segunda-feira, 16 de julho de 2007

quero que você me beije até…


O verde dos seus olhos. Seus olhos na minha pele. Sua voz rouca me pede para acender o abajur de lâmpada azul. Acendo e deito na cama, ao seu lado, grudada em você. Escondo o rosto no seu ombro e você me abraça me pedindo para olhar para você. Mas eu não quero me perder nesses olhos de intensidade tão suave. Sua pele é suave como um botão de rosa. Seu rosto é delicado e suas mãos começam a me buscar. “Me fala tudo que você gosta”, você diz. “Eu gosto de um pato e de duas gatas”, eu falo. “O quê?” “O pato e o sapo são a mesma coisa, e uma gata é lilás e a outra tem olhos verdes, como os seus…mas a gata de olhos verdes latia e fazia arf arf arf… você faria isso?” “Não sei.” “Eu estou te assustando?” “Não.” “Você me acha infantil?” “Não, eu acho você…” “Melhor não dizer…” Eu era bastante silenciosa, quase não falava. Mas, antes, eu não tinha passado. Só tinha a minha infância e puberdade, e disso eu não ia mesmo falar. Tinha o transtorno alimentar, mas isso eu também queria esconder. Acho que as coisas que eu não dizia me alcançaram e fizeram um estrago na minha cabeça. Como não quero passar por isso de novo, sou o mais sincera que posso, na minha maneira de falar. Se eu tiver interesse. Se não tiver…

Acho que fiquei mais doida do que já era.

“Você vai me contar sobre o pato e as gatas?” “Não sei, agora eu quero que você me beije até… até eu perder o fôlego.”

Liz Christine

sábado, 14 de julho de 2007

Insanidade e garotas que amam garotas


Falando sobre insanidade… Sonhei com você várias vezes. Havia um sapo e um pato sem asas num quarto com uma luz azul. Você era os dois. O sapo e o pato sem asas falavam com a sua voz… e eu beijei os dois. Beijei os dois sentindo prazer e alegria. E a luz azul se tornou verde. E as paredes se tornaram laranja. E então sua voz disse alguma coisa sobre insanidade e garotas que amam garotas… e eu beijei você de novo, eu não liguei. Eu estava apaixonada pelo sapo e pelo pato. Mas por que o pato não tinha asas? O que aconteceu com ele?

Liz Christine

domingo, 8 de julho de 2007

I want a little sugar in my bowl


Ela calçou as sapatilhas de porcelana e foi rodopiando até o banheiro. A porta estava fechada e de lá vinha uma música alta e agradável aos ouvidos. Música que dava vontade de dançar. Ela bateu na porta e não houve resposta. Então resolveu abri-la assim mesmo e entrou. Era uma festa. Ninguém notou sua presença. Ninguém, exceto eu, que fui em sua direção com meus sapatinhos vermelhos de cristal. Minha visão estava embaçada pela fumaça das vozes abafadas. De repente a música parou e só se ouvia o barulho violento de uma cachoeira, enquanto os coelhinhos saíam de suas gaiolas. Os gatos passeavam livremente pelo banheiro e alguns até dormiam sobre a pia. Ela falou comigo, foi ela quem falou primeiro. Então eu senti medo porque a voz dela era uma mistura de creme de amêndoas com cobertura derretida de chocolate branco. E ela disse que eu tinha voz de menininha assustada, assustada, arrogante, doce e cruel. Sim, ela disse que eu tinha uma voz doce e cruel das crianças que sentem medo do escuro e não medem as conseqüências de suas brincadeiras. A música voltou nesse instante e eu perguntei se ela queria dançar comigo. O que você vai fazer de mim?, ela me perguntou. O que você quer que eu faça de você?, eu perguntei a ela. Não me faça sofrer demais, ela respondeu. Passei a mão pelos cabelos ondulados e soltos dela e nossos rostos se tocaram, nossos lábios se encontraram, as mãos delas percorriam minhas costas e a mão direita foi direto até meu seio esquerdo, e minhas mãos foram subindo por debaixo do vestido dela – e assim ficamos durante toda a música, trocando palavras e tateando nossos corpos. Procuramos um lugar mais isolado, o banheiro estava cheio demais apesar de ser maior que o apartamento inteiro onde moro. Onde você mora?, ela me perguntou. Na Rua das Camélias. Numa cobertura, sétimo andar, e você? Eu moro aqui, moro na cozinha, vamos até a minha casa? E fomos. Ela tirou primeiro meus sapatinhos de cristal vermelhos e depois tirou as sapatilhas de porcelana dela. Depois ela tirou o vestido e eu tirei a minha blusa e a minha saia. Então ela começou a cantar
I want a little sugar in my bowl… E eu me deitei no chão da cozinha de pernas abertas. Ela percorria minhas pernas com a língua e parava de vez em quando para cantar. Eu gemia baixinho e me perguntava se íamos nos ver de novo. Adivinhando meus pensamentos, ela disse que me ligaria no dia seguinte, assim que acordássemos.

