segunda-feira, 13 de abril de 2009

Asas inquietas


Entre uma borboleta vermelha e um mar azul e mais outro mar esverdeado. A chuva é apenas uma ameaça – e não vai mais me confundir. Nem cair. Nem dos meus olhos nem de pensamentos que fluem tranquilos ou ansiosamente. Talvez atordoem um pouco às minhas asas inquietas – e a ti?

Eu sinto ondas me abraçando – e há intensidade com suavidade nelas.

Liz Christine

terça-feira, 7 de abril de 2009

Onde eu me começo

Uma certa relação entre pensamentos que não se completam. Alguma conexão vagando imperceptível entre imagens sobrepostas – olhos semi-fechados entrevendo um pedaço da realidade que se desfaz quando te sinto. Não quero explicação nenhuma.

Apenas uma coisa é real em um mundo de sombras – sombras que não abraçam nem choram nunca, nunca, nunca. É engraçado como grande parte das pessoas parece que não chora. É engraçado como ninguém parece se aproximar de. Mas sim, há uma verdade em tudo: tu me reencontrou por quê?

Eu não quero muito mais além do que eu realmente quero, o que não é tão pouco assim, é apenas mais do que eu pretendo admitir.

Eu não quero nada demais nem de menos. Porque nada parece excessivo ou demais quando eu. Quando eu me afasto de sombras que não abraçam nem choram nunca, nunca, nunca, e sorriem por educação ou obrigação social e sempre esperam de mim e de todos que todos sejam iguais a todos à nível de – comportamento? Necessidades.

Eu não sei se preciso de amor – o amor do jeito que as sombras vêem e definem. Eu não sei se preciso de definições – as definições muitas vezes se transformam. Há um outro tipo de amor e vários tipos de pessoas. Não, não há tipos de pessoas, nunca há tipos de pessoas, há pessoas e ponto – e o amor é visto de alguma forma própria por cada pessoa ou definido inutilmente apenas para complicar ou anestesiar os sentidos.

Eu quero apenas intensificar o que me soa essencial ou ampliar onde eu me começo.

Liz Christine

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Laços que não se desfazem


Pensamentos breves. Ondas longas. Unhas curtas e um toque suave de alguma idéia voando distante – eu a vejo atrás de transparências e afio minhas unhas no tecido da cadeira. E qualquer dúvida em relação a mim – vou me esquecendo lentamente ao acordar do teu lado. Tuas dúvidas – é mesmo real que tu mastiga incertezas? Em relação às minhas asas de borboleta vermelha – é uma realidade a tua sede? Há realidades, sabe?, há realidades-outras que já não importam mais – e continuam por aí se aproximando mesmo que eu tente me concentrar em ti apenas. Na tua voz há nuances de outras e mais sombras que passam longe de mim me estudando mas eu nunca as vejo – sombras assustadoras, dessas que parecem esconder sentidos irreais e sentimentos que me comovem apesar de sufocarem minhas próprias libertações. O orgulho pode ser a minha liberdade – ou minha prisão particular. E o amor pela adorável grama verde e macia pode ser também minha liberdade perfumada – ou uma prisão pública? Não, não, eu não deixo nunca – amor nenhum me aprisiona. Quem me aprisiona são as sombras insensíveis e cruéis, as sombras da frieza externa que algumas vezes – algumas apenas, não todas as vezes – disfarçam fragilidade e afetividade sob máscaras. Mas sabe, não compreendo – para quê?

Nem toda máscara disfarça um conteúdo. Há conteúdos visíveis ou perceptíveis sob trocas de olhares ou trocas de palavras – ou trocas de silêncios preenchidos por gemidos ou respirações apressadas. Eu tenho pressa que se aprofunde logo um ou dois laços – ou três, quem sabe mais? Quem sabe mais a respeito do mar de calda de cerejas vermelhas?

