aguenta mais. Tanta cobrança e acusação. Tripla personalidade eternamente indefinida com poucas certezas e milhares de dúvidas. Certeza de que as babuskas são indispensáveis. Trazem cerejas frescas, perfumes e beijos que se multiplicam em ronronantes amabilidades. E um pouco também de cansaço. Trazem muitas palavras dispensáveis que apenas confundem as tão poucas certezas que restam no cotidiano febril da gata insone. As contradições alternadas refrescam o estado febril das intensidades que são abstraídas durante o jantar.

Sócrates – o gato que imagina que suas amizades são todas imaginárias. Sócrates tem desenvolvido uma extrema desconfiança de todos os seres humanos. Confia apenas em bichos domesticados e em suas duas donas. Desconfia de qualquer ser humano que não seja uma ou outra de suas donas. Muitos humanos se dizem ou se consideram grandes amigos de Sócrates. Mas Sócrates acha que é a imaginação deles. Estão todos loucos. Estes humanos não são nada confiáveis. Não se pode contar com eles. Não podemos confiar – é o que Sócrates diz às suas donas quando elas saem de casa para resolver qualquer coisa. Elas trabalham em casa. Mas a espécie humana sempre tem algum problema para resolver na rua ou alguma compra a ser feita. Seres humanos só sabem comprar mais e mais e sempre – todas as compras são altamente necessárias e indispensáveis. Inclusive a ração, a areia, o patê, a água mineral e o catnip do Sócrates. Comprar, comprar, comprar. Princípios humanos. Seduzir, seduzir, seduzir – esqueça um pouco (pelo menos um pouco) tanto consumismo insano. O que afinal é tão realmente necessário e indispensável? – a resposta desta pergunta não é pronunciada mas logo chega através de imagens flutuantes que se dissolvem em alguns minutos (...).

Vinte e cinco minutos. Três minutos. Uma hora e meia de pura quietude saciada.

Assistir silenciosamente ao balé Romeo e Julieta. Rever de novo e sempre Giselle.

Acordar para comprar maçãs. Sócrates suspira vendo A Bela e A Fera. Mundo insano. Realidades particionadas redirecionadas. Mudar a direção dos olhares. Tripla personalidade em foco. Fotografar instantes. Instantes de abstração. Acordar diariamente. Poderia ser muito melhor se fosse possível (...).


Liz Christine  

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Das outras (ou dos outros)