Liz Christine

sexta-feira, 6 de julho de 2007

si mon coeur est desespere


É sempre a mesma rua, uma casa de paredes vermelhas, uma sala sem móveis e um som tocando Bessie Smith. Baby, won’t you please come home, baby, won’t you please come home, I have tried in vain, never more to call you name… Um gato branco de olhos azuis, deitado no som, que abandona seus sonhos para perseguir uma mariposa, em seu vôo noturno, que abandona sua descrença para tentar mais uma vez, mais uma vez. Ela sobe as escadas. É uma casa bem antiga. Ela entra em um dos quartos, o maior, e deita na cama sem colcha. O colchão nu, sem travesseiros, uma pilha de livros no chão. Ela não se mexe, espera. Deveria ela trancar as janelas? Até o dia amanhecer, deveria ela trancar as janelas até o dia amanhecer? Ela não sabe descrever. Não sabe descrever o que escuta dentro de si. É o estalo de um vinil estragado. Estragado pelo tempo e por uso indevido. Uso indevido das palavras. Uso abusivo dos silêncios. Exagero e hábito. Ela tem o hábito de exagerar nas dosagens. É a quantidade que meu corpo precisa, ela diz. É a quantidade de imagens que me assaltam em uma noite insone, ela conta. Ela fecha os olhos e recomeça. É sempre a mesma rua, uma ladeira, uma bicicleta estacionada num poste recém-pintado, a rua está sendo varrida e todo o lixo entra na casa de paredes vermelhas. Ela recolhe as embalagens e os papéis amassados, lê cartas antigas de desconhecidos, separa um poema ilegível e o guarda dentro de um livro. Ela espera que seu fetiche se materialize. Leurs coeurs s’embraser… São duas horas da manhã e a outra chega. Traz consigo uma sacola cheia de livros, um notebook, dois Toddynhos e uma foto da Josephine Baker. Entra com a chave, sobe as escadas e se encontram no quarto, sem pronunciar uma palavra. As duas desembrulham um pacote que estava embaixo da cama.

Sou exibicionista. Adoro tirar fotos nua. Adoro foder com alguém assistindo. Adoro sexo oral. Adoro mulheres de cabelo curto. Adoro o corpo e a pele e a voz das mulheres. Adoro lingeries, meias, pirulitos de morango e trufas. Ontem de madrugada vi cinco filmes do Bergman e de manhã fui até a banca comprar jornal. Adoro andar na rua de manhã cedinho quando não dormi a noite inteira. Anoto todos os meus sonhos. Detesto perfume masculino. Só escuto música eletrônica e jazz e blues. Também gosto de música clássica mas não costumo ouvir, não tenho nenhum Cd de música clássica. Ontem eu roubei um Talento branco e meu coração disparou. Saí do mercado eufórica e feliz. Que mais eu posso dizer? Ah todos os meus ménages foram incompletos, sempre uma das pessoas não desejava uma das outras duas… Uma vez, na casa de um amigo, eu fiquei a fim de uma garota que tinha acabado de conhecer. Era amiga de uma amiga minha. Ela também se interessou por mim. Mas minha amiga era apaixonada por mim e eu não queria ficar com a outra na frente dela. Acabamos ficando as três mas ela não quis foder com a minha amiga e

