Dois terços de tédio e um quarto de bonecas. Sobre o lençol azul com borboletas desenhadas descansa uma bandeja de café com rosquinhas amanteigadas e uma xícara vermelha com leite desnatado aquecido no microondas. Duas da tarde e as cortinas fechadas escondem parcialmente o dia. Olho para a coleção de bonecas e me lembro que esqueci teu rosto. Talvez eu tenha esquecido teu rosto na pia do banheiro ou dentro da cafeteira. Aos domingos costumo procurar teu rosto pela casa mas só encontro nuvens ou coleções de bonecas. Traços tão comuns quanto os dois terços de tédio em cada colher de açúcar light. Vez por outra falta alguma coisa qualquer. Um antigo transtorno que acorda lentamente quando as nuvens fecham o tempo e me lembro das horas de fome. Eu me alimento tão bem agora que vez por outra me estranho. O que mais me espanta é que nem engordei depois dos anos de fome terem terminado. Tudo se transforma mesmo, exceto a nostalgia das ovelhas parcialmente perdidas ou acomodadas. As paredes podiam ser mais coloridas. O mundo podia ser mais pacífico. Eu poderia ser menos arredia. Tua intransigência podia ser mais suave. Minha incompatibilidade com a tua realidade podia também ser mais abstrata. Seja como for, teu rosto está esquecido em algum canto da casa (...). E agora eu flutuo ou volto para a cama.
Liz Christine
sábado, 2 de outubro de 2010
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