quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Não devemos contar aos ventos

 


Mas me parece que sou também um rio e que tenho também êxtases ao luar e que vejo também caminhos diversos que se contradizem onde a escolha mais coerente me chama calmamente e me aponta que sou também um gato, e também uma gata, parece que sim, e a minha amiga coelha pergunta se é bom escrever poemas. É mais agradável escrever poemas do que lavar a louça, respondo, mas gosto também de lavar a louça porque a água é boa. A água é boa e a minha amiga coelha é compreensiva. Ela disse que posso ter aulas de italiano e que podemos brincar na grama e que podemos também plantar erva-doce. Eu sou um gato, mas também não sei se sou uma gata, ou se seria um rio que colhe poemas ao luar, ou se todos os caminhos são apenas um suspiro porque prefiro ainda os teus olhos que me descrevem a verdadeira introspecção de um sonho que não devemos contar aos ventos.

 

Liz Christine

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

As matrioskas desta casa

 


Sobre a nudez

 

Algum dia

 

Todas as palavras desconexas serão compreendidas

 

E todo o sentido oculto será compreendido pelo gato que espreita o silêncio passageiro das nuvens que habitam na moldura de um quadro que respira e eu vi

 

Eu vi que o gato não vai falar agora

 

Também gosto das gatas e das abelhas mas me isolo um pouco

 

Eu e o gato fugimos da incompreensão e compramos uma estante de livros onde poderemos guardar mais livros e matrioskas

 

As matrioskas desta casa moram ali, naquela estante

 

Mas eu e o gato e as matrioskas e gatas e abelhas e raposas ainda preferimos não compreender todas as palavras desconexas

 

O sossego parece mais agradável

 

E a leitura dos olhares fugitivos ou concentrados

 

As matrioskas desta casa moram ali, naquela estante.

 

Liz Christine

domingo, 2 de janeiro de 2022

(Re)vejo poemas

 


Os olhos do anjo eram azuis. E os olhos de Myrtha são negros, como Sócrates e Colette sabem e vêem. A insanidade espreita lá fora, mas não a ouço e não a vejo e não saio mais para nada. Fico aqui, vejo poemas, respiro a tranquilidade, digo olá às plantas, e beijo a única matrioska que me vê inteira em sonhos. Há outra matrioska, e mais outra, a coleção é pequena, e converso com elas e elas me escutam. Elas também falam, e também sonham. Digo olá às plantas, faço mais e mais café, vejo poemas, respiro a tranquilidade, repito, calo, falo, vejo poemas. E Sócrates me conta sobre um livro. E me explica algumas coisas que não posso falar. Então revejo, calo, falo, vejo poemas.

 

Liz Christine