Nem toda máscara esconde um conteúdo – há conteúdos que simplesmente deixam de existir, anulados pela própria incompetência de criar algo realmente saboroso ou inédito. Mas sabe, francamente, tudo é novo e nada é inédito – há verdades pessoais e intransferíveis que se transferem de uma pessoa à outra ou sentidos que são compartilhados durante alguma conexão. É que realmente creio na conexão entre quem faz ou age e quem recebe ou entre quem cria e quem absorve ou entre quem sonha e quem observa ou entre quem sente e mais outra que também sente mas sempre cada um à seu modo intransferível que se transfere e se transforma nos olhos alheios.

E talvez eu goste demais – demais mesmo. Desses laços que nunca se desfazem porque são feitos de. (Não me pergunte.)

Liz Christine

Meio

Eu vou me matar lentamente. Eu morro diariamente mas morro com saúde. Exceto os cigarros, não há nada que eu faça de errado. E eu tenho uma teoria apesar de à princípio ser uma destruidora de teorias: é simples – quando se faz tudo certinho, direitinho, as coisas invariavelmente dão errado; e quando se faz tudo errado ou parcialmente errado e parcialmente duvidoso e bizarro mas com um toque suave de amor picante, aí dá tudo certo. As pessoas certinhas são um pé no saco e não têm alma: porque a alma é por princípio errante e o corpo é por princípio humano. Ou seja o corpo tem limites e necessidades que podem e devem ser superadas mas a carne é fraca em sua própria força. Afinal, o quê é a vida sem o amor e o sexo e a poesia e a arte e os sonhos e fantasias? E isso tudo pra alguns é fragilidade e pra outros é força. Então, resumindo: seguir a si mesmo é o melhor caminho. E fugir de si mesmo pode ser também a solução: a gente dá um tempo de nós mesmos e depois a gente volta a si, mas durante esse meio tempo fora de si nós podemos nos divertir bastante e até descobrir que somos mais do que pensávamos. Descobrir a si mesmo e adivinhar de vez em quando que não somos sempre iguais a nós mesmos e que podemos inclusive nos separar temporariamente de nós mesmos para experimentar novas possibilidades e esquecimentos e devaneios químicos ou físicos ou emocionais – para depois nos reencontrarmos com essência inalterada e eterna mas com personalidade e comportamento sujeitos a transformações e absorções. Absorvemos a outra – a outra parte, aquela que nos atrai, e descobrimos que esta parte já nos pertencia antes mesmo de a conhecermos. Um pouco daquela ali, um pedaço dessa aqui, um trecho de algum livro, a fantasia que alguém joga em cima da gente – sim, sempre há alguém pensando alguma coisa qualquer a nosso respeito, e podemos absorver isso ou não, podemos discordar firmemente ou simplesmente pensar: “é isso mesmo, e daí?”, ou: “nunca pensei nisso nem me vi dessa forma mas vou tentar porque eu sou tudo que eu ou tu quiser, sou tudo e nada e um pouco de cada...” Há pessoas incapazes de nos enxergar como somos, enquanto outras adivinham como nos sentimos por trás do que somos, e há também pessoas manipuladoras ou destruidoras que tentam (e podem até conseguir!) nos modelar de acordo com as necessidades delas. Eu prefiro estar errada, é a minha escolha, mas eu não vou obedecer quando me dizem que algo é certo – antes eu vou perguntar: mas isso é certo para mim?, é assim que eu quero agir? E se a resposta for “não”, olha, sinceramente, eu estou farta de implicâncias e regras e julgamentos e condenações. A vida é simples: se alguma opção não lhe agrada, procure outras. A não ser que tu esteja em uma prisão criada especialmente para ti por pessoas com muita boa vontade e a certeza de que estão certas e agindo da melhor forma possível – ou o pior: dependência financeira. Sim, o dinheiro pode ser uma forma de controle por parte de muitas partes.