Uma babuska mora na Rue d’Enfer. Ela tem uma gata chamada Leonor de Aquitânia e adotou outra gata (ainda sem nome) há poucos dias atrás. Ela troca e-mails comigo todos os dias mas vamos mudar de assunto. Não quero ser humana. Quero ser felina. De certa forma sou desde sempre. Nem quero ser concreta. Quero ser outra – mais uma outra abstração em teus sonhos. Nunca serei realista. Bem sabemos que todas as formas de idealismo nas relações humanas estão destinadas ao fracasso. A velha fórmula da mentira. A loucura da verdade absoluta. Sinceridade com delicadeza. Bem sabemos que todas as fórmulas vão falhar. Sempre. Não somos iguais – mesmo com muitas coisas em comum. Nunca seremos iguais. Então nenhuma fórmula definitiva poderia servir para todos nós. Minorias descabeladas. A massificação e a generalização. Mas vamos mudar de assunto. Ficou chato. Bem sabemos que significados variantes facilmente se dissolvem ou se acumulam na imaginação retida na alfândega. Uma linda babuska (outra) visitou a cidade Casale Monferrato fazendo anotações para um roteiro. Ela também quer conhecer Veneza. E ela tem uma coruja de estimação além de três gatas e um cachorrinho. A coruja de estimação mora nos fones de ouvido e dita frases que ela jamais repete e nunca entende. A coruja é louca e faz tratamento psiquiátrico. As três gatas são perfeitamente saudáveis e afetuosas (o cachorrinho também é bastante afetuoso e perfeitamente saudável). E ainda tem a criação de mini-pôneis em uma pequena cidade do interior lá no Brasil. Digo lá porque estou aqui. Aqui bem longe do Brasil. Talvez longe até do chão. No fundo do mar ou no alto das pedras que cercam o mar. Em qualquer outro lugar que tua imaginação alcance. Até onde ela alcança? Não, não sei. Não sei como as pessoas não se cansam de tentar. Já desisti. Estou cansada. Não vou mais procurar. Vou fugir. Na verdade é assim e foi assim desde sempre. Nunca quis nada disso. Mas é irresistível. A intensidade. A doçura. A profundidade. As coisas boas da vida. Não gosto de chocolate meio amargo. Gosto de chocolate branco – o mais doce. Cioccolato bianco e grappa.  Duas babuskas distantes uma da outra se cansaram profundamente da grande mentira e falta de tato que são as relações humanas no planeta insano do consumismo extravagante e se tornaram então celibatárias. Uma delas namorou apenas mulheres e nunca jamais em tempo algum quis namorar nada do sexo oposto. A outra até teve dois casinhos leves e passageiros com esse tal sexo oposto só para ter certeza de que comparando os gêneros era muito melhor namorar mulheres. Ela teve poucas namoradas mas foram relacionamentos longos (e conturbados). O lado bom é inegável, mas as relações humanas sempre conturbadas e atormentadas por tantos fatores. Ah, um longo suspiro de cansaço. Por melhor que seja, como são complicadas as convivências e tentativas de compreensão (...). Então um belo dia (na verdade foi no início da noite) elas se esbarraram e aos poucos se descobriram até parecidas. Muitas coisas em comum. Será que a compatibilidade ajuda? Existem também pequenas diferenças complementares. De qualquer forma elas estão juntas agora. De qualquer forma a vida das babuskas eu observo de longe. Mas vamos mudar de assunto. Vamos parar de falar da vida das outras ou dos outros. Vamos falar de nós. Vamos deixar minhas queridas babuskas em paz um pouco. Trocamos e-mails todos os dias. E as rosas que você me enviou estão no meu quarto. Junto com as minhas coleções. Coleções de livros, coleções de brinquedos ou bonecas, coleções de perfumes, coleções de sapatilhas e coleções de silêncios. Não conte para ninguém. Não conte para ninguém os sonhos que só você viu e ninguém mais conhece. Decifrando silêncios e mergulhando em liberdades suavemente transparentes que apenas nós compreendemos.

Liz Christine


sábado, 4 de maio de 2013

O balé das sereias



“Havia sido uma mudança melancólica e Emma não podia fazer nada a não ser suspirar e desejar coisas impossíveis, até que o pai percebesse e ela se visse obrigada a parecer alegre.” (Emma, Jane Austen)

O pai do polvo é também avô do Cupido (também conhecido como Eros). Cupido é um gato com lindos olhos claros que mudam de cor de acordo com a iluminação. As sereias fugitivas desprezam solenemente o teatro de marionetes chamado Bar dos Desapegados. Mas o Bar dos Desapegados anda lotado e em evidência na mídia e em aulas de psicologia de botequim. Até um filme de arte já foi feito sobre o Bar dos Desapegados (e também três documentários). Além dos livros de auto-ajuda e best-sellers autografados por celebridades adeptas do poético movimento dos Desapegados. Poesia de botequim ou de barco improvisado. A tempestade alaga as ruas e o lixo não está sendo recolhido. As casas infestadas de mosquitos e os tetos desabando. E as tristezas descabidas – todas justificáveis. Todas perdoáveis. Todas fáceis de serem esquecidas. Esqueça sempre. Esqueça até as melhores lembranças e as difíceis ou improváveis saudades. Esqueça tudo, não há sentido – não é uma questão de procurar. Não procure, diga que não existe mais. Não crie (um ou muitos sentidos), diga que se acabaram todos. Não existe mais a interpretação de silêncios. Não há palavras, há nuvens. São nuvens carregadas – ou andando nas nuvens ou sonhando no Theatro Municipal. Em qualquer lugar é igual – as sereias fugitivas. Fogem em citações de Gertrude Stein e em polidas conversações de livros escritos por Jane Austen. Fogem do sol também. Como as meninas de mãos dadas de outro texto. Ou de qualquer filme sonhado que jamais será filmado. Nenhuma platéia verá. Ninguém fará download. As babuskas lésbicas estão sonhando acordadas. Acordadas com a compreensão mútua e sonhando com sapatilhas. Suspirar e desejar. Coisas tão impossíveis quanto realizar sonhos. Esconda-se. Realize sonhos em esconderijos. Concretizando utopias e andando nas nuvens. Cupido é um gato charmoso e culto – além dos lindos olhos claros que mudam de cor de acordo com a iluminação. E o polvo tem um bom coração meio inclinado a um infeliz abuso das palavras cafonas – mas é um bom polvo. E assim as sereias descansam na banheira de hidromassagem – elas merecem. Merecem ficar longe do teatro de marionetes. A liberdade tranquilizadora reina nas nuvens do papel de parede no quarto da menina de cinco anos. Cinco anos de suspiros. E vinte e dois anos de músicas apaixonantes. E quinze anos de poesia surrealista. E a eternidade no tapete. A gata adulta mia como filhote ouvindo Ella Fitzgerald – e os queijos são degustados na mais completa satisfação das aspirações felinamente românticas.

