Quando alguém diz: “não liga, não, você arranja outra pessoa melhor…” – eu penso que. E quando tu quer precisamente aquela pessoa, e não outra? E quando não te serve ninguém mais, ninguém no mundo inteiro a não ser aquela pessoa? Há quem pense que qualquer coisa na vida pode ser substituída – ou abstraída. E quando tua vida inteira depende de uma coisa? E quando nada te serve a não ser aquilo? Rigidez, podem dizer. Digam o que quiserem, eu continuo acreditando – quando se quer de verdade alguma coisa ou alguém, é assim que deve ser. Se algo pode substituir aquilo, então não é tão verdadeiro ou essencial – e parece que nada soa verdadeiro a alguns. Eu noto hoje em dia que busquei espelhos. É, espelhos, busquei espelhos de mim mesma – porque eu sinto e penso dessa forma. Eu testei pessoas (mais precisamente mulheres, mas talvez não apenas mulheres) – eu as testei até as últimas conseqüências. Eu testei, aprontei e provoquei o máximo que minha fragilidade cruel me permitiu – e admirei profundamente as que conseguiram. E desprezei quem desistiu fácil – mas não foi um desprezo por orgulho, foi um desprezo pela constatação de que ou aquela pessoa era muito fraca ou ela não tinha amor suficiente dentro dela (por mim). A minha admiração por quem parecia amar até as últimas consqüências do sentir e persistir foi profunda e me gerou uma ligação que eu sentia ser indissolúvel – mas só até o amor acabar. Em alguma parte de mim esses amores extremos permanecem inalterados e vão viver comigo até – até. Mas essa parte que conserva tais amores que me refletiam convive bem com o desejo presente de seguir em frente. E como eu agiria agora que me reconheço assim? Vou continuar testando pessoas? Provocando? Não sei, mas acho que isso passou ou está passando. Mas sei que não vou acreditar em qualquer “eu-te-amo” dito por hábito – ou em quaisquer rosas dadas por hábito. Eu não creio muito facilmente em ninguém – porque já vi tanta encenação do amor... as formas sem conteúdo. Eu vi ao meu redor e me defendi como pude – testando e provocando para ter a sensação duvidosa do amor verdadeiro e profundo e extremo. Eu, quando quero, quero mesmo – apesar de me esvair por aí enquanto tento e sonho alucinadamente. Mas não sei esperar e nunca me concentro em apenas uma coisa. Eu continuo me testando por aí e esvaio minhas forças e propósitos – apesar de desejar mais do que tudo apenas alguém ou qualquer outra coisa. Resumindo: sou uma romântica obssessiva que acredita num único amor que talvez possa vir a ser eterno mas a juventude é curta e eu pretendo me divertir e provar muito de vários sabores. É difícil de entender? É só mais um teste... talvez... quem tiver que permanecer na minha vida, permanece. Sou filha de psicólogos mas tento me compreender muito mais que eles tentam entender a si mesmos ou a mim. E leio com voracidade e uso minhas leituras ou experiências pessoais para mergulhar cada vez mais em mim mesma – tudo que faço vai até as conseqüências mais enlouquecedoras. Passo madrugadas inteiras repensando. Mas também posso passar madrugadas inteiras me esquecendo. Dançando. Viajando. Abstraindo. Ou mergulhando em mim sem o menor pudor. Aliás, no momento eu tenho um certo amor obssessivo até os extremos da melacolia mais profunda pela tua ausência – mas não espere me encontrar sozinha em casa esperando por ti...
Liz Christine
terça-feira, 14 de outubro de 2008
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Como uma rosa despedaçada

“But it’s just no fun
When you hate the person you’ve become”
Roll on, Dntel
Não tomei nada hoje. Porque sinto um gosto amargo. Um gosto amargo de pesadelo. E pode-se perder tudo, menos a si mesmo – o que bate e o que cria. Onde se abrigam os sonhos ou o amor. E as memórias. Apago memórias de meu coração que bate no ritmo de um amor que me perdeu. E evito pensar as sombras de um coração partido pela idéia que não consigo alcançar. Não tenho jeito. Sou caso perdido. Mas não encerrado. Não me fecho em mim mesma a não ser quando – há um gosto amargo. Por isso não quis tomar nada. Para evitar. O veneno de meus pensamentos. A pureza de me encontrar ainda assim. Não sinto raiva mas me revolto e disparo tempestades em poucas palavras – poucas mas extensas. Eu quero a tranquilidade – a tranquilidade dos extremos do prazer saciados.
