quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sonhos e casulos


Então me refugio dentro de sonhos, e dos sonhos vou tecendo casulos, e dos casulos eu te observo tranquilamente, até que os casulos derramem chuva, e com a chuva eu preencho piscinas turvas de tanto suspirar (...). Uma xícara de café concentra toda a indecisão do planeta que tento atravessar para fugir do outro lado oposto ao teu olhar que bóia na piscina preenchida pela chuva inquieta de tanto sonhar com conchas marinhas (...). E as estrelas suavizam os sonhos que desabrocham em teias de diamantes e esmeraldas plenas de inocências amedrontadas (...). Ah fugir em pensamentos espiralados e turvos de tanta impaciência para com o planeta do qual tento fugir cada vez mais e toda vez que. De tanto suspirar atinjo a plenitude do instante mais que perfeito onde gemidos preenchem o quarto iluminado pelo dia que se segue à madrugada febril (...). Tua língua percorre o rio que mora dentro de sonhos que vão tecendo casulos até que toda a indecisão concentrada em uma xícara de café saia fugida voando pela janela com tela do décimo andar (...).

Liz Christine

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Cream on my coffee


Vários rostos flutuando no mar e não se consegue mais uma pausa no desabrochar de idéias em constante mutação. Sibyl Vane e muitos mais nomes escondem minha nudez inconstante que se enrosca em silêncios – sempre o imutável silêncio decorando o chantilly sobre o café expresso. Afugentar todos os rostos flutuando no mar para reencontrar um equilíbrio que jamais atinge seus objetivos porque a gata sonha mais do que suspira. Teus seios em contato com meus seios em um abraço que concentra toda a eternidade de um amor impossível (...).

Liz Christine

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Verdades volúveis


Um silêncio profundo envolve a minha nudez. Todas as palavras talvez se escondam no balde sobre a grama. Um miado distante quebra o silêncio e descubro que as telas acordam minha sede. Não durmo a noite inteira buscando uma frase impossível. Todas as imagens flutuantes soam parcialmente impossíveis em meio à inércia desse instante. Quero aquela, apenas aquela, e depois muitas outras (palavras). Parcialmente desnecessário dizer que dúvidas desenham formas sobre meu corpo. Buscando fadas dentro da minha insônia esbarro apenas em memórias que se bifurcam. Dentro do silêncio flui um rio sorridente e duvidoso que abstrai quaisquer sensações enquanto foge das estrelas ou do mar. Eu quero aquela, e mais aquela outra, e muitas outras (palavras). Mas reencontro apenas um silêncio profundo envolvendo todas as idéias que teimam em surgir toda vez que tento mergulhar meu rosto no mais puro esquecimento de todas as verdades volúveis.

Liz Christine

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Poesia e Amor-Próprio

Esperança se suicidou e morreu muito jovem. Sabes que eu a detesto? Ela me assombra vez por outra em plena madrugada. Nunca existiu alma mais parva que Esperança. Mesmo defunta, ela ainda é capaz de causar alguns estragos nos vivos. Esperança era cafona e tinha um péssimo gosto para se vestir ou pentear os cabelos tingidos. Enquanto eu tingia meus cabelos de rosa-bebê ou vermelho intenso aos dezesseis anos, vi fotos antigas de Esperança aos quinze anos com os cabelos super mal pintados e em penteados tenebrosos. Enquanto eu fazia as unhas toda semana, Esperança roía as unhas descascadas. Ela se foi e já foi tarde. Afinal quem precisa dela, é porque não está nada bem. Só procurava Esperança quem realmente estava mal de vida, por isso eu sempre a detestei. Nunca precisei dela, nem em dias ruins ou desastrosos e menos ainda em dias maravilhosos. Sabes quem é minha amante? A Poesia. E meu amante? O Amor-Próprio. Tenho amantes de ambos os sexos mas só consigo amar plenamente as amantes (nunca os amantes). Porque às amantes dou tudo, aos amantes dou nada. Nunca darei nada. O Amor- Próprio é o único amante compreensivo que nada me exige pois pensa apenas em me dar prazeres (e como nos entendemos bem). Permaneço intocável aos amantes do sexo oposto que não passam nunca de amores platônicos e jogos mentais que me distraem de forma abstrata. As amantes são reais, os amantes são imaginários.

Liz Christine

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Canteiros de flores


Não vou falar da chuva que teima em espalhar nicotina em meus canteiros de flores mal dormidas (…).

Tulipas, orquídeas, rosas brancas ou vermelhas, camélias, gardênias – elas jamais dormem (...).

Sempre despertas, sempre alertas, porém sempre desatentas e alheias – observando o mundo através de sensações mais do que puras sem racionalizar as imagens insones que teimam em brotar dos espelhos úmidos (...).