“Era alguém a quem Emma podia revelar tudo que pensava e que lhe dedicava um afeto tão profundo que jamais terminaria.” (Emma, Jane Austen)

O tempo é fútil, o tempo é volúvel, o tempo é eterno, o tempo é profundo, o tempo passa, o tempo fica, o tempo restabelece, o tempo muda, o tempo transcorre lentamente. O tempo absorve rapidamente. E a tempestade prevalece junto com as nevascas do lado oposto ou seguinte ao sonho essencial das sereias tirando fotos dentro do banheiro do Theatro Municipal.

Liz Christine

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Carta aos nascidos em maio – Carlos Drummond de Andrade



Amigos e amigas que nascestes em maio:

Estas letras e este autor aqui estão simplesmente para se integrarem na poesia dessa circunstância e avivá-la em vós, se acaso vai murchando, como sugeri-la a todos os outros seres, infortunados seres que nasceram em março, em julho, em novembro. Porque vosso nascimento é pura canção, mesmo que sejais economistas, deputados, capitães-de-corveta. Uma predestinação lírica presidiu a vosso berço, e que tenhais enveredado por um caminho prático, onde a palavra maio significa apenas assembléia-geral de uma companhia de produtos químicos, não tem a menor importância: estais marcados de maio, carregais convosco, no canal de vossas veias, invisível, incapturável, imperturbável e aliciante, o princípio de maio. E ele jamais permitirá que vos tomem por um simples homem de outubro, e na vossa miúda e radiante biografia há de sempre insinuar a nota íntima, cristalina e melodiosa, de um pequeno acidente feliz, individualizadora do destino humano.

Maio sois e maio continuareis. O uso grosseiro de vossa vida não lhe corromperá de todo a limpidez original; se um dia matardes, se vos venderdes à política, se vos tornardes a vergonha de vossa pátria, ainda assim o lado maio de vossa fisionomia continuará indelével, e fará com que se murmure: "Coitado! apesar de tudo, nasceu em maio." E tu nasceste em maio – assinala o poeta ao fim do canto em que celebra o mês especial, assim como aquele que se inclinou diante do recém-nascido marcado pelos deuses, afiançando: Tu Marcellus eris. Por quê?

Decerto não sabeis bem por quê, mas sentimentalmente o apreendeis, e, homem ou mulher, os nascidos em maio caminham ao peso de uma carga suave – uma andorinha não pesaria menos - , que é o pressentimento, a intuição de participarem de um segredo atmosférico, pois ele está gravado, em hieróglifos, no ar, e no vento perpassa. "Nós os de maio..." – tendes o direito de sublimar, em face da mesquinha situação de nós outros, os do resto do ano (exceto os da segunda quinzena de dezembro, é claro!). E aqui ouso afirmar que vosso segredo é meio-pagão, meio–religioso, de tal modo as coisas se baralham no mundo, e os mistérios se prolongam e se entrelaçam. Porque há em maio dois meses: o mês de Maria, e o mês de maio propriamente dito. Se sois cristãos romanos, maio bate sinos na vossa infância ou na vossa madureza, e aspirais o incenso, entoais o Janua Coeli, Turris Eburnea e não sei que mais invocações encantatórias, e vos ajoelhais, e assistis à coroação da Virgem, se não a coroais vós mesmos, com a mão antiga e branca que nasce de súbito na ponta de vossos braços adultos. Mas, se não sois cristãos, não faz mal, maio ainda é festa, e festa foi sempre, desde o velho mundo latino, que o consagrava a Apolo e lhe punha à cabeça uma cesta de flores. Apolo, flores, fim do cruel inverno, irradiação da primavera, procissão de palmas verdes, enfeites de casa com verde, tudo verde, verde, verde, e esse ramo florido e enguirlandado que na Idade Média o amigo ia plantar à porta da casa do amigo, a 1º de maio, e que se chamava maio, e que sugere ao meu austero dicionarista Caldas Aulette esta expressão para definir um sujeito todo enfeitado: "Parecia mesmo um maio". Como sugeriu a Camões, em momento de ternura, o doce verso:

Só para meu amor é sempre MAYO.

De resto, o segundo maio, o mariano – em que não desfaço, tanto lhe devo eu próprio em evocações e sensações artísticas depositadas no fundo de meu pobre materialismo -, só nasceu mesmo no século XVIII, quando o padre jesuíta Lalomia teve a idéia de transformar paganismo em cristianismo (muitos de nossos santos, Deus me perdoe, guardam a sombra de divindades ou entidades pagãs, a julgarmos pelo caso de São Sátiro, contado por Anatole France), e dedicou o mês a Nossa Senhora, compondo em 1785 Il Mese de Maggio consacrato alle gloria della gran Madre de Dio. Maio cristianizou-se, porém muito de sua magia continua ligada ao reverdecimento espontâneo das árvores, ao desatar das águas presas durante 89 dias e 2 horas, na deliciosa falsa contagem dos meteorologistas, às expansões da terra que penetrou em um novo ciclo e aconselha bichos, gentes e plantas a que amem, amem desbragadamente. Não estou delirando, ó criaturas de maio. Tudo isto se passa em outro hemisfério, mas também por estas bandas austrais maio é primavera, senão na natureza, pelo menos em estado de espírito, em concordância íntima de valores, em consubstanciações vaporosas de que cada um de nós adquire a fórmula, a qual, ó eleitos, nem sequer precisais aprender, pois a recebestes com o primeiro vagido. Concordo, sem repugnância, em que o nosso mês de maio cai no fim do outono. Custa-me pouco aceitar o outono brasileiro, se o vejo, como aqui no Rio, de um azul diáfano, arrepiado por um friozinho que enxuga e perfuma o suor das coisas, tristes coisas urbanas usadas pelo sol do trópico, e por ele restituídas à sua prístina pureza. Não há tempo mais leve, caricioso, humano e coloquial do que este maio carioca, revestido ou não de prestígio mundano, porque sorri tanto aos freqüentadores de concertos como aos homens sentados em bancos de jardim público, ao passageiro do bonde Freguesia, ao remador, à datilógrafa do Serviço de Proteção aos Índios, ao médico do Pronto-Socorro, ao Senador Melo Viana, aos meninos da Escola Cócio Barcelos, aos pedreiros construindo edifícios, à massa palpitante de uma cidade feita de subúrbios que transbordam até à Avenida Rio Branco: maio dá para todos, reparte-se amorosamente entre homens sofredores e homens de boas roupas, como uma conciliação meteorológica, um arco-íris pairando sobre as contradições da cidade. Se bem que, de coração, ele se volte mais, num enternecimento cúmplice, para aquela parte do povo que sua no rude batente, e a que é dedicado, desde 1890, o seu dia inaugural.

Mês de Nossa Senhora coroada de rosas, e de operários que morrem pela causa de oito horas de trabalho no mundo, frio mês das montanhas mineiras, nostalgia de namoradas e rezas, cartuchos de amêndoas que a irmã trazia da coroação na Matriz, que era um grande navio iluminado, conversas no adro, à espera do leilão de prendas, vagos estremecimentos de poesia, formas infantis de um sonho que mais tarde seria inquietação e carinho franjado de ironia – tudo isso vai brotando desta caneta comercial com que escrevo, e baila no ar e me penetra – tudo isso é vosso, é a própria substância de que se tece vossa vida, ó nascidos e bem-aventurados em maio! Para quem esta carta é colocada na mala irreal de uma posta feérica.


CARTA AOS NASCIDOS EM MAIO
Carlos Drummond de Andrade