A tranquilidade do dia seguinte, ouvindo apenas música e tuas palavras doces. Sentir tuas mãos suaves me apertando contra ti num abraço macio. Mas algo me estraga. É a incerteza. A incerteza – aconteceu ou não? Tu me ama mesmo assim? Fica comigo depois disso? Eu me sinto inocente. Eu esqueci tudo. Não sei de nada. Sei pressentimentos, mas não tenho lembranças. Eu estava lá, tu estava lá, e não sei em quê pensávamos. Sinto uma conexão entre as pessoas em certos momentos. Mas em momentos de sobriedade só há conexão entre os que se amam. Ou as que se amam. Como nos filmes, em alguns filmes, tu salvou minha vida – e eu já te amava antes disso.
Sinto o passado no presente. Ou sinto presente meu passado. Quando vejo uma fotografia tua eu revejo tudo. E não entendo nada. Tu preencheu vários dos meus lados porque tu foi muitas – e é a única que eu gostaria de ter de volta. Então eu revejo aquele instante e o instante que se seguiu àquele momento – e só vejo a ti. Mas quando fico insone aquele pesadelo antigo me vêm em imagens. Imagens vagas nunca nítidas. Mas não me odeio, não por isso, nem por nada. Apenas me sinto decepcionada por ter te perdido. Como se o erro fosse exclusivamente meu – “e foi, exclusivamente seu”, tu poderia me dizer caso ainda falasse comigo. Mas não reconheço, não reconheço esse erro – entenda uma coisa que tu nunca compreendeu: eu não tinha a experiência que tu pensava ver em mim. Eu sabia tanto quanto você.
Quanto tu me deixou passei uns tempos entre copos e comprimidos e alguns canudos. Em banheiras de água quente e camas de amigas que não eram tão amigas. Tudo passou. Hoje não tomei nada. Mas meu amor por ti não passa. E a memória daquela manhã em que acordei no hospital se confunde em minha cabeça – isso foi muito antes do nosso relacionamento amadurecer. Mas foi do que você me acusou quando se cansou. Tu sempre parecia dizer em todos os teus gestos que eu não te amava tanto quanto você me amava. Mas você se enganou, pelo menos nisso – o resto sobre mim tu pareceu adivinhar, ler na minha pele ao beijar minhas mãos. Você adivinhava meus desejos e se adiantava a eles. Via minhas fantasias entre frases caídas durante minhas distrações – e me surpreendia porque eu mesma ignorava minhas fantasias. E assim tu me teve mais do que qualquer pessoa – e me deixou, falando de assuntos mortos para mim. Eu morro mais sem ti do que podia ter morrido aquela manhã. E se tu algum dia me quissesse de volta? Eu teria forças para mergulhar? Acreditaria de novo em ti mais do que em qualquer outra coisa? Só sei que me sinto despedaçada. Como uma rosa que serviu de brinquedo às dúvidas de alguém.
Liz Christine
When you hate the person you’ve become”
Roll on, Dntel
Não tomei nada hoje. Porque sinto um gosto amargo. Um gosto amargo de pesadelo. E pode-se perder tudo, menos a si mesmo – o que bate e o que cria. Onde se abrigam os sonhos ou o amor. E as memórias. Apago memórias de meu coração que bate no ritmo de um amor que me perdeu. E evito pensar as sombras de um coração partido pela idéia que não consigo alcançar. Não tenho jeito. Sou caso perdido. Mas não encerrado. Não me fecho em mim mesma a não ser quando – há um gosto amargo. Por isso não quis tomar nada. Para evitar. O veneno de meus pensamentos. A pureza de me encontrar ainda assim. Não sinto raiva mas me revolto e disparo tempestades em poucas palavras – poucas mas extensas. Eu quero a tranquilidade – a tranquilidade dos extremos do prazer saciados.
A tranquilidade do dia seguinte, ouvindo apenas música e tuas palavras doces. Sentir tuas mãos suaves me apertando contra ti num abraço macio. Mas algo me estraga. É a incerteza. A incerteza – aconteceu ou não? Tu me ama mesmo assim? Fica comigo depois disso? Eu me sinto inocente. Eu esqueci tudo. Não sei de nada. Sei pressentimentos, mas não tenho lembranças. Eu estava lá, tu estava lá, e não sei em quê pensávamos. Sinto uma conexão entre as pessoas em certos momentos. Mas em momentos de sobriedade só há conexão entre os que se amam. Ou as que se amam. Como nos filmes, em alguns filmes, tu salvou minha vida – e eu já te amava antes disso.