“Did you realize no one can see inside your view,
Did you realize forwhy this sight belongs to you.”
Strangers, Portishead

Eu me mato diariamente e desapareço constantemente, tanto que às vezes nem me encontro pois estou em algum outro lugar que não é essa prisão chamada “sociedade” ou quem sabe “família” ou talvez “casa” mas também pode ser “o país onde moro” ou seja lá o que for. Eu não quero, eu me recuso e eu não vou de forma alguma. A minha casa sou eu, meu corpo, minha pele, mãos, boca, unhas, seios, etc, etc, etc – eu moro aqui, não no endereço tal número tal rua tal bairro tal. Eu sou a minha casa e o meu pensamento vagueia livremente, e em pensamento estou sempre onde quero e com quero. Eu sempre tenho companhias agradáveis e fantasias agradáveis com companhias agradáveis e eu desconheço a solidão e a abstinência sexual ou química ou sensorial. Tenho tudo que quero e meus sonhos muitas vezes se concretizam muito antes que amadureçam em meu pensamento, mas as fantasias mais confusas e um pouco destrutivas não se realizam porque inconscientemente eu sei o que deve e o que não deve acontecer comigo. E se algo ruim aconteceu comigo no passado, não tem problema, é algo que eu posso transformar à minha maneira e converter em algo esquecível ou superável ou até risível. Eu posso ser indiferente à qualquer desgraça e achar que desgraça nunca existiu nesse mundo – mesmo que eu me sinta angustiada quando qualquer um diz: “me dá um dinheiro, estou morrendo de fome, por favor, estou pedindo, não estou roubando...” A verdade é que a gente fica indiferente depois de muitas desgraças sucessivas ou alguns já nascem mesmo indiferentes ouvindo discussões inúteis já na barriga das mamães. Eu sofro e quero morrer, apesar de me alimentar bem há uns dois anos ou menos, mas eu estou aqui – não estou? Meio viva, meio morta, meio criança, meio gata, meio cansada, meio curiosa, meio chorona, meio indiferente, e com muita sede...

“Never found our way,
Regardless of what they say.”
Roads, Portishead

Liz Christine


terça-feira, 17 de março de 2009

Gata branca


Sou longe e me sinto meio indiferente com uma parte perturbada e outra por demais distante da constatação.

Há uma sensação por demais irreal de que o mar (mais outro mar) vão me engolir antes que eu seja capaz de apreender o real significado –

Nunca compreendida – sempre comprometida – onde eu posso te encontrar?

Não quero falar de.

“If the sky grows darker
If I go insane
Would you still care for me
When it starts to rain”
In the lake, Emilie Simon

Às vezes quero te ver, outras preferia ser deixada em paz de uma vez por todas, mas muitas vezes eu te sinto meio perto – enquanto eu me sinto meio querendo tua presença, meio não querendo teu olhar. Teu olhar é que me soa muito difícil de ser. Não sei se acredito parcialmente na realidade nem sei se desacredito totalmente na possibilidade de que algo em mim pertença a ti. Mas não me lembro de ter te convidado jamais. Estou enganada? Sim, eu já desejei a tua volta – em outros termos que não sei quais eram. Sim, eu te quero te volta – mas não estou te convidando, estou fugindo antes que hajam decepções de todos os lados. Do meu, do teu – mais alguém? Há mais alguém bem no meio de nós duas? Não sei. Mas não, eu estou quase perto. Quase perto de ti o tempo todo. No meu mundo interno eu sou a tua gata branca miando até pular no teu colo. Eu posso me esconder e dormir a tarde inteira ou caçar outras borboletas.

Liz Christine

domingo, 15 de março de 2009

Através dos teus olhos


Não encontro as palavras – não quero palavras. Quero me deitar sobre. Quero me deitar sobre ecos de imagens sonhadas desde que – faz tanto tempo. Tanto tempo que desenho teus olhos no índice dos livros. É que te vejo em quase tudo que eu poderia vir a ouvir – eu ouço quase nada como deveria ser. E como deveria ser?, como deveria? Para ti, como deveria ser?, como tu espera que eu seja? A impaciência mora em mim. E muitas vezes me divido com a incerteza também – o quê mais eu poderia te dizer? Sim, eu quero depois de tudo me deitar sobre. E eu quero sentir muitas vezes que eu estou prestes a te encontrar mais uma vez. E não encontro as palavras porque quero apenas a tua voz flutuando sob lençóis macios – posso fumar um cigarro enquanto tu me olha em silêncio? Dentro do meu silêncio moram muitas palavras, palavras que estou prestes a conhecer – eu me descubro através dos teus olhos. Mas não sei se acredito no teu olhar – sempre há perguntas, perguntas e mais perguntas que nem sempre vou saber te responder.