Ela retira a fita. Liga o notebook. A outra guarda a fita numa caixa e coloca a caixa dentro do armário. Diz: eu trouxe mais uma fita, vamos ouvir agora? Ela responde que agora não, agora ela vai instalar um programa. O gato branco de olhos azuis entra no quarto. Deita na cama sem colcha. Ela acaricia o gato. Estão em silêncio, o som continua vindo da sala, não é mais Bessie Smith, é Billie Holiday. Gonna snob the moon above, seal all my windows up with tin, so the love bug can't get in, I'm gonna park my romance right alone the curb, hang a sign upon my heart: "please don't disturb”, and if I never fall in love again, that's soon enough for me, I'm gonna lock my heart and throw away the key… Cada uma bebe o seu Toddynho. A outra pega no sono e eu toco a campainha. Atravessei a mesma rua de sempre e toquei a campainha da casa de paredes vermelhas. Ninguém respondeu mas sei que estavam ouvindo a minha fita. A minha voz. Toco de novo a campainha. Quero a minha voz gravada de volta. Não atendem. Eu atravesso mais uma vez a mesma rua de sempre, desço a ladeira, já é manhã. Eu compro um jornal e me prometo voltar na noite seguinte, antes de meia noite. Vejo uma mariposa de asas brancas. Mas eu nunca consigo voltar antes da meia noite. Nunca entrei na sala sem móveis. Adivinho as duas todas as noites. E espero a noite seguinte.

Je t’inventerai

Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
(da música Ne me quitte pas)

Liz Christine

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Línguas


Gostaria de sentir uma língua em todas as partes do meu corpo. Todas. Eu já tive quase tudo que sonhei. Eu me deixei descobrir. Porque eu me permitia começar.

Eu quero o teatrinho onde podemos ser nós mesmos.

Eu namorava uma menina há um ano e ela se afastou de mim em uma festa que fomos juntas, ela se afastou e depois veio falar comigo como se não nos conhecéssemos. Nós nos conhecemos de novo e ela me levou para a casa dela de táxi.

Essa mesma menina me viu com a ex dela. Fotografamos tudo. Essa mesma menina ficou à três comigo e com outras diversas vezes. E ela me lambia toda. E latia. Eu amava os quadris largos dela, a pele clara, os olhos verdes, os seios nem muito grandes nem tão pequenos. Um corpo bonito, um rosto de boneca, e diferente de todas as outras. Foram anos maravilhosos, os melhores da minha vida.

Quem poderia ter sido mais importante que ela? Não fiquei sozinha depois dela. Tive outras. Fiz ménages com minha melhor amiga, uma morena de cabelos curtos que amava as letras da Nina Simone e da Etta James, e alugava filmes do Bergman e da Louise Brooks para ver comigo. Perdemos contato quando comecei a namorar de novo. Mas foi minha melhor companhia daquele tempo. Ela me chamava de soulsister. Eu adorava.

Fiquei um tempo com uma só, nunca fizemos nada à três ou à quatro ou à cinco. Era muito bom mesmo assim. Era perfeito, suave, delicioso. E ela também gostava de ler.

Mas a garota de olhos verdes foi meu amor e minha fantasia realizada. Porque sempre fantasiei viver uma paixão recíproca. Eu queria me apaixonar por quem fosse apaixonada por mim. Eu vivi isso... A primeira vez que me apaixonei foi decepcionante... A garota de olhos verdes foi meu segundo amor verdadeiro. Não vou falar do meu primeiro amor, ainda não...

Liz Christine

terça-feira, 5 de junho de 2007

Deixo de ser


“Let me sing
A sad refrain
A broken heart
That loved in vain”
(na voz da Ruth Etting)

As palavras trocam de rosto. As músicas mudam de direção. Os sonhos se misturam ao que já foi vivido e não deveria ter sido daquele jeito, ou simplesmente nem devia ter se acabado. E a realidade parece um filme ruim, mal escrito. Às vezes a realidade parece mais um sonho cheio de prazeres. Quando isso acontece, deve-se viver na realidade, claro. Mas quando parece um filme ruim... não é melhor se refugiar em outros cantos? Fugir, fugir... resolve? Até passar, só até passar. A cor dos olhos das palavras varia de verde à castanho. As feições variam de idade. E as letras das músicas se transformam o tempo todo de acordo com o sentido em transição de cada vida. Cada dia é uma vida inteira. Cada semana é uma vida inteira. Cada mês é uma vida inteira. Cada ano é um amontoado de vidas. E o que se faz de cada vida? Fugir, fugir... quando a realidade parece... mudar? Perdi duas semanas me buscando. Onde eu estava?, até onde eu fui? Não me achei ainda. Não consigo me encontrar quando só desejo fugir. Deixo de ser. Mas escrevendo eu sempre encontro o que eu busco...