Não vou falar também das lágrimas preciosas e inquietas que teimam em acalmar os banhos que duram quarenta e cinco minutos contadinhos no despertador do celular (...).

Despertando todos os fantasmas que rondam os canteiros de flores sempre alertas e impacientes porém lentas ou sonhadoras – sonhando acordadas com o desabrochar das liberdades individuais de cada miado que corta a madrugada ou atravessa a esquina onde a chuva espalha nicotina (...).

Cuidado – tudo é proibido, inclusive fumar em mesas de cafeterias ou sentir o vento acariciando pernas nuas (...).

Cuidado – tudo é proibido, inclusive fumar no corredor do prédio ou beijar com inocência tua mulher em público (...).

Ah tédio que corta as noites em claro e atravessa minha pele durante o vôo das mariposas que caço não por fome, mas por diversão – caçar por diversão, e não por fome (...).

A fome eu aquieto com a ração diária de sushis de salmão com cream cheese e porções de rolinho primavera ou atum ao molho ponzo (...).

A fome eu aquieto também com jazz e peças de Ibsen ou Molière ou biografias da Greta Garbo e da Audrey Hepburn (...).

A fome eu aplaco com sensações mais do que puras que nascem do contato físico entre a minha nudez e os banhos recheados de pétalas despedaçadas – sempre perfumadas, sempre despertas, sempre alheias, sempre macias, sempre alertas e prontas para me beijar (...).

Liz Christine

domingo, 10 de outubro de 2010

Uma pétala de rosa


Uma garrafa de champagne sobre o chão branco e duas dúzias de rosas sobre a cama. A vida pode ser bem mais simples quando reencontro um terço do meu equilíbrio fugitivo. Um calor intenso escorre do rio que atravessa meu coração em tom de jazz de 1920. Um pássaro azul sorri enquanto tua voz escoa lentamente ao sabor de frases translúcidas. A realidade agora brilha mais que aquele sonho antigo guardado em uma caixinha de música com bailarinas rodopiando que mora embaixo da minha cama. E um beijo trocado sob a luz intensa da lua lá no alto do céu estrelado atravessa a madrugada enquanto a gata branca convida ovelhas a passearem pelos jardins repletos de árvores quase novas e quase eternas. É que o amor é eterno enquanto a lua brilha lá no alto e a doçura desliza sobre a minha pele enquanto tuas mãos procuram uma pétala de rosa escondida sob meu vestido.

Liz Christine

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Dream a little dream of me


Toda a amargura confinada em um isqueiro trabalhando incansável durante a madrugada. Contando as estrelas enquanto o sono ausente passeia pelos prédios e casas depois de me avisar que hoje não poderia vir me visitar. Sonhando acordada com uma tempestade febril de palavras insones. Mas as palavras fogem todas enquanto meus pés tropeçam nos primeiros degraus da escada. Pisando suavemente sobre a grama fresca que recobre meus pensamentos tão insones quanto as estrelas que conto sem me cansar nunca de sonhar acordada. Agir é desnecessário quando o céu desaba sobre meus ombros nus e fartos de uma realidade incompatível com o mundo que carrego em cada silêncio parcialmente compreensível. Tudo poderia ser compreensível se não fossem a lua e os espelhos incompatíveis. Guardo um espelho dentro da bolsa vermelha para me certificar de que a lua canta só para mim toda vez que o sono se ausenta. Também eu me ausento toda vez que a realidade desagrada meus ombros nus e o céu desaba sobre meus cachos soltos – então mergulho em um rio de incompreensões só minhas que ninguém mais poderia decifrar. Ou então mergulho em um rio onde moram fadas só minhas que suavizam quaisquer vagas intransigências. Impossível colocar meus pés na realidade ao invés de mergulhar em sonhos insones cada vez mais sublimes. A realidade já ultrapassou quaisquer sonhos nunca antes imaginados mas isso já faz tempo e ficou lá atrás junto com a minha coleção de caixinhas de música com bailarinas de sapatilhas lilás dançando em meio às árvores do meu quintal onírico. Agora só me resta um pensamento: fugir. Fugir das idéias tolas que ouço ao colocar meus pés na tua rua.

Liz Christine

domingo, 3 de outubro de 2010

Asas de anjo dentro do armário


Nada a não ser as nuvens que pairam soltas ao redor de uma intransigência. Só mesmo um café forte conforta meu silêncio hesitante. Entre uma ou outra escolha recomeço pensamentos circulares que crescem em espirais de dúvidas. E a lua aparece na minha janela daqui a poucas horas só para me contar que ovelhas não voam ainda. Asas de anjo crescendo dentro do armário enquanto a gata branca escuta atentamente um trecho da música que flutua dentro do quarto na penumbra. Abro as cortinas então à espera da lua.

Liz Christine