Sinto o passado no presente. Ou sinto presente meu passado. Quando vejo uma fotografia tua eu revejo tudo. E não entendo nada. Tu preencheu vários dos meus lados porque tu foi muitas – e é a única que eu gostaria de ter de volta. Então eu revejo aquele instante e o instante que se seguiu àquele momento – e só vejo a ti. Mas quando fico insone aquele pesadelo antigo me vêm em imagens. Imagens vagas nunca nítidas. Mas não me odeio, não por isso, nem por nada. Apenas me sinto decepcionada por ter te perdido. Como se o erro fosse exclusivamente meu – “e foi, exclusivamente seu”, tu poderia me dizer caso ainda falasse comigo. Mas não reconheço, não reconheço esse erro – entenda uma coisa que tu nunca compreendeu: eu não tinha a experiência que tu pensava ver em mim. Eu sabia tanto quanto você.
Quanto tu me deixou passei uns tempos entre copos e comprimidos e alguns canudos. Em banheiras de água quente e camas de amigas que não eram tão amigas. Tudo passou. Hoje não tomei nada. Mas meu amor por ti não passa. E a memória daquela manhã em que acordei no hospital se confunde em minha cabeça – isso foi muito antes do nosso relacionamento amadurecer. Mas foi do que você me acusou quando se cansou. Tu sempre parecia dizer em todos os teus gestos que eu não te amava tanto quanto você me amava. Mas você se enganou, pelo menos nisso – o resto sobre mim tu pareceu adivinhar, ler na minha pele ao beijar minhas mãos. Você adivinhava meus desejos e se adiantava a eles. Via minhas fantasias entre frases caídas durante minhas distrações – e me surpreendia porque eu mesma ignorava minhas fantasias. E assim tu me teve mais do que qualquer pessoa – e me deixou, falando de assuntos mortos para mim. Eu morro mais sem ti do que podia ter morrido aquela manhã. E se tu algum dia me quissesse de volta? Eu teria forças para mergulhar? Acreditaria de novo em ti mais do que em qualquer outra coisa? Só sei que me sinto despedaçada. Como uma rosa que serviu de brinquedo às dúvidas de alguém.
Liz Christine
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
A Amante Ideal

As pessoas muitas vezes me confundem. Hoje eu ouvi de alguém que tem um relacionamento estável há mais de dez anos que o amor não existe. Se o amor não existe por que essa pessoas mantém um relacionamento há tanto tempo? Por que a sociedade assim nos exige? Eu até compreendo um relacionamento baseado em sexo – quando você encontra A Amante Ideal ou o amante ideal (isso diga-se de passagem, não creio em tal existência) você pode até manter um relacionamento amoroso baseado em sexo... mas como não parecia ser este o caso, e nem sei se atração física pode durar tantos anos sem outras bases, então por que então manter um relacionamento se o amor não existe? Ter alguém do seu lado, só isso? Eu já andei dizendo por aí que não acreditava em Amor mas era da boca para fora – só esperava que alguém me provasse o contrário... apenas esperava que minhas teorias fossem destruídas por alguém. E foram. Resumindo: eu consegui... ou me iludiram? Eu acreditei todas as vezes que alguma mulher dizia me amar. Bem, talvez. Talvez eu questionasse internamente, talvez eu esperasse mais ações que palavras – mesmo que eu ame as palavras, eu amo mais os impulsos e gestos e toda a parte física prazerosa e sensorial da minha existência. Mas enfim, muitas vezes acreditei. Sempre foi o meu maior desejo, por mais que eu dissesse que não existia. E para provar que eu não acreditava, beijava tantas pessoas quanto eu... quissesse. Enquanto sonhava com o que dizia não acreditar. E me senti amargurada e decepcionada com minhas táticas por pensar ter perdido um grande amor pelos meus comportamentos – e agora alguém vem me dizer que amor não existe. O que não entendo é: por que essa pessoa não termina seu relacionamento estável e não sai beijando todo mundo por aí? Por que a sociedade falaria mal dela? Se fosse um homem, não falariam tão mal assim – e isso talvez me irrite. Eu creio que existe. Mas para quem não crê, existem muitas outras formas de se viver – para quê seguir as regras então e se comportar como a sociedade espera de você? Eu não sei se estraguei relacionamentos com sucessivas... tentativas de fugir mas... no fundo eu queria tanto e... morria de... (pânico de me prender). Mas estou presa às dores de um amor intenso não só de minha parte – ela parecia me amar sinceramente também. Então, o que devo fazer agora? Uma coisa eu sei: por enquanto me pergunto (sem achar resposta) se estava tão errada assim e se caso eu tivesse me comportado como todos esperam... se esse amor estaria vivo até hoje. Mas no momento (se isso acontecer um dia) em que eu duvidar de verdade (e não da boca para fora) da existência do Amor – se eu não acreditar mais não vou me prender à regra nenhuma. Nem acreditando em Amor talvez eu não me prenda à regra alguma. Eu tentei ter Amor e Liberdade, mas se amor não existisse eu apenas pensaria em Liberdade – fora com as prisões. Mas o melhor tipo de relacionamento para mim é mesmo baseado em sexo – talvez isso possa evoluir para Amor, ou talvez eu confunda as coisas... Bem, A Amante Ideal para mim era justamente a tal que eu mais amei – eu a amei por isso ou ela se tornou Ideal porque eu a amava? Sabe-se lá...
