sábado, 7 de junho de 2008

Eu-fragmentada


Não consigo, não posso, não quero. Não sou e não quero mais saber disso. Nem vou tentar mais uma vez, porque é algo que nunca me atraiu. Essa possibilidade de não ser eu. Sou outra, sempre outra, outra que se sabe eu-outra. Quando penso em qualquer coisa, idéias divergentes me anulam a possibilidade de uma conclusão. Mas também nem gosto de conclusões. Sempre pronta para mudar qualquer coisa. Ainda em formação do próprio eu. Mas já passei da idade. Não tenho idade. Sou todas as idades juntas dentro de mim. Estou em todas as etapas e idades. A cada momento, uma parte diferente de mim responde ou age. Fragmentada. Eu-fragmentada. Eu choro. Choro porque não sou uma apenas. Uma parte chora, outra quer seguir sem olhar para trás. Mas teus olhos me acompanham, mesmo que eu não olhe para trás. Não importa com quem ou onde eu vá, você me acompanha. Porque engoli teu olhar e tua maneira de falar ou ver o mundo e as outras pessoas. Você me absorveu e me esqueceu. Mas eu tenho você na minha pele para sempre. Tua ausência física me queima os olhos. Não consigo enxergar mais nada. Tua presença abstrata me provoca seqüelas. Já não sou mais a mesma. Mas nunca fui. Nunca fui compreensível. Nunca fui tão clara quanto você gostaria. Teus ciúmes não teriam nenhum fundamento hoje, porque não quero saber de nada mais do que te irritava. Na verdade só sinto angústia de você-sabe-o-quê. Ah não sabe? Sempre soube. Antes mesmo de eu saber. Mas eu corria contra. Eu não sabia.

(texto dedicado à garota de olhos verdes)

Liz Christine

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Eu faço tudo para chamar tua atenção...


Acordo com gosto de fruta. É que eu respiro tua pele em sonhos. E mastigo as pontas dos teus cabelos dormindo. Tua pele clara como a minha, teu cabelo bem mais claro que o meu, teus cílios de boneca. Fumo meu primeiro cigarro do dia e conto o que sonhei. Tomo meu café com torradas e fico com preguiça de fazer o que sempre faço ao acordar. Lavar o rosto, escovar os dentes, escovar o cabelo, passar creme no rosto. Tomo dois banhos por dia, mas não ao acordar. Costumo acordar meio-dia. Fico entediada só de contar e paro por aqui. Mas com você não há espaço para o tédio. Você entre meus pensamentos osbcuros como pupilas dilatadas na escuridão de uma madrugada em claro. Olho para minha gata e vejo você. É a cor dos olhos dela. Troco a água para ela, só para ela. Tem outra gata, mas é para a gata de olhos verdes que eu troco a água. Mas não posso deixar de falar do meu gato. São duas gatas e um gato. O nome dele é Sócrates por causa de um livro que eu estava lendo. Mas passei a chamá-lo de pato e ele sempre atende. Ele é comilão e adora doces e barras de cereais. As gatas preferem atum light. Eu não leio, eu devoro lambendo as palavras. Em todas as palavras de um livro sobre o absurdo de um amor extremo, eu vejo nuances e detalhes de nós duas. Sartre escreveu uma peça sobre um crime passional, Les Mains Sales. Teu crime foi ter me deixado de joelhos rezando para que você voltasse para mim. Mas ninguém viu isso nem nunca vai ver. Todas as bebedeiras e remédios para emagrecer ou dormir e todos os meus escândalos mais pareciam ataques de menina mimada. Ainda bem. E as festinhas orgiásticas mais pareciam manias minhas. Ainda bem. Quer saber? Eu faço tudo para chamar tua atenção...

Liz Christine

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Rio principal

Quero beijar sua boca antes que a noite se desfaça. Só existo depois que a noite cai. A noite desliza pelos meus quadris como as palavras doces caem dos meus olhos. Choro todas as mentiras e verdades contadas em nome do amor. Quando você se interessar por outra, não vou pensar em terminar nem em me sentir triste ou desesperada ou, muito menos, não vou nem pensar em fazer uma cena. A liberdade deve ser para todos. Tive uma namorada que se eu beijasse outra, às vezes ela se divertia e se juntava à nós e outras vezes ela me batia ou me agredia verbalmente. Outra namorada ameaçava terminar comigo. E outra entrava em depressão mas nunca reclamava abertamente. Não escondo meus sentimentos. Não vou entrar em depressão sem dizer nada. Só entro em depressão quando me sinto um pato fora d’água. Incompreendida, injustiçada, presa, asas podadas. Pode fazer como quiser. Quero viver à minha maneira. Mas eu devo ser a sua escolha. E você deve ser meu caminho. Tenho que achar que te amo acima de qualquer outra. E você deve me achar mais especial que qualquer uma. Todas são especiais, mas eu devo ser sua preferida. E você tem que ser meu chão. Posso ser seu rio. O rio principal. Tenha quantos afluentes desejar. Me deixa desejar outros lábios que não os teus. Mas se você não concorda... não vou mais brigar pelas minhas idéias como antes. Nem vou mentir. Quando ninguém mais concorda com você é a hora de admitir para si mesmo – ou o mundo é atrasado e não merece alguém como você ou você está errado. E não cheguei à nenhuma conclusão... só sei que te amo e não quero te perder.