Liz Christine

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Eu te exijo

Fumando palavras e ausências fumando abstinência saudade vontade
Fumando angústias recordações a noite que vem fumando estrelas que cantam
“Todos nós estamos na lama” – Oscar Wilde, O leque – “mas apenas alguns de nós estão olhando as estrelas.” O que estou olhando é um espelho eu vestindo um casaco apenas um casaco eu me olhando no espelho de cabelos úmidos e olhos irritados pela fumaça
Coração irritado pela ausência ausência de mim mesma se me estruja el corazon
Eu não estou em cada palavra que eu digo
Estou em cada silêncio distante que prolongo estou em cada brasa que cai na pia
Fumando vozes no banheiro fumando vozes de sonhos a voz do Louis Armstrong sorri para mim cantando “Ain’t nobody’s business if I do” what did I do what did I do
Pego a tesoura e corto uma mecha de cabelo gostaria de cortar minha língua e não poderia mais não poderia mais não poderia mais
Mas eu adoro
So lonely I wanna die Todos tão sozinhos nós estamos inseridos numa confusão de vozes que opinam sem ajudar e eu exijo eu exijo
Uma língua apenas uma língua que não me exija nada e que não me confunda e que não me ame porque amar é cercar de cuidados que estou despreparada para receber
Receber e retribuir receber e aproveitar receber e assoprar
Assoprar as feridas do amor não correspondido porque eu não correspondo ao comportamento esperado eu não correspondo à esperada delicadeza com os sentimentos e anseios alheios
Eu e a minha ansiedade e confusão de sentimentos e fumaça e ausência
Ausência de mim mesma no cotidiano e nas frases trocadas eu não tenho mais domínio do que respondo respondo qualquer coisa só para fugir
A verdade é essa: quero fugir
Fugir com uma língua por duas semanas para fumar todas as músicas que eu amo
Uma língua que não me ame que não me exija porque amar é também exigir e eu exijo eu exijo
Eu te exijo

Liz Christine

segunda-feira, 7 de maio de 2007

plantações de palavras


I just can’t put my poor self together… quero mel, velas, sorvete de pavê, sorvete de café e sorvete de brownie. Quero ela, você, e mais outra, e mais outra. Mais outra música. As músicas todas têm um rosto. Rostos que se repetem. Músicas têm cor, corpo, olhos, cabelos, perfumes, curvas, estatura. Eu me olho no espelho e nunca me reconheço. Quando me vejo semi-nua eu me amo tanto quanto um gato ronronando. Eu me espanto com o que eu fiz. Meu inconsciente escreve. Meu inconsciente lê pessoas. Meu inconsciente relê o passado. Não existe passado. Apenas sentimentos. Todos presentes, todos presente. Não existe nem passado nem futuro. Pessoas nascem a cada instante. Cada vez que se conhecem. “Nasci na noite em que te conheci, eu não tenho passado...” Uma frase do filme Gilda que nunca esqueço. Porque eu sinto assim. Mas faz tempo que não me sinto nascer de novo. Eu me sinto velha e desbotando de tantas lágrimas colhidas ao pé das orelhas repletas de piercings. As ovelhas estão cada vez mais irascíveis. Por que há pessoas vingativas nesse mundo tão repleto de verde e azul e vermelho e lilás e roxo e rosa? Não sou assim. Sou o ronronar de um gato. Eu quero prazer, quero nascer, quero ser um sorvete cremoso derretendo numa tarde fria e úmida de inverno. Quero uma língua incansável, uma mente artística, um corpo feminino e delicado. Quero a voz que me faz suspirar também, não precisa fazer nada, apenas falar. Não sei. Todos os assuntos, não sei. Eu nunca sei de nada, nem de mim mesma. Não sei mais o que eu penso a respeito de nada. Mas sei que as ovelhas estão irascíveis. E maldosas. Talvez seja impressão. As ovelhas não mexem mais na minha cabeça, nas minhas costas, na minha nuca, no meu cóccix. Elas mexiam em tudo, sabia? E amavam Billie Holiday, tanto quanto eu. Quero todas. Todas as músicas que me fizeram derramar lágrimas de saudades. Saudades de ronronar. Saudades de ser um sorvete cremoso derretendo numa tarde fria e úmida de inverno. Saudades de ser criança que ama brincar com suas bonequinhas de porcelana. Saudades de andar semi-nua por entre plantações de palavras. Saudades do verde nos meus lábios. Nunca mais eu vou fugir. Nunca mais eu vou mergulhar. Nunca mais eu vou calar a boca. Quero ir-me embora. Quero voltar ao verde. Quero seguir em frente com o amor que eu sinto crescer a cada amanhecer. Cada anoitecer. Amor pelas músicas que se reduzem a duas únicas imagens. Rostos que se repetem. Palavras que me envolvem. É assustador o meu problema. Meu problema se chama...

Liz Christine