Liz Christine
Liz Christine
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Quase inteira

De quantas borboletas é feita a solidão de uma lágrima que brota da minha fala? Sinto a ansiedade da breve espera até que a onda cresça e me cubra de gotas extraídas de pétalas de rosas úmidas abraçadas ao meu corpo. É que rosas abraçam. E borboletas me sugam e me absorvem e se vão – até o infinito e o extremo do amor que se acaba um dia. Mas não se esgota em mim. Não tiro conclusões. Uma descoberta é o início de alguma coisa. Uma conclusão é o final de um longo percurso. Quero o movimento. E o descanso em movimento. Quero sentir cada pedaço do meu corpo em contato com tua pele de pétalas de rosa. Tua boca, tuas palavras, teus seios onde descanso em movimento. Mas sinto o peso da solidão – e a dor de um final que se aproxima quando penso que tudo acaba um dia. Eu não me planejo. Nem sei o que deveria te dizer. Às vezes no teu colo eu penso em coisas tristes – como? Às vezes quando tu quase adormece e se cala e eu fico sozinha com minhas imagens geradas pela onda que vai decrescendo aos poucos – nesses momentos eu choro, ou quase choro, então olho teu rosto e teus olhos fechados e sinto teu cheiro me invadindo... e quase me desligo de mim mesma. Sempre me desligo de mim e de tudo – para sentir tua proximidade. Eu quase te amo. Quase não posso viver sem ti. E quase me confundo se tu é uma rosa ou uma borboleta. E também eu quase me amo em alguns momentos como esses. E me pergunto por que não posso ser e sentir e mergulhar inteira em ti e no meu relacionamento contigo – da mesma forma que me sinto por inteira quando a onda respinga ecos da mais profunda sensação de ser e estar. Ser inteira. Estar aqui – e não com o pensamento distante. Eu tento mas eu quase desisto. Quase desisto de tentar – e quando isso acontece tu insiste e me procura e eu me concentro novamente em quase dizer sem palavras que preciso tanto do teu amor quanto o silêncio é recheado de verdades inteiras e completas. Não digo que te amo. Mas sei que de alguma forma tu me sente – inteira.
Liz Christine
Liz Christine
terça-feira, 16 de setembro de 2008
Infelizmente
Mergulhar no azul e comer o verde. Absorver o verde com a língua e com toda a minha ânsia por profundidades – as profundidades do verde.
Dizer ao pato azul – eu só quero te ver, não quero te ter... quero ouvir apenas – tua voz...
Não dizer nada à fada verde. Cantar poemas para ela. Poemas eróticos sobre o amor entre fadas e borboletas.
Quando eu namorava a fada verde conheci uma fada lilás. E depois da fada verde namorei a fada lilás – com quem eu já tinha ficado antes. Eu – que sou a fada vermelha – saía com a fada lilás no início do namoro mas depois ela começou a voar sozinha ou com amizades dela enquanto eu ficava trancada em casa no escuro do quarto chorando. A fada vermelha estava com problemas mas não havia quem compreendesse – nem médicos ajudavam. Psiquiatras, psicólogos, psicanalistas – nenhum fazia a fada vermelha abrir a boca. Ela permanecia trancada. A fada vermelha ligou o gás de uma casa vazia sem gatos nem cachorros e tomou calmantes e fechou todas as janelas – quando o gás a deixou com muita dor de cabeça e ela estava prestes a dormir, a fada vermelha abriu todas as janelas e desligou o gás. E ligou para qualquer pessoa para não pegar no sono. E depois disso começou a enxegar um pouco melhor a própria situação.