Liz Christine

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Pedaços


O perfume de baunilha flutua dentro do quarto verde. As paredes são verdes para mim, e as prateleiras também são verdes para mim, só as janelas são vermelhas como a casca de uma maçã que eu uso no chá. Bebo muito chá e café esperando que a onda volte. A onda de calor intenso que faz meu corpo se deslocar entre luzes coloridas indo de encontro aos teus abraços perfumados. Eu chupo gelo e chupo teus dedos e mordo maços vazios de cigarro até que se desfaçam. Tem gosto de papel. Nunca fiz papel de boazinha com você. Nunca quis esse papel. Não combinava comigo. Mas agora que você se foi eu escrevo meu amor em todos os cantos deste quarto. Pensei até em tatuar teu nome mas isso eu nunca vou fazer. Tua mão deita comigo quando durmo nua. Tuas palavras me acompanham quando escuto música. Você falava coisas loucas e desconexas muitas vezes. Eu contava fantasias pensando estar dizendo verdades. E fantasias não são também verdades pessoais? Quando eu queria que você voltasse – mas não disse nada e falei sobre outras coisas – você me disse que eu precisava de alguém que me desse vestidos caros. Eu imaginei então que você era um vestido, o vestido que melhor me vestia era teu corpo nu – e pensei que alguém ia te trazer de volta para mim. Fiquei esperando que alguém trouxesse minha boneca preferida falando coisas desconexas. Você falou que eu ia me casar com um editor e ia publicar um livro e eu imaginei que o editor seria gay e nunca tocaria em mim mas ia adorar me fotografar com minhas mulheres todas e tiraríamos muitos fotos eróticas só com mulheres. Por que você dizia tantas bobagens no telefone de madrugada? E o que você quis dizer quando falou que haviam pessoas dentro de uma urna? Não entendi mas respondi que eram pedaços de pessoas misturadas. E você disse que não, eram pessoas mesmo, e ainda disse assim: “essas coisas existem mesmo...” Minha bonequinha de olhos verdes e frases loucas, quam acabou doida fui eu. Sempre fomos, não? Mas você se adaptou, eu não. Você provavelmente mudou muito, eu não. Eu só perdi alguns pedaços importantes de mim. Você levou embora uma das melhores partes da minha breve vida. Sem nenhuma culpa. Eu também nunca me senti culpada por ter feito quase tudo como eu quis. Mas também nem sempre sabia o que eu queria e criei problemas para mim mesma difíceis de resolver. Eu quis viver intensamente e acabei no inferno da minha memória que nem eu consigo juntar os pedaços...

Liz Christine

sábado, 19 de abril de 2008

Febre dos sentidos


Febre dos sentidos. Visão embaçada pela sede dos teus olhos. Você é minha fome. E eu só quero me alimentar de você. Não preciso de sal nem de açúcar, quero o mel das tuas palavras e o gosto da sua pele. Eu sei o que você vai dizer, você sempre me fala o quanto me ama e me quer do seu lado. Então eu espero, eu te espero chegar naquele momento em que nos permitimos dizer tudo, sabe aquela sensação de que o mundo é perfeito enquanto estivermos abraçadas? Pode me apertar com força, eu gosto, mas me beija com suavidade, a mesma suavidade que tem o perfume de uma rosa fresca.

