terça-feira, 4 de janeiro de 2022

As matrioskas desta casa

 


Sobre a nudez

 

Algum dia

 

Todas as palavras desconexas serão compreendidas

 

E todo o sentido oculto será compreendido pelo gato que espreita o silêncio passageiro das nuvens que habitam na moldura de um quadro que respira e eu vi

 

Eu vi que o gato não vai falar agora

 

Também gosto das gatas e das abelhas mas me isolo um pouco

 

Eu e o gato fugimos da incompreensão e compramos uma estante de livros onde poderemos guardar mais livros e matrioskas

 

As matrioskas desta casa moram ali, naquela estante

 

Mas eu e o gato e as matrioskas e gatas e abelhas e raposas ainda preferimos não compreender todas as palavras desconexas

 

O sossego parece mais agradável

 

E a leitura dos olhares fugitivos ou concentrados

 

As matrioskas desta casa moram ali, naquela estante.

 

Liz Christine

domingo, 2 de janeiro de 2022

(Re)vejo poemas

 


Os olhos do anjo eram azuis. E os olhos de Myrtha são negros, como Sócrates e Colette sabem e vêem. A insanidade espreita lá fora, mas não a ouço e não a vejo e não saio mais para nada. Fico aqui, vejo poemas, respiro a tranquilidade, digo olá às plantas, e beijo a única matrioska que me vê inteira em sonhos. Há outra matrioska, e mais outra, a coleção é pequena, e converso com elas e elas me escutam. Elas também falam, e também sonham. Digo olá às plantas, faço mais e mais café, vejo poemas, respiro a tranquilidade, repito, calo, falo, vejo poemas. E Sócrates me conta sobre um livro. E me explica algumas coisas que não posso falar. Então revejo, calo, falo, vejo poemas.

 

Liz Christine

sábado, 4 de dezembro de 2021

As gardênias (e as rosas e os lilases)

 


Naquela época, o passado se encontrava logo ali, quase presente

 

E antes nem havia passado, tudo era presente, e tão presente

 

E ainda antes nem presente havia, nem o antes do presente

 

Só o porvir e o durante e o porvir

 

E agora um poema para Maio e um poema para Novembro

 

E a prosa poética para Dezembro ou para Setembro ou para Outubro

 

E a visão simultânea e os poemas embaralhados

 

E a trança e a gata persa ou siamesa

 

E o gato laranja e sonhos entrelaçados

 

E nada que possa ser pronunciado sem reservas

 

Ou quase tudo é mais ou menos possível ou ilegível

 

Traduzir silêncios   Traduzir miados

 

Não traduzir os sonhos e colher gardênias

 

De novo elas, as gardênias

 

E as rosas e os lilases.

 

(A coruja me contou que já não compreendia os humanos e me perguntou se eu discordava. A coruja dançou e disse que as palavras eram desnecessárias. A coruja veio me fazer companhia e ela era o meu presente tanto quanto os livros de poesias que o meu doce sonho trazia de presente de vez em quando.)

 

Liz Christine