E não havia mais liberdade. Nem amor. Nem ménages à trois. Nem exibicionismos.
Uma noite qualquer ela bebeu uma garrafa de vinho com alguns remédios. E ninguém mais ouviu falar dela... porque não saiu mais de casa. Mas não morreu. (Infelizmente...)
Liz Christine
Dizer ao pato azul – eu só quero te ver, não quero te ter... quero ouvir apenas – tua voz...
Não dizer nada à fada verde. Cantar poemas para ela. Poemas eróticos sobre o amor entre fadas e borboletas.
Quando eu namorava a fada verde conheci uma fada lilás. E depois da fada verde namorei a fada lilás – com quem eu já tinha ficado antes. Eu – que sou a fada vermelha – saía com a fada lilás no início do namoro mas depois ela começou a voar sozinha ou com amizades dela enquanto eu ficava trancada em casa no escuro do quarto chorando. A fada vermelha estava com problemas mas não havia quem compreendesse – nem médicos ajudavam. Psiquiatras, psicólogos, psicanalistas – nenhum fazia a fada vermelha abrir a boca. Ela permanecia trancada. A fada vermelha ligou o gás de uma casa vazia sem gatos nem cachorros e tomou calmantes e fechou todas as janelas – quando o gás a deixou com muita dor de cabeça e ela estava prestes a dormir, a fada vermelha abriu todas as janelas e desligou o gás. E ligou para qualquer pessoa para não pegar no sono. E depois disso começou a enxegar um pouco melhor a própria situação.
E não havia mais liberdade. Nem amor. Nem ménages à trois. Nem exibicionismos.
Uma noite qualquer ela bebeu uma garrafa de vinho com alguns remédios. E ninguém mais ouviu falar dela... porque não saiu mais de casa. Mas não morreu. (Infelizmente...)
Liz Christine
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Silêncios
_ Às vezes parece que a música está chorando. Mas é um choro sexy... e lento. O sexy costuma ser lento... arrastado. Quanto mais rápido e ágil mais cheira à agressividade. Parece que a música chora... de vez em quando... e é sexy... e lento. E cíclico talvez. Coisas cíclicas acabam envolvendo. Lentamente... elas se expandem, círculos cada vez maiores... você me entende?
_ Não sei...
_ Já teve vontade de morrer depois do orgasmo?
_ Acho que não.
_ Eu também não... mas eu morro diariamente, ou talvez a cada fim de semana... eu morro e acordo me renovando a cada segunda-feira ou a cada dia... mas nunca tenho vontade de morrer nem penso mais nisso... eu pensava, sabe? Antes. Agora não... muitas vezes eu sento no chuveiro debaixo d’água e choro... não sei o motivo pelo qual faço isso. Mas não parece que a música chora também? (Silêncio.) A gente morre diariamente por coisas tão bobas... que parecem tão sérias na hora... mas tenho mania de achar que as coisas sérias são bobas. Uma vida séria, por exemplo, é boba para mim. Casamento e fidelidade também me parecem coisas bobas. O que eu quero mesmo... (Silêncio. Um cigarro é aceso.)
_ O quê você quer mesmo?
_ O quê você quer mesmo?
_ Eu? Coisas bobas... e você?
_ Coisas bobas que me dêem algum prazer... e que durem seis horas ou três anos... ou talvez oito anos... tudo são fases, e algumas fazem falta... não quero sentir saudade, quero carregar comigo o que eu gosto até que eu me canse e mude... para todo lugar, até acabar... mas tudo acaba, não é triste? Até os remédios que disfarçam a saudade acabam e não se pode mais usá-los...
_ Que remédios disfarçam a saudade?
_ Sei lá, remédios ou brinquedos ou drogas, qualquer coisa que se queira... sabe, eu amava meus brinquedos quando criança. Não sei por que algumas músicas... já ouviu “Tell it like it is” da Bettye Swann? Ela canta: “if you want something to play with, go and find yourself a toy...” Mas eu tenho um bichinho de pelúcia com quem eu durmo todas as noites, abraçando, sabe? É melhor ser um brinquedo do que ser um enfeite ou algo assim... alguma coisa trancada num armário transparente que ninguém pode chegar perto ou mexer... acho que estou ficando com tédio... quase angústia... algumas coisas são belas de se olhar mas dão angústia... você não acha?