Liz Christine

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Saudade de ti


A realidade torna-se nublada e opaca quando eu toda vez que às vezes de repente se confundem as visões alheias e perguntas sem sentido e sem e sem e sem e sem nunca nunca nunca – porque não há na verdade. Na verdade das realidades opacas e nubladas não há confiabilidade nem transparência e desaparecem o afeto e a vontade de continuar. É tudo muito muito por demais esfumaçado – e a fumaça torna as visões muito e por demais difíceis de se ter equilíbrio e a sensação de se estar caminhando num chão que. Tudo desaba em meus ombros – a incerteza, a insegurança, a angústia, o receio que não é meu, o receio de me dizer a verdadeira natureza das realidades que. Tudo passa. E algumas coisas podem voltar, outras não, outras nunca, e há esquecimentos necessários à minha respiração e necessidades desnecessárias e o amor me é tão tão tão – é tudo tão caro. Não posso pagar pelos meus erros. É triste mas não peço desculpas, é embaraçoso mas não chego a me recriminar nunca, pode soar constrangedor mas não para mim – para mim é assim: nada soa impossível. As letras das músicas mais antigas do Portishead são inesquecíveis e jazz de 1920 à 1950 é impossível eu não amar. Há livros e filmes que mudam uma vida ou uma maneira de ser ou simplesmente ampliam e multiplicam e reforçam certa forma de pensar ou viver ou sentir ou tentar se tornar ou quem sabe se sempre se foi assim e – eu posso me sentir tão bem e tão completa ao teu lado e posso também na tua companhia, nos teus braços, eu posso também do teu lado ou no teu colo me esquecer de tudo o que me faz confusa e reticente. Eu posso ser sincera e me sentir livre e sentir que pelo menos – sabe?, pelo menos, apesar de toda a minha metade sombria e/ou hedonista (prisioneira de mim mesma e quem sabe de regras que não criei e quero subverter sempre, hoje e sempre, subverter as normas – sabe?)... apesar de detalhes assim de mim e do mundo, eu ainda posso me entregar ao que realmente quero e tentar fazer algo que muitos sonham enquanto outros ignoram e têm outras prioridades – sabe o amor pleno? Mas não me venha com as idéias que ensinam e repassam há tanto tempo, esqueça-as. Eu fico entre uma mistura que não se mistura nunca totalmente e não se torna homogênea quando jogada no mesmo copo ou batida no liquidificador – eu, sabe? Enlouquecer ou tentar suicídio por um amor mal curado que fracassou e não se pode superar até o fim dos tempos, para sempre, para sempre até que o amor perdido retorne, para sempre a dor até que se consiga reacender o amor romântico, e para sempre fugir da dor em meio a prazeres realmente prazerosos mas vazios – os prazeres mais extremos e variados que se puder encontrar – as substâncias e corpos e beijos de muitas muitas muitas quantas eu achar e me quiserem, e simultâneamente quando possível, quanto mais melhor – e a arrogância fria de renegar as próprias idéias e ideais a qualquer momento, e dizer eu te amo para sempre e te quero mais que todas as outras e tu é única enquanto procuro uma forma de te esquecer por aí e uma maneira de fugir de ti... e na realidade nunca dizer nada daquele tipo, nunca declarar nada, apenas sonhar e pensar e ser e falar apenas através de silêncios ou livros e... movimentos corporais... todo o meu corpo te deseja mas... (Hoje estou nublada porque não te vi e outras companhias me deixam meio assim assim – mas, claro, há momentos de.) Esquecimento e. E eu me revolto contra mim mesma por te querer daquele jeito insano todos os dias e horas – apenas não me procure se eu estiver meio assim, sabe? Me evita quando eu estiver confusa e nublada ou cura de vez minha insanidade e minha. Saudade de ti.

Liz Christine