Liz Christine

terça-feira, 15 de abril de 2008

Estrelinha verde


Uma estrelinha verde piscando dentro da chuva e eu aqui tão solitária pensando em teus olhos que piscam dentro das minhas mãos que tocam meu corpo cansado. Cansada de não fazer nada, eu me sinto tão cansada de fazer nadinha para ter você de volta me envolvendo em seus abraços apertados e me beijando dentro da minha introspecção constante que se dissolvia na tua pele nua. Teus seios eram tão brancos quanto os meus mas você não tinha nenhuma pinta entre os seios como eu tenho. Você contava minhas pintas e me contava sua infância e me falava que teve um gatinho quando criança. E você tinha um gato que morava com sua avó e que rolava quando fazíamos carinho na barriguinha dele. E eu acreditava que eu era a sua gata ruiva porque eu era ruiva e já não sou mais. E não sou mais temperamental e difícil de controlar também. E também já desconfio de palavras doces, mas antes eu me deliciava e me entregava às doçuras de escutar você falando comigo como se eu fosse tua gatinha. Mas agora que sei que não era eterno desconfio de qualquer declaração de amor e afetividade. Você me destruiu um pouco quando foi-se embora levando com você a melhor parte de mim. O que eu era para você foi a melhor parte de mim. Teu quarto era o melhor lugar do mundo e talvez não exista mais desde que você se mudou de lá. Eu já tinha ouvido declarações antes, eu já tinha visto pessoas apaixonadas antes, já tinha provado também o sabor dos ciúmes alheios e já sabia que meu amor à liberdade e minhas precipitações estressavam quem convivesse comigo. Mesmo assim você foi única e especial em tudo. Porque foi a primeira que amei de verdade e tudo era novo então. Talvez eu pudesse ter amado antes mas – não quero falar sobre outro erro meu. Eu destruo. Destruo tudo que me toca porque tenho tanto medo, tanto medo de não conseguir ir embora quando bem entender, que destruo assim. Minha estrelinha verde, agora chove e não tenho você para me proteger da morte. Porque eu morro um pouco quando estou solitária e morro mais ainda quando me jogo. Cansada e com muita sede, tanta sede. Sede dos bicos dos teus seios, sede de você toda, e cansada de me lamentar. Choro tudo que já foi destruído e durou o suficiente para me ensinar a verdadeira liberdade. Não quero mais várias mulheres. Quero uma só e seria livre ao lado dela...

Liz Christine

sábado, 12 de abril de 2008

Mar esverdeado


Coração partido
Febre frio sede
Febre de sentidos alterados pelo excesso
Excesso de sede e tateio toda a minha e a tua pele
Nuas como é nua uma noite de palavras trocadas
E sentidos tocados
Passeia pelas minhas imagens
Tua mão me massageia com certa violência
Mas teus beijos são doces
Como é doce teu perfume de criança espontânea
Ao natural sem esconderijos e disfarces
Teus beijos me são necessários como sonhos são essenciais
Você é a mais verdadeira das minhas verdades
Quando estamos assim abraçadas e nuas
E as estrelas sussurram que mesmo que essa noite acabe
Mesmo quando o mar se for de dentro de nossas frases
Ditas no escuro
Ainda estaremos juntas
Juntas no meu coração partido
Partido porque a realidade é crua
E lá fora não há música
Mas aqui assim com você
Eu me renovo e me esqueço
Esqueço o frio
E mergulho no mar esverdeado

Liz Christine

terça-feira, 8 de abril de 2008

The way you look tonight

I see your face in every flower, your eyes in stars above
Estrelas nas paredes, seu cabelo escorrendo água, estrelas-do-mar no chão do banheiro. Tem uma piscina dentro do chuveiro, e conchas dentro da piscina, conchas peroladas e pequeninas. Seus olhos escorrendo pétalas de rosa, você se desmanchando em sorrisos luminosos, seus braços se agitando em breves movimentos. Estamos assim, protegidas pelo vapor d’água que embaça todos os espelhos. Pode-se desenhar nos espelhos, desenhar um sol, uma lua, peixinhos e gatos. Os gatos miam em espiral e recortam palavras da minha boca. Eu estou cantando no seu ouvido.

I’m living in a kind of daydream
Já é quase de manhã, já é quase meio-dia, já são quase dez da noite, o tempo escorre assim, a noite voa, o dia vem. Vem me dizer que me deseja sempre úmida e fresca. Sou a angústia de uma idéia sem refresco. O prazer de um desejo recíproco. Sou o prazer de um desejo satisfeito. Sou o tédio de uma noite sem sentido. Sou a satisfação de um prazer compartilhado. Sou a obsessão que se repete monótona. Sou a diversidade que gira em espiral.

“... cair dentro de si mesmo, mergulhando numa tonta e escura onda de amor.” (Perto do coração selvagem, Clarice Lispector)

Você se cansa da piscina. Quer sair do banheiro. A água está tão quente, as conchas são tão macias, eu não quero sair não. Quero adormecer aqui e acordar abraçada com você. Quero viver assim e respirar todas as pétalas que escorrem dos teus olhos. Todas as gotas de exaustão que escorrem do seu cabelo. Você está exausta. Eu não. Estou bem acordada. E desejo as estrelas brilhando nas paredes.

Liz Christine