_ Talvez. (Silêncio.) Falar costuma ser chato. Eu não gosto muito de falar. Nem tu. Por que está falando tanto? (Silêncio.)
Liz Christine
_ Não sei...
_ Já teve vontade de morrer depois do orgasmo?
_ Acho que não.
_ Eu também não... mas eu morro diariamente, ou talvez a cada fim de semana... eu morro e acordo me renovando a cada segunda-feira ou a cada dia... mas nunca tenho vontade de morrer nem penso mais nisso... eu pensava, sabe? Antes. Agora não... muitas vezes eu sento no chuveiro debaixo d’água e choro... não sei o motivo pelo qual faço isso. Mas não parece que a música chora também? (Silêncio.) A gente morre diariamente por coisas tão bobas... que parecem tão sérias na hora... mas tenho mania de achar que as coisas sérias são bobas. Uma vida séria, por exemplo, é boba para mim. Casamento e fidelidade também me parecem coisas bobas. O que eu quero mesmo... (Silêncio. Um cigarro é aceso.)
_ O quê você quer mesmo?
_ O quê você quer mesmo?
_ Eu? Coisas bobas... e você?
_ Coisas bobas que me dêem algum prazer... e que durem seis horas ou três anos... ou talvez oito anos... tudo são fases, e algumas fazem falta... não quero sentir saudade, quero carregar comigo o que eu gosto até que eu me canse e mude... para todo lugar, até acabar... mas tudo acaba, não é triste? Até os remédios que disfarçam a saudade acabam e não se pode mais usá-los...
_ Que remédios disfarçam a saudade?
_ Sei lá, remédios ou brinquedos ou drogas, qualquer coisa que se queira... sabe, eu amava meus brinquedos quando criança. Não sei por que algumas músicas... já ouviu “Tell it like it is” da Bettye Swann? Ela canta: “if you want something to play with, go and find yourself a toy...” Mas eu tenho um bichinho de pelúcia com quem eu durmo todas as noites, abraçando, sabe? É melhor ser um brinquedo do que ser um enfeite ou algo assim... alguma coisa trancada num armário transparente que ninguém pode chegar perto ou mexer... acho que estou ficando com tédio... quase angústia... algumas coisas são belas de se olhar mas dão angústia... você não acha?
_ Talvez. (Silêncio.) Falar costuma ser chato. Eu não gosto muito de falar. Nem tu. Por que está falando tanto? (Silêncio.)
Liz Christine
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
All of me

Eu não falo, eu sussurro… sussuro que te quero mais do que desejo a minha cura. Ficar curada de você? Para quê? A simples lembrança de ti me perseguindo me provoca uma irrefreável sensação de. Sonho realizado. Porque sempre quis, sempre te quis. E tentei, tentei fugir com outra... mas voltei e volto a ti sempre que... fecho os olhos e te sinto por perto. Eu te sinto cada vez mais perto de mim.
“You took the part that once was my heart
So why not take all of me
All of me
Why not take all of me
Can’t you see
I’m no good without you”
(Cantada por Billie Holiday)
Liz Christine
“You took the part that once was my heart
So why not take all of me
All of me
Why not take all of me
Can’t you see
I’m no good without you”
(Cantada por Billie Holiday)
Liz Christine
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Teu lado

Não é nada, é só uma nudez entediada que passa ao menor sinal de que você poderia ou talvez não pudesse mais – voltar. Voltar a mim em pensamento – só em pensamento. Porque não te quero mais e te acho tão sem sentido... meu pensamento voa em direção a ti mas não te reconheço mais quando te vejo de longe. De longe, bem longe. Lá no sótão mora um sapo azul. Desço as escadas mas não abro a porta do sótão porque, bem, porque tenho tanto... não, não tenho medo, mas apenas desço as escadas no escuro e volto correndo. Volto à minha nudez entediada... tatuagens que não te dizem mais respeito... Lá no sótão tem uma lagoa de Danette onde moram patos bravos que arrancam as próprias asas, é por isso que não entro lá. Me assustam sempre. Eu te ouço antes de dormir. Ouço tua voz gravada no meu travesseiro... e penso tanto que quase perco o sono. Então eu te escrevo, esperando qualquer coisa que não compreendo bem, e recebo silêncios. Muitos silêncios... de tantos lados. Do teu lado.
Liz Christine
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